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Os chinelos do presidente chamam por um Impeachment

Somos animais simbólicos. Afinal, somos animais de linguagem. Na política exacerbamos o simbolismo. E o uso dos chinelos é bem isso.

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Somos animais simbólicos. Afinal, somos animais de linguagem. Na política exacerbamos o simbolismo. O fascismo tem sido o exemplo mais claro de exacerbação do simbolismo no campo da política. Bandeiras, uniformes, grandes paradas e tochas de fogo. Em tudo que pode parecer viril e mostrar poder por meio da exacerbação de objetos fálicos, ali está no fascismo.

Também o corpo dos políticos fascistas é algo utilizado ao máximo para o simbolismo. A direita adora a parafernália dos objetos. É como se a coisificação se apoderasse dela segundo a ordem da reificação universal: o que se deve ter como regra para o mundo e que tudo se torne objeto. Os corpos fascistas, os corpos da direita, eles querem se confundir com o mundo dos objetos. É como se cada pessoa de direita mostrasse seu não secreto desejo de ver a inversão entre sujeito e objeto como a regra do mundo. Tudo que é vigente e mantém o status quo é, para a direita, natural. O capitalismo é natural. Se o mercado é onde se dá essa inversão entre sujeito e objeto, e isso é o natural, então que tudo se inverta segundo tal norma. Que bom, então, que meu corpo possa se colocar como mais um elemento desse mundo de coisas – assim quer o homem de direita. Sinto-me vivo como sendo um zumbi. No mundo dos objetos, um objeto que aparentemente ainda se move por uma pseudo vontade própria, tem seu destaque, seu merecimento, seu prêmio. Que ótimo ser zumbi num mundo de coisas exclusivamente mortas.

No Brasil, nunca vamos nos esquecer de Collor, levantando cada dia com uma camiseta nova, com dizeres no peito. A ideia de poder dar recados para a população, sem a mediação da imprensa ou dos partidos. O corpo do presidente deveria dizer tudo. O presidente havia morrido, claro, pois a campanha tinha terminado. Então, permanecia vivo o capitalismo, o mundo dos objetos tornado sujeitos, e o corpo do presidente mantinha-se um eco de sua existência.

Agora, essa característica do corpo posto como um objeto a mais, e capaz de dar recados, voltou à moda. O corpo é um outdoor ambulante. É o corpo de Bolsonaro. Todavia, Bolsonaro é o fascista trapalhão. Desse modo, há momentos em que seu corpo se mostra segundo uma simbologia consciente, e há momentos que temos que ler no seu corpo os recados um tanto inconscientes para o próprio Bolsonaro. Afinal, zumbi tem consciência? A arma na cintura era símbolo e recado. Consciente. Ato intencional. Bolsonaro queria mostrar-se o jagunço da nação. O policial em serviço. O homem do membro viril. Daria tiros em comunistas, travestis, negros desobedientes e coisas do tipo. Todavia, diante da cadeira da presidência, veio a incompetência e o medo. O uso dos chinelos é bem isso. Trata-se do apego a um objeto que lhe garanta a condição de semidoente. Está presidente, mas, nas horas difíceis, pode não estar. Só pessoas a meio caminho usam chinelos e calças e tiram fotos assim fora da praia. Ele não pode vestir de modo completo o uniforme de presidente, então, fica sempre pela metade. É um aviso, uma desculpa, um subterfúgio que o corpo mostra – inclusive para ele mesmo!

O recado do corpo do homem de direita continua sendo a sua bandeira, seu dístico. Mas agora, trata-se de ato falho. Ou quase isso. É sim um recado, mas um recado também para ele mesmo. É a mostra de um desejo de poder fugir, de dizer-se febril, como eterno esfaqueado, como eterna vítima, voltando para a cama do hospital. Bolsonaro quis dar sinais de força. Agora, quer dar sinais de fraqueza intermitente. Seu corpo mostra a “saída honrosa”. O chinelo é a sua passagem para o quarto, para a fuga, para a desculpa. O presidente está recolhido. Mourão não assume, pois o é, afinal de contas, não a denotação de doença, mas a chance de falar que ela, a dor ou a febre, podem voltar. Pode-se faltar a compromissos, dado que o chinelo indica convalescença eterna. Bolsonaro sente que a cadeira de presidente exige trabalho. Ele nunca trabalhou, em trinta anos!

Os sinais de despreparo, medo infantil e fuga, típicos de uma criança que não quer sair da cama, fingindo-se doente em dia de prova na escola, estão todos no corpo de Bolsonaro. O olhar dele mostra isso. Mas quem não puder olhar de perto, que veja ao menos os chinelos.

Bolsonaro precisa de um Impeachment. Precisamos fazer com que assuma os chinelos. Ao menos os chinelos! Que volte para casa, para “as origens”, como ele gosta de dizer. Ele mesmo espera isso.

Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalhou junto da produtora de TV e filósofa Francielle Maria Chies no programa Hora da Coruja da FLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA).
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Paulo Ghiraldelli Jr é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalhou junto da produtora de TV e filósofa Francielle Maria Chies no programa Hora da Coruja da FLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA).
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