
O Outro Ainda Cabe na Nossa Democracia?
Como responsabilizar alguém pelas consequências de suas escolhas sem lhe retirar a humanidade? O desafio democrático não é aceitar todas as opiniões, mas sustentar a ética, a responsabilidade e o amor ao mundo mesmo diante daquilo que consideramos inaceitável.
Em algum momento dos últimos anos, deixamos de discordar das ideias de alguém e passamos a duvidar de sua humanidade.
A mudança talvez tenha acontecido devagar, quase imperceptivelmente. Primeiro, estranhamos uma opinião. Depois, começamos a observar outras falas, escolhas e silêncios à procura de confirmação. Até que aquela pessoa – um amigo, um irmão, um colega de trabalho, alguém com quem dividimos a vida durante anos – passou a caber inteira numa única definição: é de direita, é de esquerda, é conservadora, é progressista, é fascista, é comunista.
Já não escutamos exatamente o que ela diz. Escutamos aquilo que imaginamos que alguém daquela categoria seria capaz de dizer.
Às vésperas de uma eleição, esse movimento se torna ainda mais visível. Famílias evitam determinados assuntos, amizades se desfazem, grupos de mensagens se transformam em territórios hostis e relações profissionais ficam atravessadas por uma desconfiança que ninguém nomeia. O voto, que deveria expressar uma escolha política, passa a funcionar como uma espécie de diagnóstico moral: diga em quem vota e eu lhe direi quem você é.
Talvez um voto revele, de fato, muito sobre alguém.
Pode indicar valores, interesses, medos, ressentimentos, esperanças e a maneira como essa pessoa imagina a sociedade em que deseja viver. Escolhas políticas não são gestos neutros nem inteiramente privados. Elas ajudam a decidir quem terá seus direitos protegidos, quais vidas serão consideradas dignas, como os recursos serão distribuídos e que formas de poder estaremos dispostos a legitimar.
Por isso, não me convence a frase aparentemente pacificadora de que precisamos respeitar todas as opiniões. Há opiniões que humilham, excluem e sustentam violências. Há projetos políticos que ameaçam direitos e corroem as próprias condições que permitem a existência da democracia. Reconhecer a pluralidade não significa tratar todas as posições como moralmente equivalentes, assim como amar alguém não nos obriga a aceitar tudo o que essa pessoa faz.
O problema começa quando, ao responsabilizarmos alguém por suas escolhas, deixamos de reconhecê-lo como humano.
Hannah Arendt encontrou na pluralidade uma das condições fundamentais da vida política. A política existe porque o mundo não é habitado por reproduções do mesmo ser humano, mas por pessoas singulares, capazes de enxergar a realidade a partir de lugares diferentes. Se fôssemos todos iguais, talvez não precisássemos da política. Bastaria administrar consensos.
A pluralidade, portanto, não é um defeito do sistema nem um obstáculo que a democracia precisa suportar. É sua própria razão de existir.
Há quase vinte anos, quando concluí minha pós-graduação em Transdisciplinaridade, escolhi como tema do trabalho final O ser político: ação, poder e ética. É possível um caminho transdisciplinar? Já me inquietava a dificuldade de construir um mundo comum entre pessoas que enxergam a realidade a partir de perspectivas diferentes. Volto hoje àquela pergunta e percebo que ela não envelheceu. Talvez tenha apenas se tornado mais urgente: como exercer o poder, agir politicamente e sustentar uma posição ética sem transformar a diferença em impossibilidade de convivência?
Mas há algo profundamente desconfortável nessa constatação. Gostamos da diversidade enquanto ela permanece no campo das diferenças que conseguimos admirar. Celebramos outras culturas, trajetórias, experiências e modos de vida, desde que não desafiem radicalmente nossas convicções. A pluralidade torna-se muito mais difícil quando o outro acredita em algo que consideramos injusto, perigoso ou moralmente inaceitável.
