Justiça Social: O Caminho para um Futuro Mais Humano
Em 20 de fevereiro, celebramos o Dia Mundial da Justiça Social, uma data que nos convida a refletir sobre as barreiras estruturais que perpetuam desigualdades e injustiças em nossa sociedade.
Justiça social vai muito além de políticas públicas. Trata-se de criar um mundo onde todas as pessoas, independentemente de sua origem, raça e etnia, gênero, orientação sexual etc. possam viver com igualdade de oportunidades e dignidade.
Mais do que nunca, em um contexto de aumento da desigualdade global, de retrocessos nos direitos conquistados e do avanço de tecnologias desenvolvidas sem um compromisso explícito com valores humanos elevados, a justiça social se demonstra como uma urgência ética.
Para que ela deixe de ser apenas um ideal e passe a ser prática, precisamos abordar múltiplas dimensões: o acesso universal a direitos básicos, a equidade de gênero, a valorização da diversidade e a construção de um futuro sustentável, conforme propõem os urgentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Minha Jornada: Da Injustiça Sistêmica ao Direito de Sonhar
Permita-me compartilhar uma parte da minha história para trazer essa reflexão mais próxima de quem a lê. Sou uma mulher negra, brasileira, e venho de uma família economicamente empobrecida. Cresci em uma realidade onde as mulheres tinham papéis delimitados pelo ciclo compulsório do trabalho doméstico e do cuidado. Minha mãe, minha avó e minhas tias dedicaram suas vidas a cuidar dos outros. Colocaram suas próprias aspirações em segundo plano — se é que algum dia tiveram espaço para sonhá-las.
No entanto, tive a oportunidade de estudar, trabalhar em uma grande empresa e, com isso, romper esse ciclo imposto por uma herança histórica de desigualdades raciais, sociais e de gênero. Essa conquista, embora celebrada com orgulho, não foi fácil.
Ela está ancorada em uma luta constante contra estruturas sociais que ainda insistem em diminuir e limitar uma mulher negra. Mas também foi impulsionada por valores que sempre me guiaram: o desejo de transformar realidades, o compromisso com o trabalho e o sonho de abrir caminhos para outras mulheres.
Hoje, ao olhar para trás, sei que as minhas conquistas são um reflexo direto das lutas coletivas de tantas mulheres que vieram antes de mim. E é nesse contexto que fazer justiça social se torna um dever: garantir que histórias como a minha deixem de ser exceções e passem a ser uma regra.
Fevereiro: Um Mês que Celebra os Marcos da Justiça Social
O Dia Mundial da Justiça Social não caminha sozinho em fevereiro. Este mês também carrega datas emblemáticas que evidenciam a necessidade de justiça social como forma de construir um mundo mais igualitário:
- 11 de fevereiro — Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência: Um momento para destacar e combater o apagamento histórico de mulheres na produção de conhecimento científico. Atualmente, menos de 30% dos pesquisadores científicos no mundo são mulheres, segundo a UNESCO. Incentivar o ingresso de mulheres e meninas — especialmente negras, indígenas e periféricas — nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) é essencial. Afinal, um futuro inovador só será realmente inclusivo quando todas as vozes forem ouvidas e todas as perspectivas, valorizadas.
- 24 de fevereiro — Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil: Neste dia, em 1932, as mulheres brasileiras conquistaram a voz no processo democrático, um marco histórico para a luta por igualdade de gênero. Ainda assim, 91 anos depois, a representatividade feminina na política permanece aquém do desejado. Apenas 17,7% dos assentos no Congresso Nacional são ocupados por mulheres, segundo o TSE. Trabalhar por uma democracia mais inclusiva, onde mulheres não sejam apenas eleitoras, mas também líderes, é uma forma clara de promover justiça social.
Essas datas nos oferecem duas lições fundamentais: primeiro, que os avanços pelos direitos das mulheres não vieram sem luta, e segundo, que ainda temos muito a conquistar. Elas mostram que toda transformação começa com o reconhecimento de que a exclusão tem raízes históricas profundas, mas pode — e deve — ser transformada com ações intencionais.
Os Riscos da Tecnologia sem Justiça Social
No cenário contemporâneo, a tecnologia ocupa um papel central no desenvolvimento humano e econômico. Mas aqui há um grande alerta: quando desenvolvida sem uma base de valores éticos e humanos elevados, a tecnologia não corrige desigualdades — ela as amplia.
Algoritmos refletem os preconceitos de quem os cria. Estudos recentes mostram como sistemas de inteligência artificial podem perpetuar estereótipos de gênero e raça. Um exemplo emblemático foi a polêmica envolvendo ferramentas de recrutamento automatizadas que privilegiavam candidatos homens para cargos de tecnologia devido aos dados enviesados inseridos no sistema. Outro exemplo recente foi a ferramenta de IA do X, Grok criando imagens sexualizadas de mulheres sem consentimento.
No contexto brasileiro, onde a desigualdade já é uma realidade preexistente, o avanço indiscriminado da tecnologia também pode reforçar o desemprego estrutural e ampliar lacunas educacionais. Apenas com intencionalidade no uso da tecnologia, associada a investimentos em educação e treinamento, poderemos garantir que ela não seja apenas uma ferramenta de lucro, mas um instrumento de transformação social.
ODS, Diversidade e a Construção de um Futuro Mais Justo
O comprometimento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é um dos passos rumo à justiça social. Dos 17 ODS, alguns são particularmente relevantes para iniciativas em prol da justiça social:
- ODS 5: Igualdade de Gênero;
- ODS 8: Trabalho Decente e Crescimento Econômico;
- ODS 10: Redução das Desigualdades;
- ODS 16: Paz, Justiça e Instituições Eficazes.
Organizações que priorizam a diversidade e trabalham para alcançar esses objetivos comprovadamente colhem benefícios. Estudos do McKinsey Global Institute mostram que empresas com diversidade de gênero têm 21% mais chances de obter resultados financeiros acima da média. Além disso, equipes diversas são mais inovadoras — um reflexo real da lógica de que investir em justiça social também é um excelente negócio.
Justiça Social Não É Opcional
Fevereiro nos provoca a olhar para os bloqueios sociais que ainda reproduzem desigualdades em nossa sociedade, sejam elas no acesso à ciência, na representatividade política, no avanço da tecnologia ou nas trajetórias pessoais de mulheres negras que carregam cicatrizes históricas.
A justiça social não é um favor ou um luxo. É uma responsabilidade moral e estratégica — um compromisso com um futuro em que ninguém fique para trás. Para que isso seja possível, precisamos ser corajosos o suficiente para enfrentar as desigualdades e amplificar as vozes de quem sempre foi silenciado. Criar condições para que mulheres e meninas de todas as classes sociais, cores e origens tenham o direito de sonhar e, mais ainda, de realizar.
Que este fevereiro, em meio a tantas datas simbólicas, seja um chamado à ação. E que a reflexão sobre justiça social vá além das palavras, transformando-se em práticas que criem um amanhã mais justo, humano e inclusivo.
Sejamos a mudança que queremos ver no mundo!
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Kaká Mandakinï
Fundadora da consultoria DivA Diversidade Agora!, mentora de mulheres líderes e ativista por justiça social
https://www.diversidadeagora.com.br
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