
Ileísmo: A Antiga Técnica para Poder Pensar de Forma Mais Sábia
Há uma cena que se repete em salas de reunião e, mais ainda, no silêncio antes das reuniões: o executivo que, diante de uma decisão espinhosa, para de pensar “o que eu devo fazer” e passa a pensar “o que [o próprio nome] deveria fazer aqui”. A troca parece ser uma bobagem com esse ajuste de pronome, mas a ciência do comportamento vem mostrando, há mais de uma década, que ela reconfigura a forma como o cérebro processará melhor o problema. Esse hábito de falar ou pensar sobre si mesmo na terceira pessoa tem nome: ileísmo. E, longe de ser tique de personalidade inflada ou capricho de figura pública, ele desponta como um instrumento de autogestão emocional com respaldo experimental, desde que usado no lugar certo, e não em qualquer lugar.
Uma técnica antiga, um nome relativamente novo
O termo foi cunhado no século XIX pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, mas a prática é muito mais velha do que o rótulo. O caso mais citado é o de Júlio César, que em seus relatos sobre a Guerra da Gália jamais escreveu “eu venci” ou “eu decidi”. Mas ele preferiu narrar seus próprios feitos como se fosse um cronista externo observando os movimentos de “César”. Esse recurso construía uma sensação de imparcialidade, pois os atos deixavam de parecer autopromoção e passavam a soar como registro histórico neutro, mesmo sendo, evidentemente, uma escolha retórica deliberada.
Xenofonte fez algo parecido em sua obra Anábase, história da jornada de um grupo de soldados gregos que, em 401 a.C, marcharam desde a costa até o interior do império persa, governado pelo rei Artaxerxes II. Esse gesto se repetiu ao longo dos séculos em memórias de generais, políticos e, mais recentemente, com atletas e CEOs que falam de si mesmos na terceira pessoa diante de câmeras de televisão, o que costuma soar, aos ouvidos do público, como pompa ou distanciamento afetado. E é exatamente essa reputação que os estudos recentes vieram provocar.
O que a psicologia encontrou não foi uma validação para o hábito de alguém falar de si na terceira pessoa quando em entrevistas coletivas. Mas sim a evidência de que o mesmo mecanismo, aplicado ao diálogo interno e silencioso, produz ganhos mensuráveis de clareza. A versão que soa arrogante é dita em voz alta, diante de outras pessoas. A versão que funciona acontece em silêncio, só na cabeça de quem pensa.
O paradoxo de Salomão e a distância que ensina
O psicólogo Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, é um dos nomes centrais nessa virada científica. Grossmann dedicou parte de sua carreira a medir sabedoria, não como virtude abstrata, mas como um conjunto observável de comportamentos cognitivos. Entre outros pontos, buscou reconhecer os limites do próprio conhecimento, como considerar o ponto de vista alheio e de que forma construir compromisso diante de conflitos. Em parceria com o psicólogo Ethan Kross, da Universidade de Michigan, ele conduziu um estudo hoje considerado seminal sobre o tema, publicado em 2014 na revista Psychological Science sob o título “Exploring Solomon’s Paradox”.
No experimento, quase 700 participantes foram convidados a refletir sobre dilemas pessoais e, em outro momento, sobre dilemas de terceiros. O resultado foi consistente, uma vez que as mesmas pessoas raciocinavam de forma visivelmente mais equilibrada quando o problema era de outra pessoa. Esse padrão deu nome ao próprio estudo (paradoxo de Salomão), uma alusão ao rei bíblico famoso por sua sensatez ao arbitrar disputas alheias, mas que, segundo a tradição, geriu mal os próprios assuntos familiares e políticos.
O achado mais interessante do experimento veio depois, quando Grossmann e Kross induziram os próprios participantes a tratarem seu dilema como se fosse de outra pessoa. Eles pediram a cada um que refletisse na terceira pessoa, usando o próprio nome em vez de “eu”. E, com isso, o placar de sabedoria subia, diminuindo bastante a assimetria entre pensar sobre si e pensar sobre o outro. A distância gramatical bastava para produzir parte da distância psicológica que normalmente só temos ao opinar sobre a vida alheia (GROSSMANN; KROSS, 2014).
