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O homem e a máquina no mundo VUCA!

Até quando e em que ponto a máquina pode substituir e realizar uma atividade ainda melhor que as pessoas mais qualificadas?

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Tenho procurado explorar a temática VUCA (mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo) a partir de vários aspectos do cotidiano. Já descrevi a origem da expressão e como ela está presente nos nossos dias, e também comentei sobre os excessos que o mau uso da tecnologia pode gerar em certos grupos de pessoas, quando a tentativa de descobrir os limites do corpo chega a colocar em risco muitas questões éticas (como o caso dos biohackers). Hoje, vou comentar uma situação, ou melhor, um contexto de conflitos que pode acontecer com qualquer profissional amplamente capacitado.

Pense em alguém que você admira por sua incrível capacidade, acima da média, para desenvolver uma atividade que exige concentração, estratégia, criatividade e arrojo, entre outras qualificações. Imagine agora que, um dia, alguém diz a essa pessoa que seu talento foi superado por uma máquina com inteligência artificial. Qual será a reação dela? Podemos concordar que o avanço da tecnologia incorporada em nossas vidas é fato já conhecido e aceito. Mas até quando e em que ponto a máquina pode substituir e realizar uma atividade ainda melhor que as pessoas mais qualificadas?

Creio que podemos concordar que a primeira reação dessa pessoa seria a de não acreditar e até ridicularizar o comentário, mostrando dúvida e descrença. Não importam os exemplos que podem ser citados e que foram incorporados ao nosso dia a dia, ao longo do tempo. Um caso simples é o de que, há 50 anos, não havia máquina copiadora e a primeira delas foi lançada com enorme complexidade operacional, alto custo e ocupando grande espaço. Hoje, há copiadoras domésticas a um custo bem baixo, para uso pessoal, e máquinas profissionais que editam até livros, a uma velocidade estonteante. E há até impressora 3D!

Pois bem, tudo isso que eu escrevi foi como introdução para um grande desafio homem x máquina que merece ser considerado, por dois aspectos. De um lado, vale a pena acompanhar como aconteceu e qual o resultado de uma recente experiência nesse campo. Por outro lado, e para mim o mais importante, vale verificar que o ser humano, por mais competente e qualificado que seja, primeiramente reage com dúvidas e desdém à capacidade de a máquina vencer, passando depois a sofrer pressão interior com a perda de confiança e do amor próprio. A recuperação de forças exigirá, cada vez mais, do acompanhamento de profissionais como terapeutas, coaches e mentores, cada qual dentro de sua área de especialização.

Lembrando, o mundo já presenciou a vitória do computador Deep Blue, da IBM, sobre o jogador de xadrez multicampeão Gary Kasparov. Os dois encontros, com seis partidas em cada um, ocorreram em 1996 e 1997, e mostraram-se fascinantes não só para enxadristas, mas também aos peritos de computador, cientistas e ao púbico em geral. Afinal, Kasparov carregava o peso de defender a humanidade contra a máquina, a partir de uma batalha de xadrez. Vale lembrar que ele já havia vencido, em 1985, ao ganhar 32 partidas simultâneas.

O confronto de 1996 foi vencido por Kasparov (4 a 2), o que deu ao mundo a perspectiva de que a máquina não conseguiria vencer um multicampeão. Então, ele aceitou a revanche no ano seguinte, dados os argumentos de que a IBM havia aprimorado o programa, mantendo ele a convicção forte e plena em mais uma vitória do homem sobre a “nova máquina”. Kasparov não contava que, no espaço de um ano, o Deep Blue não só adquiriu programação aprimorada como, e principalmente, começou a fazer jogadas criativas, impensáveis para jogador não humano. E nesse confronto o computador venceu o homem por 3,5 a 2,5 (houve 3 empates), fazendo com que Kasparov se mostrasse indignado e certo de ter havido trapaça da IBM.

A explicação dada pela empresa, principalmente quanto a “decisões de emergência” que o programa usou durante as partidas (o que significaria uma “inteligência artificial” incorporada), nunca foi plenamente aceita por Kasparov e, durante quase 20 anos, a polêmica prevaleceu. O fato é que um homem superqualificado perdeu o desafio para a máquina, tornou-se taciturno e pouco falante sobre o assunto, enquanto cientistas passaram a avaliar outros níveis mais avançados para novos desafios. O leitor pode conhecer detalhes desse conflito todo Kasparov x Deep Blue pelo Youtube, por este link. E o desejo de ir além, em muitos centros de ciência, acabou por abrir a oportunidade para um projeto chamado AlphaGo.

Resumidamente, a iniciativa do AlphaGo foi proposta pela DeepMind, líder mundial em pesquisa de inteligência artificial e sua aplicação no dia a dia da sociedade. A empresa, criada em 2010 e adquirida pelo Google em 2014, assume como missão científica expandir os limites da inteligência artificial, desenvolvendo programas que podem aprender a resolver qualquer problema complexo sem precisar ser ensinado como. Das mudanças climáticas às necessidades de cuidados com a saúde, há muitos problemas que sofrem de um progresso dolorosamente lento e sua complexidade dificulta a capacidade de encontrar soluções. Exemplos fantásticos já existem, com programas de computador que oferecem diagnóstico médico ou jurídico, nos EUA. Eis aí o mundo VUCA em crescente ação, aplicando a Inteligência artificial a serviço do ser humano.

