fbpx

A Ilusão do Empoderamento Solitário: O Que Aprendi Entre o Silêncio do Cerrado e a Urgência de São Paulo

Entenda por que o empoderamento solitário não basta para promover equidade de gênero. Veja como liderança regenerativa, inclusão, pertencimento e mudanças sistêmicas podem transformar culturas e relações de poder nas organizações.

A Ilusão do Empoderamento Solitário: O Que Aprendi Entre o Silêncio do Cerrado e a Urgência de São Paulo

A Ilusão do Empoderamento Solitário: O Que Aprendi Entre o Silêncio do Cerrado e a Urgência de São Paulo

Como a verdadeira transformação social e a equidade de gênero exigem mais do que resiliência individual — elas cobram a coragem de regenerar nossos sistemas de poder.

O cerrado brasileiro tem uma maneira peculiar de nos convidar à presença. Quando pisei na Granja do Ipê, na UNIPAZ, em Brasília, nos primeiros dias de agosto, o ar seco e a vastidão da natureza pareciam exigir uma pausa na urgência cotidiana. Estávamos ali para o 1º Fórum Brasileiro de Pessoas Facilitadoras de Comunicação Não-Violenta — o Criando Laços.

Durante dias, imersa em rodas de escuta e construções coletivas, o foco não foi apenas a empatia interpessoal, mas a dimensão sistêmica da CNV: como podemos utilizar a nossa comunicação, a nossa rede e a nossa consciência para transformar e desmantelar sistemas sociais de dominação.

Poucas horas depois de deixar a fogueira e a quietude daquele espaço, aterrissei na efervescência de concreto de São Paulo para o Summit Mulheres nas Profissões. No coração pulsante do centro financeiro, coordenei com outras voluntárias o Espaço de Mentoria, por onde passaram mais de cem mulheres buscando direcionamento, gestão de carreira e, acima de tudo, um espaço seguro para existirem sem máscaras.

O contraste entre esses dois cenários foi apenas geográfico. Nas entrelinhas, as dores e as esperanças eram ecos da mesma ferida estrutural. No cerrado, discutíamos a teoria e a prática da desconstrução do sistema patriarcal capitalista com seu poder punitivo e dominador; em São Paulo, eu olhava nos olhos de mulheres que, todos os dias, sofrem os impactos exaustivos desse exato sistema em suas trajetórias corporativas e pessoais.

Há uma armadilha perigosa no discurso contemporâneo sobre diversidade e inclusão, especialmente quando falamos de mulheres no mercado de trabalho.

Nós construímos uma narrativa que celebra a “guerreira”, a mulher que rompe tetos de vidro, que equilibra a vida pessoal e profissional com uma maestria quase sobre-humana, que se empodera e conquista seu espaço. Aplaudimos a sua resiliência. Celebramos a sua força.

Mas precisamos fazer uma pausa e olhar para o custo invisível dessa narrativa.

O empoderamento, quando reduzido a uma jornada solitária e individual, exime o sistema de sua responsabilidade. Ao dizermos constantemente às mulheres que elas precisam ter mais autoconfiança, que devem “sentar à mesa”, que precisam fazer mais cursos de negociação ou vencer a síndrome da impostora, estamos, de fato, dizendo: o sistema continuará exatamente como é, excludente e predatório; é você quem precisa desenvolver uma armadura mais espessa para sobreviver a ele.

Isso não é inclusão. É assimilação forçada. E a assimilação tem um preço altíssimo, pago com a saúde mental, o esgotamento emocional, assim como o apagamento da autenticidade de milhares de profissionais brilhantes.

Nas dezenas de mentorias que acompanhei no Summit, o padrão era dolorosamente familiar. Mulheres altamente qualificadas, lideranças em ascensão, relatando o peso de precisarem provar sua competência em dobro.

A exaustão de terem suas vozes interrompidas, suas ideias apropriadas, e suas lideranças frequentemente rotuladas como “emocionais demais” ou “agressivas demais”, ou seja, a velha corda bamba do duplo vínculo feminino. O brilho nos olhos ao descobrirem estratégias de gestão de carreira dividia espaço com o alívio profundo de simplesmente serem vistas, ouvidas e validadas. “Eu achei que o problema fosse eu”, foi uma frase que pairou no ar mais de uma vez.

É aqui que a lente da Liderança Regenerativa se faz não apenas necessária, mas urgente.

Um modelo de liderança baseado na extração — de tempo, de energia, de conformidade — não pode ser o berço da verdadeira equidade. A natureza, que tanto nos ensina sobre sistemas sustentáveis, não exige que uma semente crie uma armadura para nascer no asfalto. Ela nos mostra que precisamos preparar o solo. Regenerar a cultura organizacional significa parar de tentar consertar as mulheres para que elas caibam em estruturas patriarcais. Em vez disso, ter a coragem de redesenhar essas estruturas.

A Comunicação Não-Violenta nos oferece um mapa vital para essa travessia. Quando Marshall Rosenberg sistematizou a CNV, sua visão ia muito além da resolução de conflitos em salas de reunião; ele mirava na linguagem que sustenta a dominação. Nos sistemas de dominação, o poder é exercido sobre o outro.

O valor de uma pessoa é condicionado à sua utilidade e conformidade. Na cultura corporativa tradicional, isso se traduz no microgerenciamento, na competição predatória, na ausência de segurança psicológica e, além disso, nas microagressões diárias que sinalizam quem pertence e quem é apenas “tolerado”.

