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Quando o Adolescente Silencia: O Que Estamos Deixando de Escutar?

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Depressão na Adolescência: Quando o Silêncio Pede Escuta

Quando o Adolescente Silencia: O Que Estamos Deixando de Escutar?
Depressão na adolescência, Setembro Amarelo e as histórias que nos ajudam a olhar para além do comportamento

Há um momento da vida em que deixar de ser criança não significa ainda saber ser adulto. É a adolescência. Um território de transição, de descobertas, conflitos e profundas transformações. O corpo muda, a identidade começa a ganhar novos contornos, os vínculos familiares são questionados, os amigos passam a ocupar um lugar central e surge, muitas vezes de maneira intensa, a necessidade de pertencer.

É também uma fase em que o jovem começa a se perguntar, ainda que nem sempre consiga formular claramente: quem sou eu, onde pertenço e que lugar tenho no mundo? Talvez por isso seja tão difícil distinguir, algumas vezes, aquilo que faz parte das turbulências próprias da adolescência daquilo que revela um sofrimento psíquico que precisa ser acolhido e cuidado.

O adolescente pode se fechar no quarto, dormir mais, responder com irritação, abandonar atividades de que gostava, afastar-se dos amigos, apresentar queda no desempenho escolar ou demonstrar uma aparente indiferença diante de tudo. E nós, adultos, frequentemente interpretamos esses sinais a partir de explicações que nos parecem mais simples.

Os pais ou cuidadores contextualizam para si mesmos:

  • “É uma fase.”
  • “São os hormônios.”
  • “Ele está querendo chamar atenção.”
  • “Ela tem tudo e não deveria estar reclamando.”
  • “Na minha época era muito mais difícil.”

Essas frases, muitas vezes ditas por preocupação ou até por amor, podem revelar algo importante: nossa dificuldade de reconhecer uma linguagem que não dominamos.

O adolescente nem sempre consegue dizer que está deprimido, que está se sentindo sozinho, que não vê sentido nas coisas ou que precisa de ajuda. Muitas vezes, comunica tudo isso através do comportamento.

É justamente nesse lugar que a peça O Filho, do dramaturgo francês Florian Zeller, encontra uma enorme potência. Repetidamente, o personagem diz: “Não sei”, “Não vou conseguir”, “Não estou bem”. Todas essas falas são pedidos de socorro que não serão atenuados com “broncas” ou com “eu te amo”. A dor da angústia é mais profunda que isso. O sofrimento que não cabe em uma explicação.

Na história de Zeller, Nicolas é um adolescente de 16 anos que apresenta um profundo sofrimento emocional. Depois da separação dos pais, ele passa a viver com o pai e demonstra dificuldades que os adultos ao seu redor tentam compreender. O pai procura respostas. A mãe também tenta encontrar uma explicação para aquilo que está acontecendo. Existe uma preocupação genuína, mas existe igualmente uma dificuldade de alcançar a dimensão da dor daquele jovem.

E talvez seja isso que torne a história tão incômoda. Não estamos diante de pais indiferentes. Estamos diante de adultos que amam, que querem ajudar e que, mesmo assim, não conseguem compreender completamente o que está acontecendo. Essa é uma das dimensões mais dolorosas quando falamos de depressão na adolescência: amar alguém não significa necessariamente conseguir enxergar sua dor.

A verdade é que podemos estar muito próximos fisicamente e, ainda assim, emocionalmente distantes.

Podemos perguntar ao nosso filho como ele está e ouvir um “estou bem”. Podemos também perceber que alguma coisa mudou e receber como resposta que não aconteceu nada. Além disso, podemos insistir, oferecer conselhos, lembrar tudo aquilo que ele tem, dizer que outras pessoas enfrentam problemas maiores e acreditar que, dessa maneira, estamos ajudando. Mas, algumas vezes, o adolescente não precisa naquele momento de uma solução. Ele precisa primeiro sentir que existe alguém disposto a permanecer ao seu lado diante de algo que ele próprio ainda não consegue compreender.

Quando “não aconteceu nada” significa que aconteceu muita coisa. Tenho pensado muito sobre como os adultos interpretam o silêncio dos adolescentes. Um jovem chega da escola e entra diretamente no quarto. A mãe pergunta se aconteceu alguma coisa. Ele responde que não. Ela insiste, pergunta se houve algum problema com os amigos, com os professores, com as notas. Ele continua dizendo que está tudo normal. Diante disso, podemos encerrar a conversa. Mas também podemos perceber que aquele “não aconteceu nada” talvez não seja exatamente uma informação, mas uma defesa. Talvez ele não saiba como começar, talvez tenha medo de decepcionar, talvez não queira preocupar os pais. Talvez não encontre palavras para aquilo que sente. Ou talvez já tenha aprendido que algumas emoções provocam nos adultos uma reação que ele não deseja enfrentar.

