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Pra Onde Vai Nossa Atenção? Como o Excesso de Informação Está Disputando Nosso Foco

O excesso de informação disputa nossa atenção o tempo todo. Entenda como feeds, algoritmos e conteúdo transformam o foco em mercadoria e descubra por que escolher conscientemente onde colocar sua atenção se tornou cada vez mais essencial.

Excesso de Informação: O que Está Disputando Sua Atenção? Como o Excesso de Informação Está Disputando Nosso Foco

Pra Onde Vai Nossa Atenção?
Como o Excesso de Informação Está Disputando Nosso Foco

Pois é, pra onde ela vai, em um mundo com o excesso de informação nos bombardeando de todos os lados? Na maior parte das vezes, esses lados são os da tela de um celular, mas não só. Podem ser até de outras pessoas, outros meios, mas nós nunca tivemos tanto acesso a tanto “conteúdo”. E o brasileiro está entre os que mais se expõem a esse bombardeio no mundo: segundo o relatório Digital 2026, passamos em média 53 horas e meia por semana na internet, mais de sete horas por dia, e 29 horas semanais só nas redes sociais. É como ter um segundo emprego, só que sem salário e com o expediente espalhado por todas as horas do dia.

E conteúdo virou um tipo de palavra mágica, que pode levar alguém da pobreza a uma vida de milionário em pouco tempo. Antigamente, você precisaria escavar a terra e procurar ouro ou petróleo. Agora, o caminho é produzir conteúdo. O Brasil já tem mais de 14 milhões de criadores de conteúdo, e o Goldman Sachs projeta que esse mercado chegue a 480 bilhões de dólares no mundo até 2027. Mas, como em toda corrida do ouro, pouca gente encontra o ouro: só 9% dos influenciadores brasileiros têm na criação de conteúdo a sua principal fonte de renda. Quem lucra com certeza, como na Califórnia do século XIX, é quem vende as pás. Hoje, as pás são as plataformas.

Com essa nova febre do ouro, a febre do conteúdo, fica aquela sensação de que estamos sempre defasados de informação.

Dessa forma, ficamos sem saber qual é o meme do momento, a fofoca de celebridade ou o último escândalo, que, aliás, se a gente demora para tomar conhecimento, já é atropelado pelo próximo. E quando se dá um nome para esse tipo de ansiedade, o FOMO, sigla em inglês para o medo de ficar por fora, não deixa de ser também um tipo de criação de conteúdo. A ansiedade vira assunto, o assunto vira post, e o post alimenta a mesma ansiedade que descreve.

Tem estudos que comparam o que nós recebemos hoje de informação em um dia com o que uma pessoa recebia durante toda a vida na Idade Média. É uma diferença absurda, como dá para imaginar, por causa da facilidade de acesso. Se a gente pegar 40 anos atrás, a diferença já é enorme. Para ter acesso ao conteúdo era preciso ir até uma loja de discos, enfrentar uma fila no cinema, esperar a novela ir ao ar no horário certo, procurar em um jornal impresso até achar a matéria que interessava, ou esperar a semana passar para a próxima edição de uma revista chegar na banca.

Existia um intervalo entre o desejo e o consumo, que deixou de existir.

Talvez isso contribua para perder um pouco da intensidade da atenção, porque depois que se acessava o conteúdo, eram momentos de atenção concentrada, que podiam ser quarenta minutos ouvindo um vinil, duas horas vendo um filme ou quanto se quisesse ou pudesse lendo um livro. A psicóloga americana Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, mede isso há duas décadas. Em 2004, uma pessoa ficava em média dois minutos e meio concentrada em uma tela antes de mudar de foco. Alguns anos depois, eram 75 segundos. Hoje são 47. E cada vez que a atenção é desviada de uma tarefa, levamos cerca de 25 minutos para voltar a ela por inteiro.

Hoje o feed não tem fim, mas é tudo dividido em segundos, a atenção pula de um conteúdo para o outro, que podem ou não ter relação entre si e que não são escolhidos por nós. O algoritmo é que faz a escolha, pretensamente a partir do que escolheríamos. Mas é uma escolha limitada pelo próprio algoritmo, claro, que sempre tem mais para oferecer. E aí, entra o paradoxo: mesmo com tanto acesso a tanta coisa, nunca nos sentimos tão atrasados nem tão por fora. O economista Herbert Simon, prêmio Nobel, já tinha antecipado isso em 1971, quando a internet nem existia: uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção. Informação consome atenção. Quanto mais há de uma, menos sobra da outra.

É muita gente produzindo conteúdo, a qualquer preço.

Só para dar um exemplo do perigo da transformação da atenção em mercadoria, quando é preciso produzir conteúdo o tempo todo, vale até a humilhação de outra pessoa. Foi o que aconteceu na abertura do Rock in Rio, quando o ator João Victor Gonçalves, que interpreta o Mau Mau na novela Quem Ama Cuida, foi seguido e hostilizado por causa da roupa que usava, por um grupo ligado a um streamer que transmitia a situação ao vivo pela plataforma Kick. O ator disse ter sentido medo, classificou o episódio como homofobia, e o caso passou a ser investigado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio. Ah, streamer é uma pessoa que produz conteúdo ao vivo pela internet, geralmente transmitindo vídeo e áudio em tempo real para uma audiência.

