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Zumbis e Designers

De um lado zumbis que ficam entre o que é coisa e o que é gente. Do outro, os supervivos sempre prontos para a reconstrução de si mesmos.

Walking Dead é uma série de sucesso. Zumbis têm um pensamento confuso, andam cambaleando e ficam entre o que é coisa e o que é gente. Querem comer os vivos. Mas são lentos e é divertido abatê-los. Filmes da Marvel também fazem sucesso. Ali estão os que se apresentam como o oposto dos zumbis. Surgem os supervivos, sempre prontos para a reconstrução de si mesmos. São autodesigners. São autointensificadores.

O êxito desses gêneros deveria nos fazer pensar: o quanto identificamos nossas sociedades com tais situações, a ponto de nos sentirmos como que tomando conhecimento de alguma coisa ao ver tais películas. Entretenimento por entretenimento, poderíamos ficar com coisa melhor. Mas Walking Dead e Marvel possuem um certo encantamento, nos dão uma certa sensação de que estamos sendo informados sobre nós mesmos. Por quê?

O que se passa em Walking Dead está estudado por Karl Marx. O que é a norma nas séries da Marvel está descrito por Peter Sloterdijk. Foram eles que viram a modernidade como dividida entre os zumbis e os designers de si mesmos. Marx analisou tal coisa a partir da teoria do valor e da teoria do fetichismo da mercadoria. Sloterdijk analisou tal coisa a partir de uma peculiar teoria da subjetividade.

De modo brevíssimo, explico ambos.

Marx advogou a ideia de que o valor da mercadoria é o trabalho abstrato nela contido. Por isso, cada mercadoria sensível, concreta, é também prenhe do suprassensível, do que é social-humano. Nesse sentido, a mercadoria, coisa sensível, levanta sua cabeça diante dos humanos e cria vida, se comportando como um fetiche. Adquirindo essa função de sujeito, põe os humanos na condição de objetos. Os humanos, seus produtores, se veem à mercê das coisas, que adquirem vida e comando. O capitalismo é o reino do fetiche, e ao mesmo tempo o lar da reificação do homem. O campo de passeio dos zumbis. Somos todos zumbis na sociedade de mercado. Agimos como semi-coisas, uma vez que as coisas agem como vivos e prenhes de egoidade.

Sloterdijk advogou a ideia de que o homem moderno é aquele que fez da disposição de Sartre uma ideologia. A questão do homem moderno, como Sartre expôs, é a de se perguntar o que fazer com aquilo que dele foi feito. O homem moderno não se entende acabado, mas sempre em reconstrução, em uma eterna autoelaboração através de projetos educacionais, culturais e biogenéticos. O frenesi do homem moderno, em constante atividade, disposto a fazer da ação de guerra um jogo e do jogo um trabalho, mostra um desejo de ser tudo menos um zumbi, e sim um autodesigner dos melhores. Quando agimos como mutantes, no estilo de um Capitão América ou coisa parecida, estamos no nosso melhor. Nossa subjetividade autoconstruída, heroica e novidadeira está sempre pronta testar uma nova armadura de Tony Stark.

Assim, à primeira vista estamos cindidos. Ou há aí, talvez, duas teorias irreconciliáveis para descrever os nossos tempos?

Mas, se nos debruçamos mais atentamente para o que fazemos, podemos notar que, se dermos um passo para além dessas duas teorias, e pensarmos, ainda, com elas, veremos conciliação. O homem reificado, o zumbi que surge diante da mercadoria efetivamente e realmente fetichizada pelo valor, ainda é um semivivo. Deve se mover. Todavia, como se mover? Como se comportar? Ora, só há um modelo de ser vivo para este homem seguir e imitar: exatamente a mercadoria. Se ela pula da esteira da fábrica para o balcão, então ela ensina o homem a imitá-la. O homem reaprende a ser um ser movente se movendo como o que ensina a mercadoria, então transformada no que é vivo. O homem adquire semivida, imitando a mercadoria fetichizada.

Num mundo como o nosso, os robôs que se autorrefazem e os computadores que se autocorrigem aprenderam a atuar de maneira a parecerem mais vivos que qualquer outro ser vivo. Dão lição de performance. Se tornam autodesigners com capacidades heroicas. São exímios aproveitadores de feedbacks para si mesmos. São como o Capitão América que pode ser descongelado e funcionar normalmente, ou como as armaduras de Stark, que lhe dão a condição de aparecer como tipos diferentes de Homem de Ferro, em tempos diferentes.

Quando nos vemos assim, entendemos perfeitamente o quanto Walking Dead e a Marvel nos é familiar. São filmes que nos dão intrigantes espelhos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalhou junto da produtora de TV e filósofa Francielle Maria Chies no programa Hora da Coruja da FLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA).
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