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Vulnerabilidade, Segurança e Sobrecarga Alostática: Por Que Não Estamos Mais Dispostas a Pagar com o Corpo para Pertencer

Descubra como a vulnerabilidade na liderança feminina se conecta à sobrecarga alostática e por que ambientes com segurança emocional são decisivos para preservar saúde mental, regular o sistema nervoso e sustentar alta performance sem esgotamento crônico.

Vulnerabilidade, Segurança e Sobrecarga Alostática: Por Que Não Estamos Mais Dispostas a Pagar com o Corpo para Pertencer

Vulnerabilidade, Segurança e Sobrecarga Alostática:
Por Que Não Estamos Mais Dispostas a Pagar com o Corpo para Pertencer

Existe uma crença silenciosa que atravessa ambientes corporativos, famílias e relações afetivas: a de que, para sermos respeitadas, precisamos ser impenetráveis. Como se força fosse sinônimo de rigidez, como se liderança exigisse blindagem, como se competência não combinasse com emoção.

Mas a verdade é que, em terreno seguro, a vulnerabilidade não enfraquece, ela aproxima. E mais do que isso: ela acelera a conexão humana de uma forma que nenhuma estratégia racional consegue produzir sozinha.

Durante muito tempo, aprendemos a performar versões editadas de nós mesmas. Especialmente as mulheres em posição de liderança. Em contextos historicamente masculinos, demonstrar dúvida, medo ou insegurança podia significar perda de credibilidade, então vestimos armaduras. Construímos discursos impecáveis. Aprendemos a responder antes mesmo de sentir. E funcionou, até certo ponto.


O problema é que armaduras protegem, mas também isolam.


A pesquisadora Brené Brown trouxe uma contribuição poderosa ao afirmar que vulnerabilidade não é fraqueza; mas o berço da coragem, da criatividade e da conexão. Vulnerabilidade é se expor emocionalmente quando não há garantia de resultado. É dizer “eu não sei”, “eu estou com medo”, “eu preciso de ajuda”, mesmo correndo o risco de julgamento. E aqui deixo uma pergunta: qual o peso do julgamento para você?

Mas há uma condição fundamental: o terreno precisa ser seguro.

  • Vulnerabilidade sem segurança é exposição.
  • Vulnerabilidade com segurança é vínculo.

E aqui entramos em uma mudança radical que está acontecendo nas relações humanas: as pessoas não estão mais dispostas a sacrificar seus sistemas nervosos por amizade, por amor ou por pertencimento. Não estão mais romantizando ambientes onde precisam viver em estado constante de alerta. Não estão mais aceitando vínculos que exigem hipervigilância, autocensura contínua ou medo de retaliação emocional.

Essa mudança não é apenas cultural, é fisiológica.

Nosso corpo foi desenhado para lidar com estresse pontual, não crônico. Quando enfrentamos um desafio, o organismo então ativa mecanismos de adaptação: aumenta a frequência cardíaca, libera hormônios como cortisol e adrenalina, mobiliza energia. Esse processo de ajuste contínuo chama-se alostase: a capacidade do corpo de manter estabilidade por meio da mudança.


O problema surge quando essa ativação se torna permanente.


O conceito de sobrecarga alostática, desenvolvido pelo neurocientista Bruce McEwen, descreve exatamente isso: o desgaste acumulado do corpo por viver tempo demais em estresse sem acesso real ao descanso, à segurança e ao acolhimento. É quando o organismo permanece em modo de sobrevivência por tanto tempo que começa então a pagar um preço alto: físico, emocional e cognitivo.

A sobrecarga alostática não é apenas cansaço. É exaustão profunda, dificuldade de concentração, irritabilidade constante e sensação de ameaça difusa. É adoecimento, é o corpo dizendo: “eu não consigo mais sustentar esse nível de tensão”.

Quando uma pessoa permanece em relações onde precisa se defender o tempo todo  seja em um casamento, em uma amizade ou em um ambiente de trabalho; ela pode até funcionar, mas está operando sob custo biológico elevado. O sistema nervoso não distingue tão claramente uma ameaça física de uma ameaça relacional. Rejeição, humilhação, imprevisibilidade emocional também ativam respostas de sobrevivência.

E ninguém foi feito para viver assim.

É por isso que segurança emocional deixou de ser luxo e passou a ser critério. Porque vínculos que exigem constante autoanulação ou vigilância produzem sobrecarga alostática. E, intuitivamente ou conscientemente, as pessoas estão começando a perceber que conexão verdadeira não pode custar saúde.

Nos estudos sobre equipes de alta performance conduzidos pelo Google, no chamado Projeto Aristotle, o fator mais determinante para resultados não foi o QI coletivo nem a senioridade técnica, mas a segurança psicológica, a liberdade de errar, questionar e discordar sem medo de punição.


