Os equívocos dos Programas de Trainee

O mundo corporativo tem um vasto universo mítico, com crenças que se aproximam mais do folclore do que da lógica racional da modernidade. Um dos rituais mais emblemáticos do xamanismo mercadológico são os programas de trainee. Quer entender o porquê?

O mundo corporativo, enquanto espaço histórico-cultural de relações humanas, tem um vasto universo mítico, com crenças que se aproximam mais do folclore do que da lógica racional da modernidade. Um dos rituais mais emblemáticos do xamanismo mercadológico são os programas de trainee.

Contratar uma pessoa para um cargo de liderança que nunca trabalhou no mercado, sem experiência significativa de vida, que ostenta como qualidades “ser jovem” e ter frequentado as “melhores instituições consagradas pela elite”, carece de justificativa racional. Alguns argumentam que os trainees “não carregam vícios de trabalho” ou que, por serem de uma outra geração, estão mais familiarizados com as novas tendências do mercado – desculpas que remetem ao status de pureza virginal e conexão transcendental encontradas em religiões primitivas.

O provérbio “bem sabe mandar quem soube obedecer” aparece em diversas culturas como o taoísmo chinês, a filosofia grega e o cristianismo. Nessa pequena máxima está condensada vários ensinamentos de vida: 1. É preciso respeitar e entender a hierarquia; 2. Você aprende a viver com os exemplos dos outros; 3. Toda experiência de trabalho nos edifica; 4. O contato com o outro nos ensina mais sobre nós do que os livros; 5. A humildade é fundamental para quem obedece e para quem manda.

Todas as instituições sociais sólidas e de credibilidade possuem um plano de carreira onde sempre se começa da base e, gradualmente, se evolui nos postos de liderança através de motivação interna e ajuda de um coach – as religiões tradicionais, o serviço militar, os profissionais de saúde e o campo acadêmico/científico dificilmente criam atalhos na hierarquia para promover seus agentes. Qual a justificativa para os administradores de empresas pularem etapas?

Os departamentos de Recursos Humanos seriam mais racionais e justos se colocassem nos quadros de liderança colaboradores de carreira, contratando coaches para os que se destacam. Respeito a hierarquia, histórico de trabalho, humildade e orientação; ainda são as etapas mais confiáveis na formação de um líder que as sociedades ocidentais e orientais conhecem.

Arthur Meucci possui bacharelado, licenciatura e mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, Doutorado em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie, com especialização em Diálogos entre Filosofia, Cinema e Humanidades pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e formação em Psicanálise pelo Instituto Brasileiro de Ciência e Psicanálise. Trabalhou por dez anos com ensino e consultoria na empresa Espaço Ética e escreveu em coautoria livros best-sellers como A vida que vale a pena ser vivida (Ed. Vozes), O Executivo e o Martelo (Ed. HSM) e a coleção Miniensaios de Filosofia (Vozes). Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Federal de Viçosa.
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