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Na ponta dos dedos

Com a ponta dos dedos, cada um de nós molda o cotidiano e constrói o mundo.

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“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar nossos mortos.
Por isso que temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra…”
(Vinícius de Moraes)

Com a ponta dos dedos, ergue-se o copo com a cerveja gelada que aplaca a sede e brinda a amizade.

Com a ponta dos dedos, eleva-se o garfo com o alimento que nutre e sustenta.

Com a ponta dos dedos, assentam-se os blocos de concreto que, recheados com a argamassa de cimento e areia, edificam casas, escolas, hospitais e catedrais.

Com a ponta dos dedos, acionam-se teclas e cordas de instrumentos que produzem não apenas música, mas festa, alegria, paz e harmonia.

Com a ponta dos dedos, maneja-se a linha que sustenta a pipa da criança e que ganha, impulsionada pelo vento, a liberdade da amplidão.

Com a ponta dos dedos, movimentam-se as pedras do jogo de damas, xadrez ou dominó, ou ainda as cartas do baralho que envolvem o tempo de muitos da terceira idade nas praças e parques públicos.

Com a ponta dos dedos, sustenta-se o cabo da enxada que perfura o solo, e o revolve, e o cultiva, e o faz florescer.

Com a ponta dos dedos, pressiona-se a fronte nos instantes de preocupação, afagam-se os cabelos nas horas de sedução, ajeita-se o cavanhaque nos momentos de introspecção.

Com a ponta dos dedos, contam-se as cédulas recebidas, mas também se folheiam as contas a pagar.

Com a ponta dos dedos, dispara-se a arma que tira a vida, ceifa a esperança e convida o desespero a entrar.

Com a ponta dos dedos, teclam-se os números do telefone, sejam eles do serviço de emergência, de um amigo distante na geografia, ou de um amor afastado pela lentidão das horas.

Com a ponta dos dedos, afronta-se e machuca-se outrem, mediante um indicador em riste que aponta, que indica, que obriga, que impõe uma hierarquia.

Com a ponta dos dedos, define-se eletronicamente uma eleição e quem irá dispor do dinheiro público e do poder ao cabo de quatro anos.

Com a ponta dos dedos, denunciam-se os intuitos dos homens, das impressões digitais dos criminosos ao calor erótico dos amantes.

Com a ponta dos dedos, conhece-se a sentença do juiz que absolve ou condena, determinando o futuro do réu.

Com a ponta dos dedos, trabalha o médico que manuseia o bisturi, que preenche o receituário, que salva vidas.

Com a ponta dos dedos, o professor empunha o giz, instruindo seus alunos, sedimentando o futuro da nação.

Com a ponta dos dedos, revela-se o artista que monta o cavalete, e pincela, e pinta, e retrata, e assina, e emociona.

Com a ponta dos dedos, o escritor dentro de cada um de nós produz as cartas de amor, os textos investigativos, os artigos reflexivos, o externar de corações e mentes.

Com a ponta dos dedos, massageiam-se os ombros, as costas e todo o corpo, levando ao relaxamento ou à excitação, de acordo com os propósitos.

Na ponta dos dedos mora o mundo. Dedos que acariciam a pele, dedos que aliviam a coceira, dedos que enxugam as lágrimas, dedos que entoam preces, dedos que despertam os sentimentos. Dedos que silenciam e que tocam.

Tom Coelho Author
Tom Coelho, com formação em Publicidade pela ESPM e Economia pela USP, tem especialização em Marketing e em Qualidade de Vida no Trabalho, além de mestrado em Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente. Foi executivo, empresário, secretário geral do IQB/ INMETRO, diretor do Simb/Abrinq e VP da AAPSA. Atualmente é professor em cursos de pós-graduação, conferencista, escritor com artigos publicados em 17 países, diretor da Lyrix Desenvolvimento Humano, da Editora Flor de Liz e do NJE/CIESP, além de Conselheiro do Consocial/FIESP. autor dos livros “Somos Maus Amantes – Reflexões sobre carreira, liderança e comportamento”, “Sete Vidas – Lições para construir seu equilíbrio pessoal e profissional” e coautor de outras cinco obras.
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