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De Gago a Grande Orador: O Que Demóstenes Pode Ensinar Sobre Desenvolvimento de Competências

Desenvolvimento de competências não depende só de talento. Descubra como Demóstenes transformou limitações em força e o que sua história ensina sobre carreira, comunicação, influência, liderança, mentoria executiva e evolução profissional.

Desenvolvimento de Competências: A Lição de Demóstenes

De Gago a Grande Orador: O Que Demóstenes Pode Ensinar Sobre Desenvolvimento de Competências

Há mais de dois mil anos, um jovem ateniense decidiu que não aceitaria que suas limitações determinassem aquilo que poderia se tornar.

Demóstenes nasceu em Atenas por volta de 384 a.C. e entrou para a história como um dos maiores oradores da Antiguidade. Seus discursos políticos, especialmente aqueles em que alertava os atenienses sobre o avanço de Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, atravessaram os séculos e ainda hoje são estudados como exemplos de retórica e capacidade de persuasão.

O curioso é que Demóstenes aparentemente estava muito longe de possuir aquilo que consideraríamos um talento natural para a oratória.

Segundo Plutarco, ele enfrentava dificuldades de dicção, tinha uma voz pouco potente e problemas para controlar a respiração. Suas primeiras experiências diante do público não foram particularmente bem-sucedidas. Para alguém que pretendia conquistar espaço na vida política de Atenas, onde a capacidade de falar e convencer era uma competência essencial, essas limitações poderiam facilmente ter encerrado suas ambições.

Não encerraram.


Pedras na boca e muito treinamento

A tradição conta que Demóstenes colocou pequenas pedras na boca para exercitar sua articulação e tornar a fala mais clara. Também treinava a respiração enquanto caminhava ou corria por terrenos íngremes, declamava discursos em condições adversas e utilizava um grande espelho para observar seus movimentos e sua postura.

Existe ainda a história de que teria se isolado durante longos períodos para se dedicar intensamente aos estudos e à prática da oratória. Plutarco menciona um local subterrâneo utilizado por ele para estudar e treinar, o que provavelmente contribuiu para que, ao longo dos séculos, surgisse a versão mais romântica de Demóstenes isolado nas montanhas aperfeiçoando sua fala.

Não sabemos até que ponto cada detalhe dessas histórias aconteceu exatamente dessa maneira. Sabemos, porém, que os relatos antigos apresentam um homem que reconheceu suas limitações e decidiu trabalhar sistematicamente para superá-las.

E talvez seja justamente aí que sua história se torne tão atual.


Talento ou competência?

No mundo corporativo, encontro com frequência profissionais que, de alguma maneira, definem seus próprios limites a partir daquilo que acreditam ser características pessoais imutáveis.

  • “Não sou bom em apresentações.”
  • “Não tenho facilidade para fazer networking.”
  • “Não consigo me posicionar em reuniões.”
  • “Não tenho o perfil político necessário.”
  • “Tenho dificuldade para influenciar pessoas.”

A questão que a história de Demóstenes nos convida a colocar é bastante simples: estamos realmente falando de características definitivas ou de competências que ainda não foram suficientemente desenvolvidas?

Conheci profissionais extraordinariamente competentes do ponto de vista técnico que encontraram dificuldades quando chegaram a posições nas quais o conhecimento deixou de ser suficiente. Quanto mais se avança na organização, mais importantes se tornam competências relacionadas à comunicação, influência, relacionamento, visão do negócio, capacidade de negociação e liderança.

Isso acontece de maneira evidente com profissionais de Finanças. Durante muitos anos, eles são reconhecidos pela capacidade analítica, pelo domínio dos números, pelo conhecimento técnico e pela precisão de suas análises. Em determinado momento da carreira, entretanto, aquilo que os trouxe até ali já não é suficiente para levá-los adiante.

Não porque essas competências tenham deixado de ser importantes, mas porque outras passaram a ser igualmente necessárias.


Quando alguém nos ajuda a enxergar aquilo que não vemos

Existe outro episódio da história de Demóstenes que considero especialmente interessante.

Plutarco relata que, depois de uma experiência frustrante como orador, Demóstenes encontrou o ator Sátiro. Ao ouvi-lo reclamar de que seus discursos não produziam o efeito esperado, Sátiro pediu que ele recitasse um trecho de uma tragédia. Depois, o próprio ator apresentou a mesma passagem utilizando voz, interpretação e presença de maneira completamente diferente.

