Maio, os Mestres e as Sementes que Permanecem
Os textos que escrevo aqui são sempre para compartilhar ideias e jogar na rede algumas perguntas que eu mesmo me faço. Mas este texto é diferente: é para agradecer.
Maio é o mês do meu nascimento, um mês que sempre me convida a olhar para trás, revisitar caminhos, valorizar os encontros e reconhecer aqueles que ajudaram a construir quem me tornei. Por coincidência ou não, nos últimos anos, maio também passou a carregar outro significado.
Foi nesse mês que partiram três dos pensadores que mais influenciaram minha forma de compreender o mundo, as organizações e a própria condição humana: Humberto Maturana, Humberto Mariotti e Edgar Morin.
Para mim, não foram apenas autores ou intelectuais brilhantes. Eles foram meus mestres. Os três foram daqueles raros seres humanos que não apenas produzem conhecimento, mas transformam pessoas. Tive uma relação diferente com cada um deles, todas elas fundamentais para minha formação.
Com Humberto Mariotti, tive a alegria de conviver por muitos anos.
Além de ler seus livros, ainda pude ouvi-lo inúmeras vezes. Tive a honra de levá-lo para diversas turmas da Formação em Design Organizacional, onde sua presença se tornou quase um ritual de aprendizagem. E não importava quantas vezes eu já tivesse ouvido uma aula, um conceito ou uma história. Em cada uma dessas vezes, havia sempre alguma coisa nova, que podia ser uma informação que tinha me escapado ou só um detalhe pequeno, mas que abria para mim outros significados, outros entendimentos. Eu sempre ficava impressionado com o fato de que também continuava aprendendo.
Essa era uma das características dele, porque Mariotti tinha essa capacidade extraordinária de nos fazer enxergar algo novo naquilo que achávamos que já conhecíamos. Tenho certeza de que muito disso acontecia porque a complexidade, tema ao qual dedicou sua vida, nunca foi, para ele, apenas uma teoria. Ele a encarava como uma forma de estar no mundo.
Estando ao seu lado, era impossível não admirar sua generosidade e sua disponibilidade. E sempre com muita humildade e um desejo muito real de ensinar. Foram poucas as pessoas que conheci que demonstravam tamanho prazer em compartilhar conhecimento. Ele não tinha preocupação nenhuma em ser admirado, só se preocupava mesmo em fazer as pessoas pensarem. Sempre que escrevo um artigo, é nele que estou pensando, na forma como ele tentava ampliar consciências e plantar sementes.
E tenho certeza de que ele plantou muitas. Em mim, com certeza, mas também em centenas de alunos e em milhares de leitores.
Já com Humberto Maturana e Ximena Dávila a experiência foi diferente, mas não foi menos transformadora.
Minha aproximação com eles começou em um workshop realizado no Brasil. Foi um daqueles encontros que acontecem quase que por acaso, mas acabam mudando o rumo de uma vida. Depois disso, veio a oportunidade de estudar no Chile, entre 2013 e 2015, vivendo uma experiência que permanece entre as mais importantes da minha trajetória.
Foram três anos de convivência, com muita escuta, reflexão e aprendizagem. Maturana já tinha mais de oitenta anos, mas sua presença era impressionante, sempre chamando a atenção pela energia e curiosidade. As aulas eram trocas, de verdade, porque, durante todo esse tempo, ele nunca perdeu a sua capacidade de se encantar com as perguntas. Entrávamos em sala para assistir a uma aula e, muitas vezes, saíamos em silêncio, tentando processar tudo o que havíamos acabado de ouvir.
Guardo com carinho uma sensação que se repetia a cada viagem de volta de Santiago para São Paulo.