O que acontece no cérebro: a pesquisa de Ethan Kross
Se o estudo de 2014 com Grossmann mapeou o efeito sobre o raciocínio, foi em outra pesquisa, também de 2014, que Kross e uma equipe de colaboradores investigaram seus mecanismos emocionais com mais profundidade. Publicado no Journal of Personality and Social Psychology sob o título “Self-Talk as a Regulatory Mechanism: How You Do It Matters”, o estudo reuniu sete experimentos com mais de 580 participantes para testar se a forma gramatical do diálogo interno — primeira pessoa (“eu”) versus nome próprio ou “você” — alterava a forma como as pessoas pensam, sentem e agem sob estresse social.
Em um dos experimentos, voluntários tiveram cinco minutos para preparar um discurso improvisado, sendo avaliados por observadores que não sabiam qual instrução cada um havia recebido. Quem conduziu o diálogo interno de preparação pelo nome ou por “você” — em vez de “eu” — apresentou discursos avaliados como objetivamente melhores, relatou menos ansiedade durante a tarefa e, decisivamente, estressou-se menos sobre o próprio desempenho depois de terminar (KROSS et al., 2014).
O mesmo grupo de pesquisa encontrou ainda que esse tipo de referenciamento distanciado reduz a vergonha associada a lembranças constrangedoras, mas sem reduzir o senso de responsabilidade sobre o ocorrido. A pessoa continua reconhecendo o que fez de errado, mas sem o espiral autopunitivo que normalmente acompanha esse reconhecimento. Para o ambiente corporativo, a implicação é direta.
Um gestor que recebe uma avaliação de desempenho dura tende a reagir defensivamente (“estão me atacando”). Ao reformular o mesmo fato na terceira pessoa (“estão questionando as decisões de [Nome] neste trimestre”), cria-se uma pequena folga entre o fato e o ego, suficiente para que o feedback negativo seja processado como informação a analisar, e não como ameaça a repelir. É o mesmo mecanismo por trás de uma negociação tensa ou da decisão de reestruturar uma equipe, pois pensar “como [o próprio nome] deveria conduzir essa conversa” tende a produzir uma resposta mais equilibrada do que pensar “como eu devo me defender agora”.
Os limites: quando a ferramenta se volta contra quem a usa
Nada disso torna o ileísmo incondicionalmente positivo, e é aqui que as versões mais entusiasmadas da técnica costumam pecar por otimismo. O primeiro risco é o contexto, dado que um recurso que funciona no plano privado do pensamento não se comportará da mesma forma quando sai para o público em uma reunião. Ambientes corporativos valorizam proximidade e autenticidade, e a fala pública em terceira pessoa (“isso não é o que [próprio nome] recomendaria”) a subordinados, tenderá a soar como afetação, distanciamento calculado ou, no limite, narcisismo.
A confiança de uma equipe se constrói, em boa parte, pela sensação de que o líder fala de um lugar genuíno e vulnerável, sendo que substituir o “eu” pelo nome próprio no discurso corrói exatamente esse tipo de conexão. O segundo risco é de dosagem, pois a distância que ajuda a pensar com clareza é a mesma que, em excesso, pode servir para evitar responsabilidade. É quase como tratar decisões próprias como fenômenos externos, quase estratosféricos, dos quais ninguém é autor ou responsável.
O próprio achado de Kross et al. (2014) sobre vergonha reduzida sem perda de responsabilidade só se sustenta quando a técnica é usada para regular a emoção diante do problema, não para terceirizar a autoria dele. Vale comentar, nos experimentos originais, os participantes continuavam nomeando com precisão o que haviam feito de errado, mas apenas deixavam de se afogar nisso. Um executivo que passa a falar de suas próprias falhas inteiramente em terceira pessoa, mesmo internamente, corre o risco de transformar autoanálise em narrativa de personagem. Então, a ferramenta deixa de servir à lucidez e passa a servir à autoproteção do ego, exatamente o problema que ela deveria resolver.
Uma prática de bastidor, não de palco
O ponto de equilíbrio que emerge da literatura é relativamente simples de enunciar, ainda que exija disciplina para praticar. O ileísmo funciona melhor como ferramenta de bastidor. Antes de uma negociação difícil, de um corte de equipe ou de responder a uma crítica dura do conselho, recorra silenciosamente à terceira pessoa. Assim, tira a emoção imediata do centro do raciocínio e recoloca uma pergunta mais ampla: o que a situação exige, independentemente de quem eu seja?