Existe uma diferença enorme entre não querer falar e não conseguir falar.

E reconhecer essa diferença é uma das tarefas mais delicadas de quem convive com adolescentes. Por isso, escutar não significa transformar cada conversa em um interrogatório. Significa criar condições para que a conversa possa acontecer.

É possível dizer a um filho que percebemos que ele parece diferente, que não precisamos conversar naquele exato momento, mas que estaremos disponíveis quando ele quiser. É possível demonstrar interesse sem invadir, oferecer presença sem exigir confissão e, principalmente, transmitir a mensagem de que ele não será julgado por aquilo que sente. Essa disponibilidade pode parecer pequena. Mas, para alguém que está sofrendo, pode ser enorme.

Da série à vida real: quando a ficção nos obriga a olhar.

A cultura contemporânea tem produzido obras que ajudam a colocar a adolescência e seus conflitos no centro da conversa. A série 13 Reasons Why, por exemplo, provocou uma discussão mundial ao abordar suicídio, bullying, violência, culpa, relações entre adolescentes e o impacto que determinados acontecimentos podem ter sobre a vida de um jovem.

A produção também gerou importantes debates sobre a maneira como o suicídio é representado na ficção e sobre os cuidados necessários ao abordar esse tema. Mais recentemente, a série Adolescência voltou a colocar o universo juvenil no centro das discussões, explorando questões relacionadas à identidade, pertencimento, masculinidade, violência, relações familiares e influência do ambiente digital.

Embora sejam obras ficcionais e não possam ser tomadas como retratos universais da adolescência, elas cumprem uma função social relevante: nos obrigam a olhar para perguntas que muitas vezes preferimos evitar. O que nossos filhos estão vivendo quando estão longe de nós? O que acontece nos grupos de mensagens dos quais não participamos? Que referências estão construindo sua identidade? Que tipo de pressão estão enfrentando? O que significa ser aceito por um grupo?

E, principalmente, quanto conhecemos realmente do mundo emocional de nossos adolescentes?

A tecnologia ampliou essas perguntas. O adolescente pode estar sentado à mesa com a família e, ao mesmo tempo, estar emocionalmente imerso em um universo completamente diferente através do celular. Nós vemos o que acontece dentro de casa. Mas nem sempre vemos o que acontece dentro da tela. A adolescência é uma questão de pertencimento e existe algo particularmente delicado nessa fase: a necessidade de pertencer. Ser reconhecido pelo grupo, ter amigos, sentir-se aceito, descobrir quem se é e construir uma identidade própria fazem parte do desenvolvimento. Quando esse pertencimento é ameaçado, a dor pode ser muito intensa.

Criar uma família onde o pertencimento é o centro da conversa ajuda muito. Pertencer à família, à comunidade, ao grupo: isso pode ser ensinado na forma como se relacionam com os outros, com empatia, acolhimento, amizade, afeto.

Uma rejeição de qualquer natureza pode parecer, para um adulto, algo passageiro. Para um adolescente, pode representar uma ruptura profunda da imagem que ele construiu de si. Uma exclusão de um grupo pode parecer banal para quem observa de fora. Para quem está vivendo aquilo, pode significar “ninguém gosta de mim”.

Uma crítica nas redes sociais pode desaparecer rapidamente no fluxo de informações. Mas pode permanecer durante muito tempo na mente de quem a recebeu. O problema não é apenas aquilo que aconteceu. É o significado que aquilo adquiriu para aquele jovem. São as primeiras experiências de testar o mundo exterior. E essa talvez seja uma das maiores contribuições que a psicanálise pode oferecer à compreensão do sofrimento: olhar não apenas para o acontecimento, mas para o sentido que ele assume na experiência subjetiva de cada pessoa.

É nesse contexto que o Setembro Amarelo, o mês de prevenção ao suicídio, ganha uma dimensão que vai muito além de uma campanha anual. Falar sobre prevenção do suicídio não deveria significar apenas conversar sobre a morte. Significa conversar sobre a vida, sobre vínculos, sobre pertencimento. Sobre sofrimento, sobre solidão. Sobre a possibilidade de pedir ajuda.