Sentado na poltrona do avião, olhando pela janela e revivendo as conversas, as aulas e os diálogos daqueles dias, tinha uma percepção difícil de explicar: a sensação de que eu estava voltando diferente. Não necessariamente com mais respostas, nem com uma nova teoria ou uma conclusão definitiva. Era algo mais profundo. Sentia que havia mudado, mas ainda não conseguia identificar exatamente em quê. Com o tempo, compreendi que aquelas transformações aconteciam em um nível mais sutil, ampliando minha forma de observar o mundo, as pessoas e a mim mesmo. Foi, sem dúvida, uma das experiências de aprendizagem mais ricas e marcantes que vivi.
Seu espanhol sonoro preenchia o ambiente, sem pressa e sem vaidade nenhuma. Outros podiam aproveitar a sua posição e repetir sempre uma mesma performance, dando um espetáculo que provavelmente ia impressionar alguns que se matriculavam em suas aulas. Mas dava para ver que, para ele, importava a reflexão sobre aquilo que discutia, o que o levava sempre para novos caminhos. Maturana era coerente quando falava de convivência, respeito e aceitação do outro, porque ele vivia tudo isso no seu cotidiano.
Da mesma forma, Ximena sempre esteve presente como uma parceira intelectual extraordinária, ajudando a expandir e aprofundar muitas das ideias que hoje influenciam milhares de pessoas ao redor do mundo.
A convivência com ambos me ensinou os conceitos que carrego até hoje. Alguns deles, como “organizações são sistemas vivos” ou “cultura é uma rede de conversações”, parecem simples, mas com eles entendi muito mais sobre o que significavam. E também que a transformação não acontece por imposição, mas por relações, aprendizagem e convivência. E que bom poder dizer que a convivência com eles me transformou.
Com Edgar Morin a relação foi diferente.
Não tive o privilégio de uma convivência direta, mas durante muitos anos senti como se estivesse dialogando com ele. O primeiro contato foi por meio dos livros e depois pelas entrevistas, artigos e palestras. Mais tarde, pelas várias visitas que realizou ao Brasil.
Morin chegou cedo à minha vida, ainda nos tempos da universidade. Sua obra também me ajudou a compreender conceitos que hoje considero fundamentais, como “O mundo não cabe em caixas” ou “A vida não é linear”. Ele me ensinou a respeitar a incerteza e me fez entender que os problemas mais importantes que enfrentamos não podem ser compreendidos a partir de uma única disciplina, de uma única perspectiva ou de uma única verdade. Com ele, passei a valorizar as conexões e a desconfiar das simplificações excessivas, buscando uma compreensão mais ampla e mais humana da realidade.
Hoje, olhando para minha trajetória, percebo o quanto eu devo a esses três mestres.
Eles estão presentes em tudo o que faço no campo profissional, seja nos meus livros, na Formação em Design Organizacional, na comunidade 157next, no modelo NEXT6 e também nas minhas palestras e conversas. Mais que isso, eles estão presentes na forma como procuro caminhar pela vida.
Se existe uma característica que une os três, talvez seja a de que nenhum deles estava interessado em produzir seguidores. O objetivo era formar pensadores, ampliar consciências e tentar ajudar as pessoas a enxergar o mundo de forma mais profunda, mais integrada e mais humana.
É por tudo isso que suas partidas geram tristeza e saudade. Mas é uma saudade que inspira, porque, ao mesmo tempo em que existe a ausência, permanece a certeza de que suas sementes continuam florescendo em livros, em alunos e nas ideias que deixaram.
Maio continuará sendo o mês do meu nascimento, mas também será, para sempre, o mês em que me lembro dos mestres que ajudaram a me tornar quem sou.
Obrigado, Humberto Mariotti. Obrigado, Humberto Maturana e Ximena Dávila. E obrigado, Edgar Morin.
Que nós, que ficamos, possamos honrar seus legados, não apenas estudando suas ideias, mas vivendo cada uma delas e ajudando a construir um mundo um pouco mais consciente, mais humano e mais generoso.
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Quer saber mais sobre como os mestres e suas sementes podem inspirar uma vida mais consciente, humana e generosa? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar a respeito.
Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/
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