Você julga ou você analisa comportamentos?

O Coach busca sempre entender o ser humano nas demonstrações de forças e fraquezas, construindo caminhos. Mas é possível analisar comportamentos sem julgar? Ou ao julgar algo, o Coach fica comprometido?

Dias atrás, aconteceu-me um fato que me fez pensar bastante e o qual quero compartilhar com os amigos leitores. Para começo de conversa, vale sempre lembrar que a nossa língua portuguesa tem algumas sutilezas e, vez ou outra, cria armadilhas. A pergunta que faço é a seguinte: é possível analisar comportamentos sem julgar? Ou ao julgar algo, o Coach fica necessariamente comprometido com o contexto, assunto ou atendimento ao cliente?

Vou contar como nasceu esse tema e que, imediatamente, remeteu-me ao mandamento quase bíblico que rege os profissionais de Coaching: não julgarás seu cliente. Um detalhe apenas, é que neste caso a expressão “julgar” em nada se confunde com o aspecto de decidir por uma causa, litígio ou processo. Aqui, assume-se a expressão “julgar” como sinônima de supor, considerar e, se preferirem, avaliar ou analisar.

Peguei um voo do Rio de Janeiro para Nova Iorque e, felizmente, tudo ocorreu direitinho e o avião aterrissou às 05:40h de uma ensolarada manhã. Como é normal em voos longos, basta o avião estacionar para que as pessoas já se levantem, busquem ganhar dianteira ao sair e só consigam, mesmo, gerar um ambiente de “espreme para cá e empurra para lá”. O caso é que, nesse voo, o avião nem tinha ainda parado no finger, aquela plataforma que se conecta à fuselagem. Ele estava em meio ao caminho, com um alerta do comandante.

Devido ao fato de que ainda não são 06:00h, a imigração americana está fechada e só faremos a continuação ao terminal, com a parada final, em vinte minutos. Peço aos passageiros que aguardem sentados em seus lugares. Como eu normalmente deixo para sair com mais calma, de qualquer forma iria continuar sentado. Mas comecei a acompanhar a reação de todos aqueles que já carregavam suas bagagens e se espremiam pelo corredor. Estava eu “analisando comportamentos diferenciados de pessoas” ou “julgando pessoas pela desobediência às normas do comandante”? Ou estaria eu fazendo as duas coisas?

Enfim, o tempo parecia não passar e aquelas pessoas que estavam de pé, mas deveriam estar sentadas, transbordavam ansiedade, angústia e inquietação. Isso sem falar de crianças no colo de seus pais inquietos. Olhando para suas expressões, via-se que haveria um “quase atropelo” quando as portas se abrissem, o que ocorreu com alguns (felizmente, com uma minoria não se deixando levar pelo clima). Já no hotel, eu me questionei se teria ultrapassado (ou não) o princípio de nunca julgar os outros. Afinal, um Coach tem isso como princípio profissional.

Não sei se foi para me dar a desculpa ou mesmo para valorizar o fato como aprendizagem, conclui que o Coach é como o comediante que transforma o cotidiano em um palco de conhecimento e laboratório de criação de histórias. Em nome de levar as pessoas ao riso, o comediante quer fazer graça com os diferentes tipos de comportamentos, o que é inerente à sua esfera profissional. Porém, o Coach, tem outra ambição, que é a busca sempre presente de entender o ser humano nas demonstrações de forças e fraquezas, construindo caminhos.

Conclui que, no avião, eu não julgava as pessoas pelo certo ou errado, por serem iguais ou diferentes na ação. Mas pude perceber que, mesmo em um momento onde tudo era letargia e que ninguém poderia trazer qualquer interferência ao ambiente, as pessoas agem de maneiras muitos díspares e até sem sentido. O profissional de Coach deve respeitar e buscar entender para, em eventual necessidade, trazer o aprendizado ao ambiente de um processo em curso.

Mario Divo Author
Mario Divo tem incrível experiência profissional, tendo chegado a meio século de atividade ininterrupta, em 2019. É PhD e MSc pela Fundação Getulio Vargas, com foco em Gestão de Negócios, Marcas e Design, Marketing e Comunicação Corporativa. Tem formação como Master Coach, Mentor e Adviser pela Sociedade Brasileira de Coaching e pelo Instituto Holos. Consultor credenciado para aplicação do diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool), Professor e Palestrante. CEO e Coordenador Executivo da plataforma Dimensões de Sucesso, acumulando com o comando da MDM Assessoria em Negócios. Foi Diretor Executivo do Automóvel Clube Brasileiro e Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras. Liderou a Comunicação Institucional e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Foi Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e, também, Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior em 126 países e territórios, voltada ao desenvolvimento das potencialidades das jovens lideranças em todo o mundo.
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