A Organização Mundial da Saúde aponta que aproximadamente uma em cada sete pessoas entre 10 e 19 anos apresenta algum transtorno mental, e que depressão e ansiedade estão entre as condições que mais afetam adolescentes. O suicídio também está entre as principais causas de morte entre jovens. Esses dados nos lembram que saúde mental na adolescência não pode ser tratada como uma questão periférica. Mas existe outro cuidado necessário: não transformar toda tristeza em depressão.

A adolescência é marcada por oscilações emocionais, conflitos, frustrações e mudanças de comportamento. O jovem pode estar triste, irritado, inseguro ou confuso sem necessariamente apresentar um transtorno depressivo. O que merece nossa atenção são mudanças persistentes ou significativas, especialmente quando há perda de interesse pelas atividades habituais, isolamento, alterações importantes de sono ou apetite, queda acentuada no funcionamento cotidiano, desesperança, sentimentos de inutilidade ou qualquer manifestação relacionada à morte ou à vontade de desaparecer.

Nessas situações, buscar avaliação profissional é fundamental. E quando existe risco imediato, a prioridade é procurar ajuda de emergência e não deixar o jovem sozinho. Não precisamos ser pais perfeitos. Precisamos estar presentes. Talvez uma das maiores ilusões da parentalidade seja acreditar que precisamos saber exatamente o que fazer. Não sabemos. E tudo bem.

Pais também têm medo. Se sentem culpados. Podem interpretar sinais de maneira equivocada e também podem dizer a coisa errada tentando acertar.

O importante é poder rever a própria posição. Talvez seja necessário trocar a pergunta “onde foi que eu errei?” por “o que eu ainda não consegui perceber?”. Trocar “por que ele está fazendo isso?” por “o que esse comportamento pode estar comunicando?”. Trocar “ele precisa reagir” por “como posso ajudá-lo a encontrar recursos para reagir?”

E trocar a necessidade de encontrar imediatamente uma resposta pela disponibilidade para permanecer diante da pergunta. É nesse ponto que a peça O Filho se torna tão poderosa. A peça não nos oferece uma fórmula para lidar com a depressão na adolescência. Mas nos coloca diante da complexidade do sofrimento humano. E talvez seja justamente essa a sua maior contribuição. Antes do diagnóstico, existe uma pessoa.

Quando falamos sobre depressão, transtornos mentais ou prevenção do suicídio, existe o risco de reduzirmos o adolescente ao diagnóstico: “Ele é deprimido”, “Ela tem ansiedade”, “Ele está com problemas”. Mas antes de qualquer diagnóstico existe uma pessoa. Existe uma história. Existe uma família. Existem desejos, medos, sonhos, contradições e possibilidades.

Existe alguém tentando construir uma identidade em um mundo que, muitas vezes, exige respostas antes mesmo de permitir que as perguntas amadureçam. Por isso, cuidar da saúde mental dos adolescentes significa também criar espaços para que eles possam existir sem precisar estar permanentemente performando. Não precisam ser sempre felizes, não precisam ter as melhores notas, não precisam saber o que querem da vida aos 16 ou 17 anos e não precisam corresponder às expectativas dos adultos. Mas, sim, precisam saber que podem pedir ajuda. Precisam saber que podem falhar, que podem falar e, sobretudo, saber que sua dor não os torna menos importantes.

Neste Setembro Amarelo, talvez possamos olhar para os adolescentes que estão à nossa volta de uma maneira um pouco diferente:

  • Em vez de perguntar apenas se eles estão bem, podemos demonstrar que estamos disponíveis para escutar também quando a resposta não for “sim”.
  • Em vez de tentar imediatamente corrigir um comportamento, podemos procurar compreender o que existe por trás dele.
  • Em vez de considerar o isolamento apenas como rebeldia, podemos investigar se existe sofrimento.
  • Em vez de esperar que o adolescente peça ajuda de maneira clara, podemos criar relações nas quais pedir ajuda seja possível.

E talvez possamos aprender uma coisa fundamental: escutar não é concordar, não é resolver e não é ter todas as respostas. Escutar é reconhecer a existência do outro.

É dizer, mesmo sem palavras, que percebemos que alguma coisa está acontecendo, que talvez não compreendamos completamente, mas que queremos compreender, e que aquele jovem não precisa atravessar tudo sozinho.

No fundo, é disso que falam O Filho, 13 Reasons Why e Adolescência, cada uma a seu modo e com suas limitações: daquilo que acontece quando o mundo interior de um jovem se torna invisível para aqueles que estão ao seu redor.

E talvez a pergunta mais importante para este Setembro Amarelo não seja apenas “como identificar a depressão?”, mas “estamos realmente disponíveis para escutar aquilo que nossos adolescentes ainda não conseguem dizer?”

