O que faz você perder o sono à noite?

O mundo precisa desenvolver uma visão abrangente e compartilhada de como a tecnologia está afetando nossas vidas e remodelando os ambientes econômicos, sociais, políticos e humanos.

Tenho usado a expressão VUCA para tratar de um mundo em contínua transformação, exigindo nova postura, preparo e competência aos profissionais de todos os setores da vida. De acordo com o Relatório Global de Riscos 2019, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, os riscos globais – eventos ou condições que podem causar sérios impactos em países ou em indústrias inteiras, na próxima década – estão se intensificando. Infelizmente, também se percebe pouca vontade coletiva para enfrentar esses riscos, pois há países buscando ampliar o controle global, rivais políticos acirrando disputas e, apesar da prosperidade que a globalização gerou, ela também trouxe crises em desigualdade social e econômica.

Cerca de trezentos, entre os principais executivos de estratégia global e futuristas do mundo, reunidos em um encontro temático no Fórum Econômico Mundial, trabalharam na missão de impulsionar a colaboração dos países e das lideranças para enfrentarem alguns dos maiores desafios existentes, entre eles a governança e a segurança em ambiente cibernético. Os riscos identificados concentram-se em cinco frentes: tecnológicos, econômicos, sociais, políticos e geopolíticos. O diagrama a seguir, obtido de documentos oficiais publicados, demostra como esses riscos se desdobram em questões que nos envolvem cotidianamente, merecendo ampla reflexão, pesquisas, estudos e muitos investimentos para o desenvolvimento de soluções inovadoras.

O impacto nos negócios

Resumidamente, quando se pensa no ambiente de negócios em um mundo VUCA, identifica-se que a aceleração da inovação e a velocidade da ruptura com o passado são difíceis de antecipar (ou mesmo compreender), gerando surpresa até aos mais bem informados. Em todos os setores da vida humana há evidências claras de que as tecnologias afins à Globalização 4.0 geram grande impacto sobre as empresas. Isso ocorre tanto pela inovação em suas cadeias de valor, como no acesso a plataformas digitais globais que alteram o ambiente de pesquisa, desenvolvimento, marketing, vendas e logística, introduzindo novos operadores com mais qualidade, velocidade e menor preço.

Do lado da demanda também há impactos nos negócios, com transparência crescente, engajamento e novos padrões de comportamento do consumidor. A par disso, são desenvolvidas plataformas de tecnologia que usam o celular para alcançar pessoas, dados e até o consumo de bens e serviços, diminuindo também as barreiras para empresas e indivíduos na geração de riquezas. Os novos negócios “digitais” rapidamente se multiplicam, em todos os ambientes sociais e econômicos.

O impacto no ambiente político

À medida que os ambientes físico e digital, associados à mudança no comportamento das pessoas, estão a convergir, novas tecnologias e plataformas nascem e permitem participação social ativa junto às autoridades públicas. Simultaneamente, essas autoridades ganharão poderes tecnológicos para aumentar o controle social, com base em sistemas de vigilância e controle da comunicação digital. Em geral, as autoridades públicas enfrentarão mais pressão para mudar a abordagem no engajamento das pessoas e formulação de políticas, à medida que o seu papel central diminuirá devido à redistribuição e descentralização de poder (que as tecnologias possibilitam).

Vale lembrar, os sistemas atuais de política pública e tomada de decisão evoluíram desde a Segunda Revolução Industrial, quando havia tempo para estudar uma questão pontual e promover a estrutura regulatória apropriada. Desde então, todo o processo foi projetado para ser linear e quase mecanicista, algo que hoje não é mais viável. Dado o rápido ritmo de mudanças da Globalização 4.0 e seus amplos impactos, os legisladores e reguladores estão sendo desafiados a um grau sem precedentes e, na maior parte, estão se mostrando incapazes de lidar com isso. O mundo VUCA requer agilidade nos processos de governança, incluindo a segurança nacional e internacional.

