
Não é falta de conhecimento, é falha de escuta!
O viés hiperbólico do futuro e outros 4 vieses que explicam nossa paralisia
“Nunca tivemos tanta informação. Nunca estivemos tão paralisados. O problema não é falta de dados — é falta de musculatura coletiva para sustentar escolhas difíceis.”
Caro leitor, preciso de uma resposta honesta:
Sou só eu que me sinto dividido e perdido diante do contraste abaixo?
De um lado, a ciência está aí — números, curvas, relatórios, imagens — insistindo que nosso modelo civilizacional não fecha as contas com a realidade: biodiversidade em queda, clima instável, riscos sistêmicos se acumulando.
Do outro, o imaginário dominante acelera na direção oposta: data centers em órbita, promessas de inteligência artificial como salvação, uma fé tecnológica que parece não ter limite — mesmo quando o preço é alto, social e moralmente: concentração radical de riqueza, assimetrias de poder e um futuro “aumentado” que sugere um novo ser humano-ciborgue reservado para os poucos.
E é aí que eu travo.
Não por falta de informação, mas pelo excesso — e pela ausência de um diálogo coletivo. Quando eu era adolescente, eu acreditava numa ideia simples: “quando a informação chegar, a consciência virá; quando a consciência vier, a mudança começa”. Hoje a informação chegou, em abundância. O que não chegou, com a mesma força, foi a capacidade coletiva de escutar o que esses dados significam — de construir uma resposta que seja, de fato, uma prova de escuta.
Minha tese é simples: informação não basta. Nossa programação é afinada para a sobrevivência imediata e individual; quando o desafio exige pensar a sobrevivência coletiva nas próximas décadas, nos faltam instrumentos — e, sobretudo, inteligência coletiva — para cocriar respostas à altura dos desafios.
A crise é grande demais para caber numa mente isolada, e nossa vida moderna — acelerada, fragmentada, hiperestimulada — nos treina para o oposto: resposta curta, indignação breve, esquecimento rápido. Sem falar na multiplicação dos sofrimentos individuais, que trava qualquer reflexão. A mente entra em curto-circuito não por falta de inteligência, mas por falta de ferramentas sociais, de espaços e de diálogo. Abaixo, cinco motivos para nossa surdez coletiva.
1) O tempo do planeta e a miopia do ciclo eleitoral
Os pontos de ruptura do clima e da biodiversidade operam em décadas, a política, em ciclos de 4 ou 5 anos. As decisões são desenhadas para sobreviver à próxima eleição, ao próximo relatório anual, ao trimestre, à meta, ao bônus… não para atravessar a próxima geração. O planeta fala em tempo longo; nós respondemos com urgências pequenas. Falta um sistema capaz de sustentar compromissos além do mandato.
2) O viés hiperbólico: o futuro perde para o conforto do presente
O viés hiperbólico do futuro faz o amanhã parecer sempre menos urgente do que o alívio de hoje. O sofrimento das próximas décadas, mesmo quando previsível, perde para o conforto imediato do presente. E assim adiamos… enquanto o mundo real não adia, ele acontece – inexoravelmente.
3) O viés do free-rider (carona) e a tragédia dos comuns.
Clima estável e biodiversidade são bens comuns. Embora cada um de nós dependa deles, ninguém sente posse. O incentivo então se distorce: “se eu abrir mão do ganho imediato, outro não abrirá.” A floresta vira oportunidade, o carbono vira externalidade, o oceano vira estoque. E a economia, como está desenhada, frequentemente premia essa lógica: mede lucro, escala e velocidade — e o que não é medido (vida, regeneração, tempo longo) vira detalhe. A pergunta deixa de ser “por que as pessoas não mudam?” e passa então a ser mais cruel: como esperamos mudança se o sistema paga por não mudar?
4) O viés da responsabilidade difusa — e isso anestesia
O colapso raramente chega como um evento único e inequívoco. Ele chega como normalização. O extraordinário vira rotina: “verão forte”, “azar”, “sazonalidade”. Sem um único culpado, a urgência evapora. E, quando a urgência evapora, a responsabilidade também se dissolve: cidadãos culpam governos, governos culpam empresas, empresas culpam consumidores, consumidores culpam “o sistema”. Quando todo mundo é responsável, ninguém se sente responsável o suficiente para que possa começar. A responsabilidade difusa vira uma apatia organizada — e o relógio ecológico continua rodando.
5) O viés da linearidade e os pontos de ruptura planetários
Além disso, sofremos do viés de linearidade — projetamos o futuro como uma continuação suave do presente — e do viés de normalidade, que nos faz apostar que nada ‘quebra’ de repente. Só que sistemas complexos não avisam com delicadeza: mudam por saltos. O planeta funciona com pontos de ruptura e efeitos em cascata. A governança humana, no entanto, costuma operar por negociação lenta, interesses divergentes, ciclos eleitorais e cumprimento voluntário. Exatamente o oposto do que sistemas não-lineares exigem. E aqui vale lembrar: atraso não é neutro. Atraso é decisão — porque em sistemas complexos, tempo perdido vira irreversibilidade.
Conclusão: não é falta de dados — é falta de ferramentas para pensar uma solidariedade transgeracional.
Volto ao início: não é falta de conhecimento. É falha de escuta. Escuta, aqui, não é consumir informação; é admitir seus limites como indivíduo, sair da paralisia e procurar ferramentas, espaços, rituais de conversa real para uma nova democracia transgeracional, vínculos, capacidade de sustentar escolhas ao longo do tempo. Precisamos exercitar um músculo coletivo para encarar o viés hiperbólico do futuro e escolher, juntos, o que de fato queremos preservar — e o que precisamos abandonar.
Se você chegou até aqui, eu faço então uma pergunta simples: onde esse assunto falha para você? No medo? No cansaço? Na falta de tempo? Na sensação de impotência? Ns descrença nas instituições? Ou na ausência de espaços para conversar de verdade?
Eu quero ler você. Eu quero escutar você.
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Quer saber mais sobre como o viés hiperbólico do futuro e a falha de escuta impactam nossas decisões coletivas e o futuro da sociedade? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em ajudar.
Thomas BRIEU
https://www.linkedin.com/in/thomas-brieu/
https://www.instagram.com/thomasbrieu_/
Autor do livro “Escutatória” – Link: https://www.h1editora.com/produto/escutatoria-150183
Coautor do livro “Escute Expresse e Fale” – https://encurtador.com.br/31Vwa
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