Um Everest para Chamar de Seu: Descubra Seu Desafio Pessoal
Olá!
Nesta semana, três amigos meus, Cris, Walter e Cleide, concluíram o Caminho de Santiago de Compostela. Todos com mais de 55 anos.
Acompanhei à distância algumas imagens, relatos, quilômetros percorridos e, finalmente, a chegada. É difícil não admirar. Mas, talvez por deformação profissional, enquanto muita gente enxergava a conquista, fiquei curioso com outra coisa: por que alguém que já passou dos 55 anos, depois de enfrentar trabalho, família, contas, perdas, conquistas, alegrias, frustrações e tudo aquilo que uma vida razoavelmente longa oferece e cobra, decide colocar uma mochila nas costas e caminhar centenas de quilômetros?
Ninguém os obrigou. Não havia promoção esperando na chegada, nenhum cliente condicionou um contrato à apresentação da Compostela e nenhum chefe estabeleceu aquela meta no planejamento anual. Eles simplesmente decidiram ir.
Pensando nisso, comecei a olhar para minha biblioteca. Tenho livros de Amyr Klink, Tamara Klink, da família Schurmann e de Izabel Pimentel. Pessoas diferentes que, em algum momento, decidiram atravessar oceanos, viver experiências incomuns ou fazer alguma coisa pela primeira vez.
Tenho também um amigo, Rogério Lima, que decidiu conhecer pessoalmente as sete maravilhas do mundo. E conheço Claudia Franco, fundadora da Ciclofemini, uma escola de bicicleta para mulheres. A história dela é particularmente interessante: Claudia praticamente nada sabia sobre bicicletas, comprou uma, aprendeu a pedalar e depois atravessou as Américas de bicicleta.
Há algo em comum nessas histórias: em determinado momento, essas pessoas decidiram voluntariamente tornar a própria vida mais difícil.
Passamos boa parte da existência tentando fazer justamente o contrário. Trabalhamos para conquistar conforto, economizamos tempo, automatizamos tarefas, construímos segurança, tentamos reduzir incertezas e evitar riscos desnecessários. Até que algumas pessoas olham para uma estrada, um oceano, uma montanha, uma bicicleta ou qualquer outra coisa suficientemente difícil e pensam: “Eu quero fazer isso.”
Passei a chamar essas coisas de nossos Everests pessoais.
Evidentemente, não estou falando necessariamente de montanhas. O Everest de uma pessoa pode parecer absolutamente banal para outra. Correr cinco quilômetros pode não representar nada para quem completa maratonas e ser uma conquista gigantesca para alguém que nunca conseguiu correr quinhentos metros. Viajar sozinho pode ser rotina para alguns e assustador para outros. Escrever um livro, voltar a estudar ou aprender uma nova habilidade pode cumprir a mesma função.
Talvez o tamanho do nosso Everest não deva ser medido pela altura da montanha, mas pela distância entre os comportamentos que temos hoje e aqueles que precisaremos construir para chegar ao cume.
E aqui a conversa começa a ficar mais interessante, porque não há virtude alguma em tornar a vida mais difícil. Sofrimento não melhora necessariamente ninguém, assim como dificuldade, por si só, não produz crescimento. Há experiências que ensinam e outras que simplesmente machucam. Não se trata daquela conhecida romantização da superação, como se bastasse sofrer bastante para sair do outro lado sendo uma pessoa melhor.
O valor do Everest pessoal está em outro lugar
Na maior parte da vida, o ambiente nos apresenta desafios e precisamos produzir comportamentos para enfrentá-los. O emprego, a família, o mercado, os relacionamentos e a própria sobrevivência nos exigem respostas.
No Everest pessoal acontece algo diferente: nós escolhemos o desafio.
Ao fazer essa escolha, criamos deliberadamente um ambiente que passará a exigir comportamentos que talvez ainda não estejam disponíveis em nosso repertório.
Pense em Claudia e sua bicicleta. Entre a mulher que pouco sabia pedalar e aquela capaz de atravessar as Américas existiram milhares de comportamentos: aprender, treinar, planejar, corrigir erros, administrar recursos, enfrentar imprevistos, levantar e continuar, além de mudar decisões quando necessário.
Ela não precisava estar pronta para escolher aquele desafio. Foi o desafio escolhido que exigiu que ela ficasse pronta.
Talvez aconteça algo semelhante em Santiago. A pessoa que chega à Catedral não é exatamente aquela que iniciou a caminhada semanas antes. Não preciso romantizar dizendo que voltou “transformada”; talvez sim, talvez não. Mas algo objetivamente aconteceu durante o caminho.
Ela produziu comportamentos que talvez não produzisse antes, repetiu alguns deles centenas de vezes, abandonou outros que não funcionavam, tomou decisões cansada, administrou desconfortos, adaptou-se aos imprevistos e continuou mesmo quando desistir era uma alternativa perfeitamente possível.