Demóstenes percebeu que o problema não estava apenas no conteúdo daquilo que dizia. Estava também na maneira como comunicava.

É interessante imaginar quantas vezes algo semelhante acontece dentro das organizações. Um executivo pode dominar profundamente determinado assunto e ainda assim não conseguir influenciar uma decisão. Pode ter uma excelente ideia e não conseguir mobilizar as pessoas em torno dela. Pode produzir uma análise impecável e não conseguir transformá-la em uma mensagem capaz de sensibilizar o CEO, o Conselho ou seus pares.

Muitas vezes somos capazes de identificar aquilo que fazemos bem, mas temos muito mais dificuldade para perceber nossos próprios pontos cegos.

Foi isso que Sátiro fez por Demóstenes: mostrou algo que ele sozinho aparentemente ainda não conseguia enxergar.


O papel da mentoria executiva no desenvolvimento de competências

É justamente nesse ponto que encontro uma interessante conexão entre essa história e a mentoria executiva.

Evidentemente, seria um anacronismo chamar Sátiro de mentor executivo de Demóstenes. Mas o princípio envolvido naquela relação continua extremamente atual: alguém de fora observa, questiona, oferece outra perspectiva e ajuda o profissional a perceber aspectos de seu comportamento que dificilmente enxergaria sozinho.

Uma boa mentoria executiva não deveria ter como objetivo fornecer respostas prontas ou ensinar alguém a reproduzir o comportamento do mentor. Seu valor está muito mais em ampliar perspectivas, provocar reflexões e ajudar o executivo a identificar quais competências e habilidades precisam ser desenvolvidas para que você possa enfrentar uma nova etapa de sua carreira.

Em alguns casos será comunicação. Em outros, influência, capacidade de relacionamento, pensamento estratégico, liderança de pessoas ou compreensão mais ampla do negócio.

Também existe um aspecto que considero fundamental: determinadas competências podem levar anos para serem, de fato, desenvolvidas apenas pela experiência e pelo processo natural de tentativa e erro. Quando existe alguém capaz de observar, provocar e compartilhar experiências acumuladas em situações semelhantes, esse processo pode ser mais consciente e, muitas vezes, mais rápido.


As nossas próprias pedras

Naturalmente, não estou sugerindo que executivos coloquem pedras na boca antes da próxima reunião de Conselho.

Mas talvez todos nós tenhamos nossas próprias “pedras”.

Durante a carreira, inevitavelmente encontramos competências que não possuímos naturalmente ou que não tivemos oportunidade de desenvolver. Algumas delas pouco importam em determinado momento profissional e tornam-se decisivas alguns anos depois.

O erro talvez esteja em acreditar que aquilo que hoje representa uma dificuldade necessariamente continuará sendo uma dificuldade amanhã.

Demóstenes não se tornou um dos grandes oradores de seu tempo porque descobriu que, afinal, possuía um talento escondido. Pelo menos não é essa a mensagem que sua história nos deixou. Tornou-se conhecido por sua oratória porque identificou suas limitações, submeteu-se a um processo intenso de desenvolvimento e buscou formas de transformar suas fragilidades em competências.

Mais de dois mil anos depois, talvez a pergunta continue válida para qualquer profissional que pretenda avançar em sua carreira:

Quais são as competências que hoje limitam o próximo passo da sua carreira e o que você está fazendo, concretamente, para desenvolvê-las?


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como o desenvolvimento de competências pode transformar limitações profissionais em oportunidades concretas para avançar na carreira? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Walter Serer
https://walterserer.com.br
https://www.linkedin.com/in/walter-serer-86717b20/

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Walter Serer Author
Walter Serer possui extensa e sólida experiência executiva como CFO e CEO de empresas multinacionais de grande porte. Robusta formação em Finanças Corporativas adquirida na General Electric (graduado pelo Financial Management Program) onde atuou por 14 anos ocupando relevantes posições na área de Finanças e Administração. Atuou como CFO nas empresas TI Group, Valeo, Coldex Frigor e Black&Decker. Nos últimos 18 anos exerceu posição de CEO na Ingersoll Rand Brasil (2011-2014), Syncreon South America (2003-2010) e TI Group Latin America (1997-2003). Pós-graduado em Finanças pela FGV e graduado em Administração de Empresas pela (ESAN – PUC/SP).
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