Depois da repercussão, o streamer pediu desculpas e afirmou que estava fazendo “entretenimento” na rua, como foi citado em uma matéria da Folha:

“Uma ótima noite, abençoada por Jesus. Pega a visão. Eu estava numa live aqui, mano. Eu fico fazendo um monte de entretenimento pelo meio da rua. Doideira com maluquice. Fui fazer entretenimento com um cara que estava passando na rua e me dei mal. Cliparam [cortaram], postaram no Twitter e estou recebendo um monte de hate“.

Pegaram a visão? Se a atenção vale dinheiro, vale a humilhação, o conflito e até a crueldade. Existem milhares de streamers pelo mundo espalhando misoginia, por exemplo, dizendo a milhões de seguidores como tratar as mulheres.

E não é preciso ir longe.

Um levantamento do NetLab da UFRJ com o Ministério das Mulheres identificou 137 canais brasileiros no YouTube com conteúdo explicitamente misógino. Esses canais somam 3,9 bilhões de visualizações. Quase nove em cada dez desses vídeos foram publicados nos últimos três anos, e cerca de 80% dos canais ganham dinheiro com eles, principalmente com transmissões ao vivo. O ódio não é um efeito colateral desse modelo. Muitas vezes, é o próprio produto.

Muita gente diz que todo esse poder de levar informação deveria ser, sem dúvida, usado para divulgar informação útil, como as grandes realizações da ciência ou as pessoas que fazem diferença no mundo. Tudo isso é ótimo, com certeza seria um conteúdo melhor do que o de qualquer streamer, mas quem decide o que é útil ou não? E será que a saída é só trocar o conteúdo “ruim” por um conteúdo “útil”, sem mudar a forma como ele chega até nós?

Em A Utilidade do Inútil, o filósofo italiano Nuccio Ordine defende a tese de que existem coisas que não servem para nada prático, como a poesia, a pintura, a filosofia, a arte ou o livro que não é de autoajuda. Por não servirem a nenhum fim imediato, elas sustentam o que há de mais humano em nós. Ordine escreve contra essa lógica que reduz tudo à utilidade mercantil, ao retorno financeiro, à métrica de sucesso. Para ele, uma sociedade que só valoriza o que dá lucro ou resultado é uma sociedade que empobrece a própria alma. A cultura, a contemplação, a curiosidade e a experiência estética não são ferramentas para chegar a outro lugar. Elas podem ser o próprio lugar a que deveríamos chegar e está ok. Ou deveria estar.

Nunca gastamos tanto tempo com coisas “inúteis” quanto agora.

Mas esse inútil não é mais o que Ordine defendia. A diferença é que quando alguém escolhe ler um romance ou ficar diante de um quadro num museu, há uma escolha ativa, de onde podem vir sensações ou a criação de uma memória. Já o feed decide por nós e troca a nossa atenção por coisa nenhuma. Terminamos sem lembrar de quase nada. Não por acaso, a palavra do ano de 2024 escolhida pelo dicionário Oxford foi brain rot, algo como “apodrecimento cerebral”, para descrever justamente o desgaste mental de quem consome, sem parar, conteúdo que não deixa nada. O inútil de Ordine nos devolvia a nós mesmos. O inútil do feed nos tira de nós.

Podemos pensar em outras perguntas, além da do título: quem está escolhendo aquilo a que prestamos atenção? Como ela está sendo comercializada? O que é que estamos perdendo? Talvez a resposta comece por recuperar algo daquele intervalo que perdemos entre o desejo e o consumo. Escolher o que ver antes que escolham por nós, terminar o que começamos, deixar o celular longe por quarenta minutos, o tempo de um lado de um vinil. Atenção é uma das poucas coisas que ainda são inteiramente nossas, pelo menos enquanto a gente decide onde colocá-la. Pensar e discutir essas respostas pode dar um bom conteúdo. 


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Quer saber como lidar com o excesso de informação desta era digital e recuperar o controle da sua atenção em um mundo que disputa seu foco? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/

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Marco Ornellas é Psicólogo, Master of Science in Behavior pela California American University e Mestre em Biologia-Cultural pela Universidad Mayor do Chile e Escuela Matrizstica. Pós em Neurociência e o Futuro Sustentado de Pessoas e Organizações.Consultor, Coach, Designer Organizacional, Palestrante e Facilitador de Grupos e Workshops em temas como Liderança, Complexidade, Gestão, Desenvolvimento de Equipes, Inovação e Consultor em Design da Cultura Organizacional.Autor dos Livros: DesigneRHs para um Novo Mundo, Uma nova (des)ordem organizacional e Ensaios por uma Organização Consciente.CEO da Ornellas Consulting e Ornellas Academy.
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