Ao final, possui uma evidência que antes não possuía: eu fiz.
Talvez seja por isso que algumas conquistas tenham um valor tão particular na narrativa da nossa existência.
A psicologia há muito estuda como construímos significado sobre a própria trajetória. Conceitos como generatividade, percepção do tempo que ainda temos pela frente e construção da narrativa pessoal ajudam a compreender por que, especialmente à medida que amadurecemos, algumas perguntas parecem mudar.
Durante boa parte da vida, perguntamos: “O que ainda preciso conquistar?” Em algum momento, talvez comecemos a formular outra questão: “O que ainda quero ter vivido?”
É uma pergunta diferente e talvez seja dela que nasçam alguns Everests.
Nem todas as pessoas, porém, parecem se relacionar da mesma maneira com seus desafios. Algumas têm um Everest: escolhem algo difícil, preparam-se, fazem, chegam ao cume e guardam aquela conquista como uma página importante da própria história: “Pronto. Eu fiz.”
Outras parecem ter um Himalaia inteiro. Chegam ao cume, observam a paisagem, comemoram e, algum tempo depois, surge uma pergunta aparentemente inocente: “E agora?”
Para algumas pessoas, talvez nunca tenha sido realmente sobre chegar ao cume, mas sobre tornar-se alguém capaz de caminhar em direção a ele. E há uma diferença enorme entre essas duas coisas.
O cume é resultado e a caminhada é comportamento
Enquanto o resultado termina no momento em que é alcançado, os comportamentos construídos durante a caminhada passam a fazer parte do repertório daquela pessoa.
Talvez seja por isso que, para alguns, um Everest seja suficiente e, para outros, cada montanha revele outra. Não necessariamente porque queiram colecionar conquistas, mas porque descobriram algo sobre si mesmos durante o caminho: “Se fui capaz de me tornar isso, no que mais posso me transformar?”
Então pode surgir outra montanha, outro ambiente, outros comportamentos e outra caminhada. Um Himalaia.
Mas há um cuidado importante. Existe diferença entre continuar caminhando porque encontramos significado nessa construção e precisar permanentemente de uma nova montanha porque não sabemos quem somos quando estamos parados.
Há quem queira chegar, há quem queira continuar caminhando e talvez exista quem simplesmente não consiga parar.
Não cabe a mim dizer qual dessas relações é melhor. Inteligência Comportamental não consiste em estabelecer quais comportamentos todas as pessoas deveriam ter. Trata-se de compreender o ambiente, reconhecer objetivos, fazer escolhas conscientes, produzir comportamentos adequados a essas escolhas e observar os resultados.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja quantas montanhas você já escalou, mas por que escolheu escalá-las.
E existe ainda uma possibilidade que me fascina: talvez nosso Everest represente uma relação entre duas versões de nós mesmos. De um lado está quem reconheço ser hoje; do outro, quem imagino ser capaz de me tornar. Entre ambos existe um caminho.
Quando escolhemos um desafio suficientemente significativo, a pessoa que somos hoje começa a produzir os comportamentos capazes de construir aquela que ainda não existe.
Nesse sentido, talvez o verdadeiro Everest sejamos nós. O desafio cria o ambiente no qual, comportamento após comportamento, diminuímos a distância entre quem somos e quem podemos nos tornar.
Por isso, vale uma pergunta:
Você já pensou qual é o seu Everest pessoal?
Ele não precisa ser extraordinário aos olhos de ninguém nem render fotografias, livro, documentário ou postagem em rede social. Precisa fazer sentido para você.
Existe alguma coisa que gostaria de ter feito antes que sua história termine? Algo que ninguém esteja cobrando, que talvez não produza dinheiro, cargo ou reconhecimento, mas que, para realizar, exigiria comportamentos que hoje você ainda não produz?
Talvez sua montanha esteja aí.
Costumo fazer um exercício em algumas de minhas palestras.
Imagine que você morreu e, ao chegar ao paraíso, um anjo recebe você e diz:
“Nós lhe demos uma mente capaz de pensar, um corpo para agir, pessoas para apoiá-lo e pessoas para desafiá-lo. Demos algo em que acreditar e colocamos você em um mundo que tanto lhe ofereceu quanto lhe exigiu.
Você teve tempo, fez escolhas, acertou algumas, errou outras, caminhou, parou e recomeçou. Chegou a alguns lugares e desistiu de outros.”
Então o anjo olha para você e faz apenas uma pergunta:
Com tudo aquilo que lhe foi dado, qual foi sua obra de referência?
Pense nisso!
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como descobrir seu Everest pessoal, escolher desafios pessoais que realmente façam sentido e desenvolver novos comportamentos para construir a história que deseja viver? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até a próxima!
Edson Carli
https://inteligenciacomportamental.com
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