O impacto nas pessoas

O mundo VUCA muda não apenas o que as pessoas fazem, mas também a interpretação de “quem somos”, afetando a identidade e muitas questões associadas: a sensação de privacidade, as noções de propriedade, os padrões de consumo, o tempo dedicado ao trabalho e ao lazer, a gestão da carreira profissional, o desenvolvimento de habilidades, a condução do relacionamento pessoal, entre outras questões. Inclusive, esse cenário vem impactando em nossa saúde. Completando, um dos maiores desafios individuais com as novas tecnologias da informação será a privacidade, porém concorrendo, enormemente, com os limites atuais de expectativa de vida, saúde, cognição e potenciais de realização, obrigando a sociedade a redefinir suas fronteiras morais e éticas.

O que faz você perder o sono à noite?

Afinal, chegamos à pergunta que dá título a esta postagem. Conforme a conclusão dos especialistas, o mundo precisa desenvolver uma visão abrangente e compartilhada de como a tecnologia está afetando nossas vidas e remodelando os ambientes econômicos, sociais, políticos e humanos. No final, devemos moldar um futuro que funcione para todos, colocando as pessoas em primeiro lugar e capacitando-as a enfrentar os desafios. Não podemos deixar que a revolução em curso seja capaz de robotizar a humanidade; ao contrário, precisamos elevar a humanidade a uma nova consciência coletiva e moral, baseada em um senso comum de destino.

Dois estrategistas-futuristas, que participaram dos debates no Fórum Econômico Mundial, foram desafiados com a pergunta-título. Karen Karniol-Tambour (Chefe de Pesquisa de Investimentos na Bridgewater Associates) respondeu que: “O principal papel social de uma indústria de investimentos é ajudar as pessoas a economizarem, mas há uma crescente crise de poupança em muitos países. Os mecanismos de economia dependem da tomada de decisão das pessoas, esperando que elas prefiram poupar em vez de gastar desde cedo, e escolham como investir suas economias. Mas não houve a preocupação em ajudar pessoas com essas escolhas e, nesse ambiente, não se tem os benefícios do compartilhamento de riscos”. Como conclusão, Karen afirma que há que se criar um novo ambiente de compartilhamento entre os aplicadores e os profissionais de investimentos.

Outro especialista, Daria Krivonos (CEO do Instituto Copenhague para Estudos Futuros – CIFS), fez o seguinte comentário: “Nós vivemos um momento de agitação, com mudanças disruptivas, e muitas das condições e normas que usamos há muito tempo são contestadas. Hoje, há quatro ameaças ao ambiente global: um retrocesso de instituições e valores democráticos, o fim do domínio tecnológico ocidental, a globalização liderada pelo Ocidente e a aceleração da mudança ambiental. Estrategistas e tomadores de decisão frequentemente subestimam o risco de colapso de sistemas complexos, como economias, estados-nações e instituições. O mundo é mais frágil do que pensamos”.

E então, agora eu finalizo pedindo que cada leitor pense e responda (olhando-se o espelho da alma): Esse mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo tem feito você perder noites de sono? Você identifica a origem desse impacto? Você está preparado para minimizar os problemas que o mundo VUCA gera para você e seu cliente?

Mario Divo Author
Mario Divo tem incrível experiência profissional, tendo chegado a meio século de atividade ininterrupta, em 2019. É PhD e MSc pela Fundação Getulio Vargas, com foco em Gestão de Negócios, Marcas e Design, Marketing e Comunicação Corporativa. Tem formação como Master Coach, Mentor e Adviser pela Sociedade Brasileira de Coaching e pelo Instituto Holos. Consultor credenciado para aplicação do diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool), Professor e Palestrante. CEO e Coordenador Executivo da plataforma Dimensões de Sucesso, acumulando com o comando da MDM Assessoria em Negócios. Foi Diretor Executivo do Automóvel Clube Brasileiro e Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras. Liderou a Comunicação Institucional e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Foi Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e, também, Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior em 126 países e territórios, voltada ao desenvolvimento das potencialidades das jovens lideranças em todo o mundo.
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