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O antigo e o moderno duelam ou se completam?

Será que valores e princípios mudaram? Ou o que mudou foram as diferentes formas de expressar os princípios e valores?

Meus amigos, quando se aborda o momento do mundo e a chamada revolução industrial 4.0, destacam-se ideias e premissas sobre a relação de inovações tecnológicas com o cotidiano das pessoas. Já comentamos sobre como o mundo atual é disruptivo, em todas as dimensões, porém essa transformação acaba sendo vista pela forma e não pelo conceito. Como metáfora, basta lembrar que há uma relação de hierarquia entre patrão e empregado que sempre existiu, mas a maneira de o patrão expressar essa hierarquia mudou muito ao longo dos anos, em função de aspectos sociais, legais, culturais e, até mesmo, econômicos.

Portanto, nunca é tarde para se comparar o que foi o mundo, que alguns entendem como já passado, com aquele que outros chamam de moderno. Será que valores e princípios mudaram? Ou o que mudou foram as diferentes formas de expressar os princípios e valores? O que ninguém duvida está baseado na seguinte verdade: a chamada globalização 4.0 tem transformado o mundo e criado uma dinâmica bem diferente nas relações humanas, com especial foco no ambiente das organizações. O mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) exige uma competência crescente na arte de negociar não só com interesse mercantil, mas também como nos relacionamentos institucionais e interpessoais.

Negociações complexas foram conduzidas por muitos anos, com os analistas ainda buscando conceituar sua natureza fundamental, seus elementos essenciais e a relação entre esses elementos. Nos últimos quarenta anos, no entanto, os estudiosos ganharam crescente compreensão das forças que moldam a complexidade das negociações modernas. Nesse contexto, uma das mais difíceis escolhas que as pessoas têm é escolher viver, tanto pessoal quanto profissionalmente, de forma íntegra. A pergunta objetiva é: vou ser resiliente diante das dificuldades ou vou me curvar ao que é mais simples e conveniente?

Surgem então as escolhas difíceis, os dilemas que colocam a integridade, a moral e os princípios à prova, em um cenário complexo aparentemente sem precedentes na história humana. As linhas entre o certo e o errado tornam-se indistintas quando devemos confrontar as obrigações no trabalho com as convicções pessoais sobre o certo e o errado, o ético e o não ético, o justo e o injusto.  Então, para explorar esse assunto, decidi buscar algo que retratasse o conjunto de valores de décadas atrás, não sendo um texto piegas e, ao contrário, contando com o reconhecimento do público, da mídia e dos estudiosos de comportamento.

Como grande parte dos leitores tem menos de 40 anos (geração nascida nos anos 80), vocês não viveram de corpo e alma a década de 70 e os movimentos sociais da época. E se há um livro que foi best-seller quando lançado, em 1974, esse é “Zen e a arte de manutenção de motocicletas”. O filósofo e escritor americano Robert Pirsig morreu em Abril de 2017, aos 88 anos, celebrado pelos milhões de cópias de sua obra. Inicialmente recusado por 121 editoras até que alguém acreditasse no projeto, o livro conta a viagem de pai e filho durante 17 dias, atravessando o território dos Estados Unidos.

E que você não se engane pelo título, pois o fundamento do texto (parte ficção e parte autobiográfico) é voltado a tratar de valores existenciais e da vida, lembranças de fatos e análises de situações vivenciadas, e tendo ainda aspectos românticos associados com a natureza. Essa obra definiu uma época marcada por fatos disruptivos típicos de hoje, com a diferença que não inclua Internet, celulares, satélites e até televisão colorida, ainda que envolvesse complexidade e dinâmica fora de domínio das pessoas.

Uma coisa que existe e sempre existiu no ser humano foi o estado mental de ficar pouco preocupado com os fatos públicos que acontecem à sua volta, sem nem mesmo tentar alcançar um entendimento especial. Enquanto isso, já em meados dos anos 70, tudo acontecia rápido, com incertezas e ambiguidades alcançando os ambientes empresariais, políticos, econômicos e sociais.  Poucos se apercebiam que a inovação tecnológica já começava a mudar as forças de poder e dinheiro, com a Microsoft nascendo em 1975 e o Google em 1976, sendo uma força nascente ao que hoje temos como 4ª revolução industrial.