A DeepMind decidiu criar um programa especial para enfrentar os melhores praticantes do mundo em Go, jogo milenar chinês. Ele é jogado principalmente através da intuição e da sensibilidade, sendo que pela sua sutileza e profundidade intelectual capturou a imaginação humana, há mais de 3000 anos. As regras do jogo são simples: os jogadores se revezam para colocar pedras pretas ou brancas em uma prancha, tentando capturar as pedras do adversário ou cercar o espaço vazio para criar pontos de território. Apesar de simples nas regras, o Go é um jogo de profunda complexidade, tendo o poder de gerar tantas combinações possíveis que superam o número de átomos no universo conhecido, tornando-o bem mais complexo que o Xadrez.

A DeepMind (com dedicação total de seus cientistas) mostrou o AlphaGo a praticantes amadores para desenvolver a compreensão do que seria um jogo razoável, em nível humano. Então, a empresa passou a gerar diferentes versões do jogo, fazendo-o competir contra si mesmo milhares de vezes, cada vez aprendendo com seus erros e melhorando progressivamente até se tornar imensamente forte, através de um processo conhecido como reforço de aprendizagem. Ou seja, máquinas do mundo VUCA também aprendem com seus erros. Em 2016, a empresa divulgou estudo científico de extrema complexidade (para quem se interessar, em inglês, acesse aqui), mostrando como derrotou o tricampeão europeu, Fan Hui, em 2015.

Fan Hui mostrava-se certo de que seria impossível perder para um computador, assumindo quase que um sentimento de depressão após a derrota por 5 a 0. Mas aceitou o convite da DeepMind para se juntar à equipe e aprimorar o programa, agora com foco em seu maior desafio: competir contra o lendário jogador sul-coreano Lee Sedol, vencedor de 18 títulos mundiais e considerado o maior jogador da última década. A vitória do AlphaGo (4 a 1) foi na Coréia do Sul, em Março de 2016, tendo sido assistida por mais de 200 milhões de pessoas, em todo o mundo. Foi uma conquista marcante até porque, pela primeira vez na história, um computador recebeu o mais alto nível que um jogador de Go pode ter (o nono Dan).

Da mesma forma como Fan Hui, durante as coletivas de imprensa pós-desafio o multicampeão Lee Sedol mostrava-se incomodado. Antes da competição, ele havia ridicularizado todos os que viam qualquer possibilidade de vitória da máquina sobre o homem. E como seus antecessores mais famosos, na derrota assumiu primeiramente um sentimento de tristeza e angústia. No final, mostrava-se até feliz por ter vencido pelo menos uma partida contra a máquina. Aceitou mais do que a derrota; entendeu que o contexto da inteligência artificial gera uma tendência sem volta, e que ainda está começando. Para quem tem acesso ao Netflix, assista o documentário completo do desafio (título AlphaGo).

Será então que devemos nos desesperar por esse avanço da tecnologia em um mundo cada vez mais VUCA? Conforme os registros da DeepMind, o AlphaGo mostrou movimentos altamente inventivos, muitos dos quais foram tão surpreendentes que derrubaram centenas de anos de sabedoria, sendo até hoje examinados intensivamente por jogadores de todos os níveis. Ou seja, de alguma forma o AlphaGo ensinou ao mundo um conhecimento completamente novo sobre o jogo mais estudado e contemplado da história. E o AlphaGo continuou a surpreender pois, em Janeiro de 2017, uma versão melhorada online obteve 60 vitórias consecutivas contra os melhores jogadores internacionais. Em Maio de 2017, o AlphaGo participou da The Future of Go Summit, na China, em espírito de colaboração mútua com os principais participantes do país.

Atualmente, a empresa disponibilizou o AlphaZero, uma versão muito superior que se desenvolveu no jogo simplesmente praticando milhares de vezes contra si mesmo, de forma aleatória. Com esse tipo de aprendizado científico, as maiores empresas globais em inteligência artificial entendem que estão gerando grandes avanços de conhecimento tecnológico e, ao fazê-lo, poderão mudar drasticamente o mundo para melhor. Essas empresas trabalham em alguns dos desafios mais complexos e interessantes da atualidade, com o objetivo final de encontrar soluções inteligentes. Para fazer isso, desenvolvem uma nova maneira de organizar pesquisas que combinam o pensamento de longo prazo e a colaboração interdisciplinar de todos os que detêm conhecimento, juntamente com as melhores startups de tecnologia, para o bem do ser humano.

Esse é o mundo VUCA onde vivemos, em que a máquina e o ser humano devem se somar! Esse é o mundo em que muitas pessoas sofrerão fortemente impactos pessoais, ao se sentirem substituídas por uma máquina, precisando então definir novos caminhos em sua vida. Esse é o mundo VUCA onde os coaches e os mentores precisam estar preparados para contribuir com o desenvolvimento emocional, intelectual e espiritual dessas pessoas. E para finalizar, eis um mundo VUCA que trará desafios constantes aos jovens, que muito dependerão de orientação especializada para definir as próprias escolhas de vida.

Mario Divo Author
Mario Divo tem incrível experiência profissional, tendo chegado a meio século de atividade ininterrupta, em 2019. É PhD e MSc pela Fundação Getulio Vargas, com foco em Gestão de Negócios, Marcas e Design, Marketing e Comunicação Corporativa. Tem formação como Master Coach, Mentor e Adviser pela Sociedade Brasileira de Coaching e pelo Instituto Holos. Consultor credenciado para aplicação do diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool), Professor e Palestrante. CEO e Coordenador Executivo da plataforma Dimensões de Sucesso, acumulando com o comando da MDM Assessoria em Negócios. Foi Diretor Executivo do Automóvel Clube Brasileiro e Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras. Liderou a Comunicação Institucional e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Foi Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e, também, Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior em 126 países e territórios, voltada ao desenvolvimento das potencialidades das jovens lideranças em todo o mundo.
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