“Se uso a Comunicação Não-Violenta para libertar as pessoas de depressão, de conviverem melhor com suas famílias, mas simultaneamente não lhes ensino como rapidamente transformar os sistemas sociais no mundo, então me torno parte do problema. Essencialmente estarei as pacificando, fazendo-lhes mais felizes de viver nos sistemas como atualmente são, e assim utilizando a CNV como um narcótico.” (Marshall Rosenberg)

Para que possamos romper com isso, precisamos evoluir para sistemas de parceria, onde o poder é construído com o outro.

Isso exige uma revolução profunda na forma como lideramos. Uma liderança consciente e regenerativa reconhece que a diversidade sem inclusão é apenas estatística, e que inclusão sem pertencimento é apenas convivência forçada.

O pertencimento só acontece quando o sistema se adapta para nutrir as diferentes identidades que o compõem, celebrando a complexidade humana em vez de temê-la.

Isso exige que abandonemos o mito do “profissional neutro” — uma figura imaginária que deixa sua raça, seu gênero, sua orientação sexual, seus traumas e sua história na porta giratória do escritório. Esse profissional não existe. Quando exigimos essa neutralidade, estamos apenas exigindo que todos mimetizem o comportamento do grupo dominante.

As transformações sociais reais, aquelas que alteram o curso da história e o DNA de uma organização, nunca ocorrem por meio de heróis solitários. Elas ocorrem em rede. No Fórum Criando Laços em Brasília, o que vi foi exatamente a potência do tecido social sendo restaurado. Pessoas de diversos cantos do país, de escolas públicas a empresas privadas, unidas por um fio condutor: a crença de que a qualidade das nossas relações determina, de fato, a qualidade do nosso futuro.

Quando transportamos essa sabedoria para a realidade corporativa, percebemos então que o avanço da equidade de gênero exige uma mudança sistêmica. Esse avanço não se restringe a comitês de diversidade ou a um evento no mês de março. A mudança atravessa a avaliação de desempenho, a política de remuneração, os critérios de promoção e a flexibilidade estrutural. Também alcança, fundamentalmente, as conversas difíceis que os líderes estão dispostos (ou não) a ter.

Convido você, líder, profissional, agente de mudança, a descer do palco das certezas operacionais e então caminhar pelo terreno fértil das perguntas incômodas:

  • O que estamos normalizando em nossas equipes sem perceber?
  • Quem está sendo repetidamente excluído do processo de tomada de decisão?
  • Quando elogiamos a “resiliência” de uma colaboradora, que tipo de violência institucional estamos pedindo que ela suporte calada?
  • Que tipo de cultura estamos ajudando a construir quando o silêncio diante de uma interrupção sexista é o nosso comportamento padrão?
  • O que acontece com a inovação, a sustentabilidade e a saúde do nosso negócio quando deixamos o esgotamento estrutural sem atenção?

A transformação que o futuro do trabalho nos exige não é cosmética, mas sim civilizatória. Não podemos mais nos contentar em convidar as mulheres para sentar-se a uma mesa que continua sendo regida pelas mesmas regras de dominação de séculos atrás. O que precisamos, de fato, é construir, juntos, uma nova mesa.

O meu mês de agosto começou me mostrando dois retratos vívidos do Brasil. No coração do país, encontrei a profundidade enraizada da nossa capacidade de repensar sistemas. Na maior metrópole da América Latina, vi a urgência latente e brilhante das mulheres que movimentam a nossa economia.

Entre muitos abraços no cerrado e um megaevento em São Paulo, a mensagem ficou cristalina. A verdadeira transformação é coletiva, vulnerável, desconfortável e, sem dúvida, imensamente poderosa.

A liderança regenerativa é o caminho. A consciência é a bússola. E o momento de começarmos a restaurar esse solo, para que todos possam florescer, é inegociavelmente agora.

Sejamos a mudança!


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre por que o empoderamento solitário não basta e como promover equidade de gênero por meio de mudanças sistêmicas e da liderança regenerativa? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Kaká Mandakinï
Gallup Global Strenghts Coach, Mentora de Liderança Regenerativa, facilitadora de CNV, Consultora de DEI e acredita que a comunicação autêntica é a chave para transformar organizações em ecossistemas de vida.
https://www.diversidadeagora.com.br

Confira também: O Custo Invisível do Recuo: Quando a Conveniência Substitui a Coragem Corporativa

Palavras-chave: empoderamento solitário, equidade de gênero, liderança regenerativa, Comunicação Não-Violenta, inclusão, mulheres no mercado de trabalho, mudança sistêmica, sistemas de dominação, inclusão sem pertencimento, liderança consciente e regenerativa, o que é empoderamento solitário, empoderamento solitário o que é, por que empoderamento solitário não basta
Kaká Mandakini tem o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais humana, compassiva, não-violenta e que valoriza a diversidade em todas as suas formas de expressão. Atuou durante 15 anos no mercado financeiro em áreas comerciais, estratégicas e de apoio ao negócio. Hoje, trabalha com o desenvolvimento de lideranças, com treinamentos, processos de autoconhecimento, gestão de conflitos e apoiando o desenvolvimento e as práticas de Comunicação Não-Violenta. Também atua como professora convidada e coach na Fundação Dom Cabral e no Insper, e como voluntária no Grupo Mulheres do Brasil e na Universidade do Propósito. É palestrante, coach, master practitioner em PNL, CHO – Chief Happiness Officer, treinadora comportamental, mentora, facilitadora de práticas de Comunicação Não-Violenta, Constelação Sistêmica Organizacional, Action Learning coach e mediadora de conflitos. Ela acredita que estamos entrando em uma nova era que pulsa por valores humanos mais elevados, como propósito, colaboração, criatividade, diálogo, sabedoria, felicidade, bem-estar, realização pessoal e consciência de interdependência, e que é papel de uma liderança consciente criar o ambiente favorável para a plena expressão do potencial e da autenticidade das pessoas.
follow me
Neste artigo


Participe da Conversa