Alguns estudiosos sociais citam conceitos do livro de Pirsig que não perderam em importância e atualidade:

  • A vida é sobre a jornada, não sobre o destino. Somos motivados a acreditar que dúvida e medo são negativos, mas é a partir disso que aprendemos sobre a vida, sobre sermos resilientes e resistentes;
  • Nada é difícil, desde que tenhamos atitudes corretas. Para isso, o fundamento está na mudança de mentalidade, quando então olharemos para um problema tentando entendê-lo desde a origem. O livro explora o conceito de avançar sobre um problema além de sua solução, chegando à causa original;
  • O melhor da vida é estar dentro da cena e não sendo apenas um observador. O ideal é nunca cair na passividade mas, ao contrário, aprender e interagir com o mundo ao redor. A pior escolha é buscar sempre o ideal e não se contentar em aproveitar coisas pontuais que tornam a vida melhor;
  • O ser humano nunca deve abandonar a perspectiva de vida, o que não significa necessariamente viajar de motocicleta. O fundamento é não se deixar levar pela rotina e não cair na zona de conforto que inibe a motivação em criar e inovar em nossos projetos de vida;
  • Uma frase muito marcante do livro é esta: “Há artistas sem conhecimento científico e cientistas sem conhecimento artístico, e há os dois sem senso espiritual de gravidade, e que o resultado não é apenas ruim, é horripilante”. O entendimento é que objetividade e subjetividade não são mutuamente exclusivas, sendo ambas necessárias para uma vida com qualidade;
  • Pirsig tem uma metáfora fantástica: se você olhar para uma flor e só enxergar sua função, perderá a beleza que ela acrescenta ao mundo. Mas se você olhar apenas para a beleza da flor, perderá tudo o que a flor contribui para o nosso mundo como parte do sistema ecológico. Quando você vê tanto a beleza física quanto a beleza mecânica da flor, tudo se tornará mais impactante e marcante;
  • Outra frase antológica: “São os lados da montanha que sustentam a vida, não o topo. Aqui é onde as coisas crescem.”.Concentrar-se em objetivos futuros, ao contrário de aproveitar as oportunidades no presente, isso não é positivo pois será uma jornada com perdas e arrependimentos, e;
  • Ainda que seja agradável ou motivador filosofar sobre o destino da humanidade, cada pessoa será mais feliz ao ser realista e se concentrar naquilo que tem a capacidade de concretizar. Não adianta viver em um mundo cheio de teoria e sem a concretização de algum sonho ou desejo.

Para quem gostou desta abordagem sobre o livro de Pirsig, vou recomendar ler a resenha e os comentários filosóficos clicando aqui. Ou assista vídeo-resenha clicando aqui. Não é meu interesse fazer spoiler e atrapalhar a vida de quem se interessou pelo livro, mas não posso deixar de completar a minha tese que abriu esta postagem. No mundo VUCA de hoje, um dos problemas mais críticos do ser humano está nos traumas psicológicos ligados à crescente entrada da tecnologia no cotidiano pessoal e profissional. Nos anos 70, problemas similares também agrediam o ser humano, mas por outros tipos de transformações de um mundo marcado pela Guerra Fria, questões raciais e políticas, e a incrível jornada espacial.

Concluindo, talvez uma das passagens mais marcantes possa ser inspirada aqui: “A atual crise social é um defeito genético da razão. E até esse defeito ser detectado, as crises continuarão a existir. Nossas atuais modalidades de racionalidade não estão conduzindo a sociedade a um mundo melhor… …Tais modalidades estão em voga desde o Renascimento, e continuarão a existir enquanto houver necessidade de se conseguir comida, abrigo e roupa. Só que agora, quando para um enorme número de pessoas tais interesses não são mais prioritários, toda aquela estrutura racional, herdada da Antiguidade, já não é mais adequada, e começa a ser encarada como realmente é: emocionalmente falsa, esteticamente inexpressiva e espiritualmente vazia. Hoje em dia as coisas estão nesse pé, e assim vão continuar por muito tempo”.

Parece que Pirsig conseguia adivinhar o futuro pois, meio século depois, ainda encontramos um mundo onde tudo é disruptivo, dinâmico, complexo, incerto e tecnológico. E a humanidade continua a conviver com muitas pessoas buscando abrigo, roupa e comida, enquanto a sociedade continua emocionalmente falsa e espiritualmente vazia. Certamente, sabemos que o Coaching não é a panaceia para todos os males, mas cabe ao coach entender em que estágio desse contexto ele próprio está, em que estágio desse contexto seus clientes estão, e qual a melhor forma de construir uma ponte para um futuro sustentável, em todos os aspectos da vida moderna. Se cada um fizer sua parte na escala social, mais pessoas viverão bem e felizes.

Mario Divo Author
Mario Divo possui meio século de atividade profissional ininterrupta, hoje estando dedicado à gestão de negócios e de pessoas. É PhD pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com foco em Gestão de Marcas Globais e MSc, também pela FGV, com foco em Dimensões do Sucesso em Coaching (contexto brasileiro). Formação como Master Coach, Mentor e Adviser pelo Instituto Holos. Formação em Coach Executivo e de Negócios pela SBCoaching. Consultor credenciado no diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool). Credenciado pela Spectrum Assessments para avaliações de perfil em inteligência emocional e axiologia de competências. CEO da plataforma MENTALFUT® e da MDM Assessoria em Negócios, desde 2001. Mentor e colaborador da plataforma Cloud Coaching. Ex-Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Ex-Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, ex-Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e ex-Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior, voltada ao desenvolvimento de jovens lideranças em todo o mundo.
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