Feita a análise e decidida a linha de ação, o momento de agir e de se comunicar com a equipe pede retorno à primeira pessoa. Esse é o “eu” que assume, se expõe e constrói vínculo. Essa alternância entre a persona que observa e a persona que lidera não é contradição, mas pode representar maturidade executiva sob esse recorte. A metacognição que o ileísmo proporciona, isto é, a capacidade de ser personagem e narrador da própria trajetória, não substitui a responsabilidade pessoal. Essa responsabilidade continuará marcada pelo pronome “eu” nos resultados, nos erros e nos créditos.
A seguir, eis três passos para usar ileísmo antes de decisões difíceis:
- Pausa curta (5–10 segundos): Respire fundo e evite dar a resposta imediata. Nomeie mentalmente a situação em uma frase curta: “Decisão sobre [assunto]”.
- Distanciamento (10–30 segundos): Formule a pergunta em terceira pessoa usando seu nome: “O que [Seu Nome] faria nesta situação?” Liste mentalmente 2–3 opções como se aconselhasse outra pessoa.
- Retorno e compromisso (5–10 segundos): Escolha a opção mais alinhada com objetivos e valores. Volte ao “eu” e verbalize a decisão: “Eu vou fazer X”; registre a ação e a responsabilidade.
Essa forma de trabalhar a cognição apenas oferece um intervalo de clareza entre o estímulo e a resposta, um espaço no qual a sabedoria adquirida ao pensar sobre os outros pode, finalmente, ser aplicada a si mesmo. Voltemos à cena do início, com o executivo parado diante da decisão espinhosa, prestes a reagir. É nesse intervalo de meio segundo (antes da resposta, antes do e-mail, antes da palavra final na reunião) que o ileísmo faz seu trabalho mais valioso, e o faz em silêncio, sem que ninguém na sala consiga perceber.
Não é mágica nem um truque de retórica para alguém parecer mais seguro. O ileísmo é uma forma de construir, com um simples ajuste de pronome, o distanciamento que normalmente só temos quando o problema é do outro. No fim, a pergunta que separa o executivo que apenas reage do outro executivo que decide bem não é “o que eu sinto agora”, mas “o que [o próprio nome] faria se este fosse o problema de outra pessoa”, tendo a forte disciplina de, por um instante, se tratar como “a outra pessoa”.
Eu sou Mario Divo e você pode me encontrar pelas redes sociais ou em www.mariodivo.com.br.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como o ileísmo pode ajudá-lo a tomar decisões mais sábias e assumir melhor a responsabilidade por elas? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até nossa próxima postagem!
Mario Divo
https://www.mariodivo.com.br
Confira também: Dados e Informação: O Cérebro do Novo Futebol
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GROSSMANN, I.; KROSS, E. Exploring Solomon’s paradox: self-distancing eliminates the self-other asymmetry in wise reasoning about close relationships in younger and older adults. Psychological Science, v. 25, n. 8, p. 1571–1580, 2014. Disponível em: <https://doi.org/10.1177/0956797614535400>.
KROSS, E. et al. Self-talk as a regulatory mechanism: how you do it matters. Journal of Personality and Social Psychology, v. 106, n. 2, p. 304–324, 2014. DOI: 10.1037/a0035173. Disponível em: <https://doi.org/10.1037/a0035173>.
OUTRAS REFERÊNCIAS PARA QUEM QUISER AVANÇAR NO TEMA
FURTHER. The Crazy-Smart Way to Talk to Yourself. Disponível em: <https://further.net/third-person/>.
MAKUCH, K. Talking to Yourself in the Third Person Rewires Your Brain. Here’s What the Science Says. Medium, 2026. Disponível em: <https://medium.com/@thecognitivemystic/talking-to-yourself-in-the-third-person-rewires-your-brain-heres-what-the-science-says-d9ee4575a702>.
ROBSON, D. Illeism: The ancient trick to help you think more wisely. University of Michigan – LSA Department of Psychology, 2023. Disponível em: <https://lsa.umich.edu/psych/news-events/all-news/faculty-news/illeism–the-ancient-trick-to-help-you-think-more-wisely.html>.
TEMPLETON, J. Talk to Yourself Like a Friend: Q&A With Ethan Kross. John Templeton Foundation, 2023. Disponível em: <https://www.templeton.org/news/talk-to-yourself-like-a-friend-qa-with-ethan-kross>.
Participe da Conversa