É nesse ponto que a democracia deixa de ser apenas uma forma de governo e se transforma numa exigência ética.
- Como conviver com alguém cujas escolhas podem produzir sofrimento para outras pessoas?
- Como preservar o vínculo sem silenciar nossas convicções?
- Como combater uma ideia sem desejar o desaparecimento de quem a defende?
- E como reconhecer a humanidade do outro sem usar essa humanidade como desculpa para relativizar tudo?
Não há resposta simples para essas perguntas, e talvez seja exatamente por isso que precisamos fazê-las.
A política contemporânea parece ter aprendido a transformar o outro em ameaça antes mesmo de transformá-lo em adversário. Não basta vencer sua proposta; é preciso desmoralizá-lo. Não basta contestar o que ele diz; é necessário provar que não merece ser ouvido. Aos poucos, desaparece a pessoa concreta e surge uma figura abstrata na qual depositamos tudo aquilo que tememos ou desprezamos.
Esse mecanismo é sedutor porque nos poupa do esforço de compreender.
Quando reduzimos alguém a uma categoria, já sabemos antecipadamente o que pensa, por que pensa e de que seria capaz. Não precisamos perguntar, escutar ou admitir contradições. O rótulo organiza a realidade, elimina ambiguidades e nos oferece a segurança de permanecer entre os bons.
O perigo é que quase todos os grupos políticos se consideram formados pelos bons.
A partir daí, a responsabilidade pelas próprias palavras também começa a desaparecer. Se o outro representa uma ameaça absoluta, qualquer agressão pode parecer justificável. A humilhação transforma-se em coragem, a crueldade em franqueza, a mentira em estratégia e a destruição da reputação de alguém em defesa de uma causa maior.
Desumanizar o outro sempre começa por uma explicação moralmente convincente. Talvez seja por isso que falar de amor em política pareça, ao mesmo tempo, ingênuo e necessário.
Não me refiro ao amor como sentimento afetuoso, conciliação permanente ou disposição para abraçar quem nos agride. Há relações que precisam terminar, espaços dos quais é necessário sair e limites que devem ser estabelecidos com clareza. O amor não elimina o conflito nem exige que permaneçamos próximos de todos.
Penso no amor como reconhecimento de que o outro, mesmo quando profundamente diferente de mim, continua pertencendo ao mundo humano.
Humberto Maturana compreendia o amor como a emoção que legitima o outro na convivência. Legitimar não é concordar, obedecer ou renunciar ao julgamento. É reconhecer que aquela pessoa não precisa tornar-se semelhante a mim para ter direito à existência, à palavra e à dignidade.
Arendt, por outro caminho, falou em amor ao mundo – amor mundi. Um amor menos dirigido à intimidade entre indivíduos e mais relacionado à responsabilidade por esse espaço comum que existia antes de nós e continuará depois. Amar o mundo, nesse sentido, não é considerá-lo bom como está. É recusar-se a abandoná-lo, assumindo responsabilidade por aquilo que fazemos dele.
Talvez a democracia precise dessas duas formas de amor: a que reconhece a legitimidade humana do outro e a que nos responsabiliza pelo mundo que construímos juntos.
Nenhuma delas, porém, é confortável.
Reconhecer o outro como legítimo não significa ignorar os efeitos de suas escolhas. Se alguém apoia políticas que retiram direitos, estimulam a violência ou aumentam o sofrimento de grupos inteiros, precisa ser confrontado com as consequências daquilo que defende. A responsabilidade política começa justamente quando entendemos que nosso voto não termina em nós.
Votar é participar da vida de pessoas que talvez jamais conheçamos.
Uma decisão tomada em poucos segundos alcança escolas, hospitais, florestas, territórios, relações de trabalho, direitos civis e possibilidades de futuro. Chega a corpos que não veremos, a famílias que não frequentam nossos círculos e a gerações que ainda não nasceram. Podemos considerar nossa escolha individual, mas seus efeitos nunca serão apenas individuais.
