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Cada Um Escuta com a História que Tem (parte I)

Filtros inconscientes fazem com que uma mesma frase produza sentidos diferentes. Entenda como história, transferência e projeção influenciam nossa comunicação, ativam conflitos e moldam a forma como percebemos pessoas e relações.

Cada Um Escuta com a História que Tem: Filtros Inconscientes

Cada Um Escuta com a História que Tem (parte I)

Entre os filtros inconscientes, a construção de sentido e a maturidade nas relações

“Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam.”

A reflexão atribuída a Leonardo Boff parece simples, mas oferece uma chave poderosa para compreendermos muitos dos conflitos que atravessam as relações humanas.

Cada pessoa interpreta a vida a partir do lugar onde pisa: do ambiente em que cresceu, das relações que viveu, das palavras que ouviu, dos afetos que recebeu — ou que lhe faltaram —, das oportunidades que encontrou, das rejeições que enfrentou e das estratégias que precisou desenvolver para ser aceita, protegida ou reconhecida.

Interpretamos o presente com uma história inteira dentro de nós. Por isso, uma mesma frase pode produzir experiências completamente diferentes.

  • Você fala com intenção de cuidado, e o outro escuta como crítica.
  • Você se posiciona com firmeza, e alguém interpreta como arrogância.
  • Você faz uma pergunta para compreender melhor, e a outra pessoa se sente questionada em sua competência.
  • Você silencia para se proteger, e quem está diante de você entende o silêncio como desprezo ou indiferença.
  • Você estabelece um limite necessário, e alguém o recebe como rejeição.

Isso acontece porque ninguém escuta apenas com os ouvidos. Filtros inconscientes também participam desse processo. Nós escutamos com nossas memórias, nossas crenças, nossos medos, nossas expectativas, nossas necessidades e nossos desejos, com aquilo que sabemos sobre nós, mas também com aquilo que ainda não conseguimos reconhecer.

A comunicação, portanto, não pode ser reduzida à capacidade de falar bem. Ela é um processo de construção de significado que acontece no encontro entre diferentes mundos internos. Entre aquilo que uma pessoa deseja comunicar e aquilo que a outra consegue receber existe um território povoado por experiências conscientes e inconscientes.

A Psicanálise nos ajuda a compreender esse território.

A Psicologia Positiva, por sua vez, nos convida a perguntar como, apesar desses filtros, podemos construir relações mais conscientes, desenvolver forças internas e criar ambientes que favoreçam vínculos, sentido, realização e florescimento.

Uma abordagem nos ajuda a olhar para as marcas da história, enquanto a outra amplia nossa capacidade de construir possibilidades. Juntas, oferecem uma compreensão mais profunda da comunicação, da liderança e da maturidade emocional.


Não ouvimos apenas o que foi dito

Quando duas pessoas conversam, não estão presentes apenas as palavras pronunciadas naquele momento. Também estão presentes as experiências anteriores de cada uma: a infância em que errar significava decepcionar alguém, a família em que discordar era visto como desrespeito, o ambiente profissional em que fazer perguntas resultava em constrangimento, a relação em que o silêncio antecedia uma punição, o gestor que usava o feedback como instrumento de humilhação e a cultura organizacional em que demonstrar dúvida era entendido como incompetência.

Toda nova relação é, em alguma medida, recebida por uma pessoa que já viveu outras relações.

A Psicanálise propõe que a vida psíquica não é formada apenas por conteúdos dos quais temos consciência. Desejos, conflitos, fantasias, lembranças e mecanismos de defesa podem influenciar comportamentos e interpretações sem que percebamos claramente sua origem.

Freud desenvolveu conceitos como inconsciente, repressão, resistência e transferência para explicar como experiências e conflitos anteriores podem reaparecer nas relações presentes. Embora a Psicanálise tenha se desdobrado em diferentes escolas e recebido críticas quanto a algumas de suas formulações, sua contribuição para a compreensão da subjetividade e dos sentidos implícitos das ações humanas permanece influente.

Em outras palavras, não reagimos somente à pessoa que está diante de nós. Podemos reagir também ao que ela representa.

Uma líder pode fazer uma pergunta legítima sobre um projeto, mas a profissional que a escuta pode sentir novamente o medo que experimentava diante de uma autoridade excessivamente crítica. Um colaborador pode discordar de uma decisão, mas a gestora pode receber essa discordância como a repetição de situações em que sua autoridade foi desqualificada.

Uma pessoa pode atrasar uma resposta, e esse comportamento pode ativar no outro uma antiga sensação de abandono. Uma mulher pode se posicionar com clareza, e alguém pode reagir não apenas ao conteúdo apresentado, mas ao desconforto de ver uma mulher ocupando um lugar de autoridade que contradiz expectativas culturais profundamente internalizadas.

A cena atual, portanto, pode carregar personagens do passado. Esse é um dos motivos pelos quais algumas reações parecem maiores do que o acontecimento que as desencadeou: o presente tocou uma experiência antiga e a frase dita hoje encontrou uma ferida construída ontem.


Transferência: quando antigas relações atravessam novos encontros

Na Psicanálise, o conceito de transferência descreve o processo pelo qual sentimentos, expectativas e padrões construídos em relações anteriores são deslocados ou atualizados em uma relação presente.

O conceito surgiu no contexto clínico, mas pode nos ajudar a pensar situações que acontecem em diferentes espaços da vida.

