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O que você pensa sobre a desonestidade?

Basta haver uma sociedade em que as pessoas não se surpreendem mais com as trapaças, ocorridas em volume crescente, para que à medida que se rebaixa a linha da moralidade, o volume de delitos aumente.

Amigos, há um bom tempo eu venho ensaiando escrever sobre um assunto extremamente provocativo e complexo. A minha premissa era a de sintetizar a essência do livro de Dan Ariely, chamado A Mais Pura Verdade sobre a Desonestidade (Rio de Janeiro: Campus / Elsevier, 2012). No entanto, aguardei um momento em que me fosse não só possível fazer essa compilação como garantir a adequação temática aos leitores. Pelo título da postagem e pelo conteúdo do que a mídia nacional tem publicado recentemente, percebe-se que o momento é bem propício.

O autor é professor e pesquisador na Duke University (Carolina do Norte – EUA), e fundador do Center for Advanced Hindsight. Sua principal linha de pesquisa é sobre a falta de consistência racional em processos de decisão e escolha das pessoas, mostrando haver clara irracionalidade. Para ele, professor de Psicologia e de Economia, e ainda especialista em experimentos sobre comportamento humano, no que diz respeito à “desonestidade” tudo levaria a aceitar a teoria de que uma trapaça envolve sempre a avaliação do risco de ser pego e do quanto a pessoa pode, eventualmente, ganhar (pega ou não). Mas a coisa não é bem assim!

No ano passado, estive pessoalmente em uma reunião profissional com Dan Ariely, pessoa bastante alegre, acessível e, como todo pesquisador, muito focado em seus trabalhos. É fundamental o leitor saber um pouco da história de vida do autor, para que se tenha melhor ideia do que hoje comanda sua motivação pelo assunto. Quando ele tinha 18 anos, a explosão de um foguete de iluminação cobriu 70% do corpo dele com queimaduras de 3º grau, e ele passou os três anos seguintes enrolado em bandagens em um hospital. Mesmo após ter ido para casa, permaneceu bom tempo com a capacidade limitada para as funções do cotidiano e restrito a uma vida solitária durante o final de sua recuperação.

O tempo todo voltado a conversar com os próprios pensamentos, levou Dan Ariely a refletir sobre o comportamento humano e seus processos de escolhas. Perguntava-se porque alguém ama uma pessoa e não outra, porque gosta de um esporte e não de outro, o porquê disso e não daquilo.  Ao vivenciar muitos tipos de dor no hospital, começou a conversar com as enfermeiras para entender o método delas, pois na troca de bandagens elas arrancavam o mais depressa possível, gerando crises de dor relativamente curta, porém intensa. E para as enfermeiras, que nunca aceitaram ouvir a sugestão do paciente, não havia diferença entre começar pela parte mais dolorosa do corpo e ir passando à parte menos dolorosa ou, então, começar pela parte menos dolorosa e avançar até as áreas onde a dor era mais forte. Essa situação foi a origem de sua intensa e muito marcante construção de pesquisa sobre a irracionalidade previsível.

Pois bem, voltemos à questão da desonestidade. Para Ariely, a sociedade tem muitas trapaças, a todo instante, em que pessoas tentam tirar vantagem sobre outras. Ele vai além, ao afirmar que há muitas atividades econômicas imorais, que até superam a visão clássica de mocinho e bandido, mesmo porque as chamadas trapaças de colarinho branco acabam nem sempre sendo julgadas como deveriam (isso quando são julgadas). Muitos profissionais fazem seus juramentos no dia da graduação, mas quando surge a tentação da trapaça, uma potencial desonestidade pode acontecer e a ética é esquecida.

As pesquisas de Ariely levaram a conclusões interessantes. Há dois tipos de delitos, sendo um deles o do bandido típico e seu ato criminoso. O outro caso, e agora vem a surpresa, é daquela trapaça que pode ser cometida por uma pessoa que se assume honesta, ao se apropriar de objetos indevidamente (a toalha do hotel, o toner da empresa, o cobertor do avião, o copo de cristal do restaurante, o livro da biblioteca, etc). Para o autor, a honestidade é vista como virtude moral e faz bem às pessoas. Se isso acontece, por que haveria desonestidade mesmo entre quem se assume claramente honesto?

Agora, muita atenção que a afirmação de Ariely é chocante: Trapacear é mais fácil quando está distante do ganho monetário, pois é muito rápido racionalizar a desonestidade quando ela está a uma segura distância do dinheiro. As pesquisas mostraram que quando se mexe com assuntos não-monetários, a propensão das pessoas para cometer “deslizes” é maior do que se poderia pensar por princípio. O modelo de experimento que o autor desenvolveu e a consequente teoria chamada de “margem de manobra”, ambos apontam que as pessoas não se sentem menos ín­tegras quando se apropriam de algo não-monetário, aumentando sua “margem pessoal de manobra”. Ele exemplifica como alguém que se olha no espelho e adota um determinado nível como sendo o seu limite admissível de “margem pessoal de manobra”. O pior é que essas pessoas tendem a julgar as demais como menos honestas, ou mais propensas a trapaças.

Basta haver uma sociedade em que as pessoas não se surpreendem mais com as trapaças, ocorridas em volume crescente, para que à medida que se rebaixa a linha da moralidade, o volume de delitos aumente, produ­zindo como resultado trapaças adicionais. Triste foi a pesquisa mostrar que se a pessoa faz parte de um grupo social, em geral, as demais pessoas do mesmo grupo tendem a ser tolerantes com a trapaça, tornando o ato socialmente aceitável. E atenção para esta conclusão final: os experimentos não apresentaram qualquer evidência de resultados diferentes em função da cultura ou influência regional.

Como nem tudo poderia estar perdido, há um caminho de grande esperança. O lado positivo dos resultados é que comportamentos honestos, éticos ou sacramentados por lembretes, códigos, normas ou manuais de conduta emitem um sinal que melhora e reorienta as pessoas para os braços da honestidade e, em um nível superior, ao combate à criminalidade. Ou seja, as leis e controles por si só não são suficientes mas eliminar a trapaça, no máximo conseguem inibir. A solução consistente requer o contágio positivo sempre dado pelo exemplo social, seja na família, na escola, na empresa ou no grupo de que se faz parte.

Desta vez, a postagem ficou um pouco mais longa do que o normal, mas espero que o assunto traga a visão ampliada sobre essa questão que nos afeta diariamente, tanto na comunidade como na visão nacional.

Mario Divo Author
Mario Divo possui meio século de atividade profissional ininterrupta, hoje estando dedicado à gestão de negócios e de pessoas. É PhD pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com foco em Gestão de Marcas Globais e MSc, também pela FGV, com foco em Dimensões do Sucesso em Coaching (contexto brasileiro). Formação como Master Coach, Mentor e Adviser pelo Instituto Holos. Formação em Coach Executivo e de Negócios pela SBCoaching. Consultor credenciado no diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool). Credenciado pela Spectrum Assessments para avaliações de perfil em inteligência emocional e axiologia de competências. CEO da plataforma MENTALFUT® e da MDM Assessoria em Negócios, desde 2001. Mentor e colaborador da plataforma Cloud Coaching. Ex-Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Ex-Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, ex-Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e ex-Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior, voltada ao desenvolvimento de jovens lideranças em todo o mundo.
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