
Sociedade, Rentismo e Globalismo: O Fim de uma Era
“O que está em jogo é o fato de que a sociedade moderna começou a desprezar tudo o que não pode ser consumido.” (Hannah Arendt, A Condição Humana)
Há algo profundamente desgastado no mundo do nosso tempo. Não se trata apenas da sucessão acelerada de crises, protestos ou resultados de pleitos eleitorais inesperados. O que se rompe agora são os pactos invisíveis que sustentam a vida em sociedade e que foram desfeitos antes de novos pilares legítimos estivessem erguidos em seu lugar.
No Irã, apenas como exemplo, as movimentações sociais expõem um conflito antigo e cada vez mais evidente: de um lado, uma população, conectada e culturalmente inserida no século XXI; de outro, um Estado que tenta congelar costumes, comportamentos e consciências. Não se trata apenas de uma disputa sobre normas ou estereótipos, mas do embate entre a possibilidade de uma sociedade livre e a submissão a um poder que ela própria legitimou — e que já não consegue oferecer trabalho, segurança social ou qualquer perspectiva concreta de futuro.
Mas seria um erro enxergar esse fenômeno como exclusivo de regimes autoritários ou teocráticos. Em democracias consolidadas, o mal-estar se manifesta de forma diferente, porém não menos profunda. O liberalismo contemporâneo, ao se afastar de suas raízes clássicas, passou a tratar instituições fundacionais como entraves morais. Ao relativizar a família, esvaziar a religião e dissolver parâmetros mínimos de civilidade, acabou apunhalando os próprios mecanismos que organizavam a vida social.
A promessa era de libertação; o resultado foi fragmentação. Comunidades enfraquecidas, indivíduos isolados e uma dependência crescente de um Estado que se expande justamente porque substitui aquilo que foi destruído. A autonomia deu lugar à tutela; a liberdade, à insegurança permanente.
No plano econômico, o globalismo operou com lógica semelhante.
Em nome da eficiência e da integração dos mercados, destruiu cadeias produtivas nacionais, deslocou empregos e esvaziou o valor do trabalho concreto. Produzir deixou de ser central; intermediar, especular e rentabilizar passou a ser o objetivo maior. O mundo passou a ser regido pela lógica financeira, e o rentismo se consolidou como modelo dominante.
Sociedades como a brasileira sentiram esse impacto de forma particularmente dura. De forma mais enfática, o Brasil nos últimos 46 anos, protegeu o rentismo como política implícita de Estado. Recursos sistematicamente drenados da economia real e redirecionados para circuitos financeiros e paraísos fiscais, enquanto a capacidade produtiva interna se enfraquecia. Nesse ambiente, a corrupção deixou de ser disfunção e passou a ser método — um mecanismo de redistribuição perversa que favoreceu elites rentistas e destruiu a confiança institucional.
O assistencialismo, por sua vez, consolidou-se não como ponte para autonomia, mas como instrumento de controle social. Em vez de criar cidadãos produtivos, criou dependências políticas. Em vez de futuro, administrou a sobrevivência. O resultado foi uma geração que assiste à evaporação da ideia de progresso e começa a questionar não apenas sua perspectiva de vida, mas a própria soberania nacional.
Esse sentimento não é exclusivo do Brasil.
Ele ecoa em países que abriram mão de proteger sua produção, sua cultura e seus vínculos sociais em troca de promessas abstratas de crescimento global. Quando o trabalho desaparece, desaparece junto o sentido de pertencimento. E quando uma nação perde sua capacidade de decidir seu próprio destino econômico, perde também parte de sua autonomia política.
É nesse cenário que se explicam as mudanças de governo ao redor do mundo. A migração para uma direita mais conservadora não nasce, majoritariamente, do radicalismo, mas do esgotamento. Trata-se de uma reação a décadas de um modelo que dissolveu referências, enfraqueceu o trabalho e pediu obediência em troca de instabilidade. Não é uma revolução, mas uma tentativa de correção de rota.
Curiosamente, tanto nas ruas do Irã quanto nas urnas do Ocidente, o impulso é o mesmo: a recusa em continuar vivendo sob sistemas que ignoram a experiência concreta das pessoas. Em um extremo, a tradição é imposta até sufocar; no outro, é desconstruída até desaparecer. Em ambos, o vazio produz conflito.
Talvez estejamos assistindo ao fim de um ciclo histórico marcado pela crença de que sociedades sobrevivem apenas de mercados, contratos e desejos individuais. A história, mais uma vez, lembra que civilizações precisam de pilares — família, trabalho, pertencimento e algum senso de transcendência. Quando esses pilares são corroídos, o edifício inteiro se torna instável.
O mundo não está apenas mudando governos ou modelos sociais de produtividade e independência. Está tentando se recompor depois de décadas em que muito foi destruído e pouco foi preservado. E como sempre acontece nesses momentos, o processo é tenso, imperfeito e desconfortável.
Mas talvez inevitável.
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Sandra Moraes
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