Quando existe segurança, algo extraordinário acontece: o corpo relaxa. E quando o corpo relaxa, a criatividade aparece. A colaboração flui. A confiança se aprofunda.


Sem segurança, não há vulnerabilidade possível. Há apenas estratégia defensiva.

Em processos de mentoria e desenvolvimento de liderança feminina como o ALMA – Aceleradora de Liderança para Mulheres, vejo isso com clareza. Muitas mulheres chegam altamente competentes, produtivas, admiradas. Mas também chegam exaustas. Sustentaram por anos ambientes hostis. Provaram seu valor repetidamente. Engoliram emoções para manter a imagem profissional. Resolveram conflitos sozinhas. Carregaram expectativas familiares e organizacionais.

Por fora, sucesso. Por dentro, sobrecarga alostática.

Quando encontram um espaço verdadeiramente seguro, onde podem falar sem serem interrompidas, onde não precisam performar força o tempo todo, o corpo então começa a desacelerar. A respiração muda. O tom de voz muda. A narrativa muda.

E é nesse momento que a conexão acontece.

Porque pertencimento regula o sistema nervoso. Pertencimento comunica ao corpo: “você não está em perigo”. Pertencimento reduz a carga fisiológica acumulada. E, paradoxalmente, é nesse estado de maior segurança que a potência emerge.

A nova maturidade relacional passa por aqui: escolher vínculos que não produzam desgaste crônico. Escolher ambientes onde a autenticidade não seja punida. Escolher relações que ofereçam previsibilidade emocional suficiente para que possamos baixar a guarda.

Isso não significa evitar conflitos. Significa saber que o conflito não será usado como arma. Não significa ausência de cobrança. Significa presença de respeito. Não significa eliminar pressão. Significa garantir apoio.


Vulnerabilidade madura não é descontrole emocional.


Não é despejar sentimentos de forma indiscriminada. É compartilhar de maneira consciente, contextual e responsável. Saber que o outro não usará sua fragilidade contra você. Ter clareza de que há acolhimento, mesmo quando há discordância.

Em liderança, isso é revolucionário. Uma líder que reconhece um erro publicamente não apenas humaniza sua posição; ela regula o ambiente. Ela comunica segurança, reduz a necessidade de defesas artificiais na equipe e diminui a sobrecarga alostática coletiva que se instala em culturas de medo.

Existe um paradoxo poderoso: quanto mais tentamos parecer invulneráveis, mais tensão então criamos ao nosso redor. E quanto mais inteiras nos mostramos, com força e sensibilidade integradas, mais confiança  assim geramos.

A perfeição ativa comparação. A autenticidade ativa conexão.

Estamos atravessando uma transição nas relações humanas. Menos tolerância a vínculos que drenam. Mais consciência sobre saúde mental, mais clareza sobre limites bem como mais discernimento sobre o que é amor e o que é dependência. O que é liderança e o que é controle.

E talvez essa seja a verdadeira revolução: estamos entendendo que não vale a pena manter relações que exigem o sacrifício constante do próprio sistema nervoso. Que não vale a pena pagar com o corpo por pertencimento. E que, sem dúvida, não vale a pena sustentar sucesso às custas de esgotamento crônico.

Em terreno seguro, tirar a armadura não é risco — é regulação, é descanso, é recuperação, é força sustentável.

A vulnerabilidade, quando sustentada por segurança, não nos diminui. Ela nos integra, nos devolve ao corpo, nos conecta.

E conexão verdadeira não adoece. Ela fortalece.


Gostou do artigo?

Quer entender como a vulnerabilidade na liderança feminina pode impactar sua saúde bem como evitar a sobrecarga alostática criando ambientes com segurança emocional real? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar sobre este tema.

Até a próxima!

Luciana Soares Passadori
https://www.passadori.com.br

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Luciana Soares Passadori é mentora, coaching de desenvolvimento humano e facilitadora de autoliderança, liderança integral e liderança situacional. Possui vasta experiência no atendimento de grandes empresas para desenvolvimento de soluções em treinamentos comportamentais. Realizou a formação em Coaching Integrado – Coaching Executivo, Life Coaching pelo ICI Integrated Coaching Institute – Credenciado pelo ICF International Coach Federation, formação em DISC Profiler Solides e formação em Mentoria pela Enora Leader, formação em liderança feminina com Sally Helgesen. Criou e conduz, juntamente com Reinaldo Passadori, o curso Autoliderança Transformadora que tem um modelo de programa de autodesenvolvimento que potencializa as competências profissionais e pessoais. Advogada de formação, pós-graduada em Psicologia Transpessoal e especializada em Psicologia Forense. Iniciou sua jornada na carreira jurídica, onde atuou com Direito de Família por 12 anos. É Diretora estratégica do IVG, participa do comitê executivo do Programa Mentoria Colaborativa – Nós Por Elas do Instituto Vasselo Goldoni. E coautora do livro Mentores e suas histórias inspiradoras – Editora Leader.
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