Porque algumas dores começam muito antes de serem nomeadas. E, muitas vezes, antes de alguém pedir socorro, existe apenas um pequeno sinal. Uma mudança. Um afastamento. Um silêncio. Cabe a nós decidir se vamos passar por ele sem perceber ou se vamos parar, olhar e perguntar: “Quer me contar o que está acontecendo?” Às vezes, uma conversa não resolve tudo. Mas pode ser o começo de uma ponte. E algumas pontes salvam vidas.

Quando é hora de prestar mais atenção?

Nem toda tristeza é depressão. A adolescência é marcada por oscilações emocionais, conflitos e mudanças de comportamento. O que merece atenção é quando essas mudanças se tornam intensas, persistentes ou começam a interferir significativamente na vida cotidiana do jovem.

Alguns sinais que podem indicar que é importante buscar ajuda profissional são o isolamento frequente ou a perda de interesse por amigos, atividades e situações que antes proporcionavam prazer; mudanças importantes no sono, no apetite ou na rotina; queda repentina e persistente no desempenho escolar; irritabilidade, agressividade ou alterações de humor que fogem do padrão habitual; sentimentos recorrentes de culpa, inutilidade, fracasso ou desesperança; e dificuldade crescente de concentração e realização de tarefas.

Também merecem atenção especial falas ou comportamentos que expressem vontade de desaparecer, morrer ou deixar de existir, assim como despedidas incomuns, doação de objetos importantes ou mudanças repentinas de comportamento após um período de intenso sofrimento.

Um sinal isolado não permite concluir que um adolescente esteja deprimido. O mais importante é observar mudanças em relação ao comportamento habitual e considerar o contexto em que elas aparecem.

Quando existe sofrimento significativo, conversar com o adolescente com calma, sem julgamento e sem minimizar aquilo que ele sente pode ser um primeiro passo. A avaliação de um profissional de saúde mental pode ajudar a compreender o que está acontecendo e indicar os cuidados necessários.

Quando houver risco imediato de suicídio ou de autolesão, a situação deve ser tratada como uma emergência: o adolescente não deve ser deixado sozinho e é necessário buscar imediatamente um serviço de emergência ou de saúde.

Para lembrar, não precisamos esperar uma crise para começar uma conversa. Prevenção também é perguntar, escutar, observar mudanças e, sem dúvida, construir relações nas quais o adolescente saiba que pedir ajuda é possível. Escutar pode ser o primeiro cuidado.


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Quer saber mais sobre como reconhecer os sinais da depressão na adolescência e criar espaço para que o silêncio possa se transformar em escuta e pedido de ajuda? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Mônica Barg
https://www.monicabarg.com.br

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Mônica Barg Author
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Mônica Barg é uma profissional experiente, atuando como Coach, Mentora e Psicanalista. Ela é caracterizada por sua curiosidade incessante, sua acolhida calorosa, sua produtividade incansável e seu espírito empreendedor. Sua busca constante é pela melhor informação e conteúdo, seja relacionado a temas ou indivíduos. Tem uma crença profunda no potencial individual de cada pessoa e adota abordagens inovadoras para se conectar com a essência única de cada indivíduo, buscando a evolução e a entrega do melhor em desenvolvimento humano. Com uma carreira de mais de 30 anos, acumulou experiência executiva em diversas áreas, incluindo atendimento ao cliente, desenvolvimento de novos negócios e gestão comercial. Possui um amplo conhecimento dos processos e estruturas corporativas, bem como uma compreensão profunda da cultura organizacional. Além disso, tem uma extensa experiência de mais de 1500 horas em atendimentos individuais para orientação e desenvolvimento de pessoas, bem como orientação para o desenvolvimento e implementação de ações empreendedoras e processos organizacionais. Sua abordagem é caracterizada por uma visão sistêmica, combinada com uma profunda percepção do indivíduo, o que lhe permite traduzir em estratégias de atuação tanto em nível individual quanto empresarial. Possui uma formação sólida, sendo Mentora certificada pela FGV-RJ e Escola de Mentores, Mestranda em Gestão do Conhecimento pela FUNIBER, com Pós-Graduação em Psicologia Positiva e Coaching pela UCAM-RJ, bem como certificações em Coaching pela SBP e Crescimentum. Ela é Psicanalista certificada pela SBPI-SP, com Pós-graduação em Administração e Psicanálise do Século XXI, ambos pela FAAP. Adicionalmente, Monica possui certificações em Coaching Evolutivo, Coaching de Liderança e Formação em Psicanálise pela AEDP em Nova York. Sua formação acadêmica inclui uma graduação em Arquitetura pela UFRJ.
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