Uma pessoa que cresceu buscando reconhecimento de figuras exigentes pode entrar em uma relação profissional tentando, novamente, provar que merece aprovação. Alguém que viveu sob controle pode interpretar toda orientação como tentativa de dominação. Uma mulher que precisou lutar continuamente para legitimar sua competência pode assumir uma postura excessivamente defensiva diante de perguntas que considera ameaçadoras.

Uma líder que teme rejeição pode evitar conversas necessárias para preservar uma sensação de harmonia, enquanto uma profissional que associa conflito à perda de vínculos pode dizer “sim” quando gostaria de dizer “não”.

Não se trata de afirmar que todas as relações profissionais reproduzem literalmente as experiências familiares, mas de reconhecer que criamos expectativas sobre as pessoas a partir das relações que nos constituíram.

A transferência faz com que, muitas vezes, percebamos o outro a partir de um lugar que não pertence inteiramente a ele.

Esperamos que ele critique antes mesmo que isso aconteça, tememos que abandone antes que se afaste, acreditamos que tentará nos controlar antes que expresse sua intenção e imaginamos que irá nos desqualificar antes mesmo de concluir a pergunta.

Essas antecipações influenciam nossa comunicação. Podemos responder defensivamente a uma agressão que ainda não aconteceu, nos explicar demais diante de alguém que não exigiu justificativas, evitar uma conversa porque prevemos um conflito semelhante ao que vivemos no passado ou exigir do presente uma reparação que ele não tem condições de oferecer.

Reconhecer esse processo não significa deslegitimar as emoções. O que sentimos é real, mas o sentido atribuído à situação pode conter elementos que vão além do acontecimento atual.

A maturidade começa quando conseguimos perguntar:

  • “Estou reagindo somente ao que aconteceu aqui?”
  • “Essa situação me lembra outras experiências?”
  • “Estou vendo essa pessoa como ela é ou como alguém que conheci no passado?”
  • “Que medo foi ativado em mim?”
  • “Que expectativa estou colocando nessa relação?”

Essas perguntas não retiram a responsabilidade do outro por seus comportamentos, mas nos devolvem a responsabilidade por compreender a nossa própria participação na relação.


Projeção: quando colocamos no outro aquilo que não reconhecemos em nós

Outro conceito psicanalítico importante para compreender conflitos é a projeção.

De maneira geral, a projeção ocorre quando atribuímos ao outro sentimentos, desejos, intenções ou características que temos dificuldade de reconhecer em nós mesmos.

Uma pessoa que não se permite demonstrar ambição pode criticar duramente a ambição de outra. Alguém que teme a própria agressividade pode enxergar hostilidade em qualquer manifestação de firmeza.

Uma liderança insegura pode acusar a equipe de falta de confiança, sem perceber que ela própria não confia em sua capacidade de liderar. Uma profissional que deseja reconhecimento, mas considera inadequado admitir essa necessidade, pode interpretar a visibilidade de outra mulher como vaidade.

Isso não significa que toda crítica seja projeção, nem que comportamentos inadequados devam ser relativizados.

A reflexão proposta pela Psicanálise é mais exigente: antes de concluir que compreendemos completamente as intenções do outro, precisamos investigar o que a situação desperta em nós.

Aquilo que mais nos incomoda em alguém pode revelar um comportamento realmente problemático, mas também pode tocar uma parte de nós que foi reprimida, negada ou julgada.

Uma mulher pode sentir grande irritação diante de outra que fala com convicção porque, durante anos, aprendeu que deveria ser discreta para ser aceita. Pode chamar a outra de arrogante quando, na verdade, também deseja ocupar espaço, mas ainda não se autorizou a fazê-lo.

Da mesma forma, alguém pode criticar uma líder por ser sensível porque aprendeu a considerar a sensibilidade uma fragilidade intolerável em si mesmo.

Nesse sentido, toda interpretação carrega duas possibilidades: ela pode dizer algo sobre quem está sendo observado e também revelar algo sobre quem observa.

Maturidade psíquica não significa desconfiar de todas as percepções, mas reconhecer que nenhuma percepção é completamente neutra.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como os filtros inconscientes influenciam nossa escuta, transformam conversas em conflitos e afetam nossas relações? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Até a próxima!

Luciana Soares Passadori
https://www.passadori.com.br

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Luciana Soares Passadori é mentora, coaching de desenvolvimento humano e facilitadora de autoliderança, liderança integral e liderança situacional. Possui vasta experiência no atendimento de grandes empresas para desenvolvimento de soluções em treinamentos comportamentais. Realizou a formação em Coaching Integrado – Coaching Executivo, Life Coaching pelo ICI Integrated Coaching Institute – Credenciado pelo ICF International Coach Federation, formação em DISC Profiler Solides e formação em Mentoria pela Enora Leader, formação em liderança feminina com Sally Helgesen. Criou e conduz, juntamente com Reinaldo Passadori, o curso Autoliderança Transformadora que tem um modelo de programa de autodesenvolvimento que potencializa as competências profissionais e pessoais. Advogada de formação, pós-graduada em Psicologia Transpessoal e especializada em Psicologia Forense. Iniciou sua jornada na carreira jurídica, onde atuou com Direito de Família por 12 anos. É Diretora estratégica do IVG, participa do comitê executivo do Programa Mentoria Colaborativa – Nós Por Elas do Instituto Vasselo Goldoni. E coautora do livro Mentores e suas histórias inspiradoras – Editora Leader.
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