É aqui que responsabilidade e humanidade precisam permanecer juntas.
Se reconhecemos apenas a humanidade, corremos o risco de transformar o acolhimento em indulgência e tratar escolhas graves como simples diferenças de opinião. Se enxergamos apenas a responsabilidade, podemos reduzir uma pessoa inteira ao pior significado que atribuímos ao seu voto.
Nenhum voto contém uma pessoa inteira.
Ele pode revelar muito, mas não reúne todas as experiências, contradições, lealdades, ignorâncias, afetos e medos que participaram daquela escolha. Pessoas não chegam às urnas conduzidas apenas por argumentos racionais. Levam histórias familiares, condições materiais, crenças religiosas, memórias, perdas, desejos de pertencimento e interpretações do mundo formadas ao longo de uma vida.
Compreender essas determinações não elimina a responsabilidade. Apenas impede que nossa análise se transforme numa sentença sumária.
Talvez seja possível dizer a alguém: “aquilo que você escolheu produz consequências que considero inaceitáveis” sem concluir: “por isso, você deixou de pertencer à humanidade que reconheço”. Talvez possamos combater firmemente uma posição e, ainda assim, conservar alguma curiosidade sobre o caminho que levou uma pessoa até ela.
Não porque toda conversa vá produzir entendimento. Algumas não produzirão. Há quem não queira escutar, quem encontre prazer na violência e quem transforme qualquer abertura em oportunidade de ataque. A democracia não exige disponibilidade ilimitada para o abuso.
Mas também não sobrevive se desistimos antecipadamente de qualquer possibilidade de palavra.
Quando todas as pessoas do outro lado se tornam irrecuperáveis, a política perde sua função. Já não há um mundo comum a disputar, apenas territórios inimigos a conquistar. O adversário deixa de ser alguém com quem divergimos sobre a realidade e passa a ser alguém cuja existência impede a realidade que desejamos.
É assim que a vontade de transformar o mundo pode, silenciosamente, converter-se na vontade de eliminar dele determinadas pessoas.
Talvez algumas relações não resistam às eleições. Há escolhas que revelam incompatibilidades profundas e nos obrigam a rever vínculos que pareciam seguros. Nem toda ruptura é intolerância; às vezes, ela é a expressão necessária de um limite ético.
Ainda assim, vale perguntar se estamos nos afastando de alguém pelo que essa pessoa efetivamente fez e defendeu ou pela totalidade de intenções que passamos a lhe atribuir. Vale perguntar se tentamos compreender antes de condenar, se oferecemos ao outro a oportunidade de explicar suas escolhas e se também suportamos ouvir aquilo que talvez confirmasse nosso pior receio.
A resposta pode não salvar a relação. Mas talvez preserve em nós alguma coisa que não deveríamos perder.
As urnas contam votos e produzem vencedores. A democracia, porém, começa antes delas e continua muito depois da apuração. Ela se manifesta na maneira como exercemos o poder, como aceitamos limites, como protegemos quem ficou em minoria e como convivemos com o fato incontornável de que o mundo não será habitado apenas por pessoas que pensam como nós.
Aceitar esse fato não significa conformismo. Significa reconhecer o campo no qual a ação política se torna necessária.
Podemos – e devemos – disputar ideias, denunciar injustiças, defender direitos e responsabilizar escolhas. Mas, se para fazer isso precisarmos retirar do outro sua dignidade, talvez já tenhamos permitido que a lógica que combatemos se instale dentro de nós.
O desafio não é amar todas as opiniões. Algumas precisam ser enfrentadas com firmeza.
O desafio é não perder o amor pela humanidade enquanto lutamos pelo mundo que consideramos justo.
Porque a democracia não depende apenas de aceitarmos perder uma eleição. Depende, talvez ainda mais, de não perdermos a humanidade enquanto tentamos vencê-la.
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Isabel C Franchon
https://www.q3agencia.com.br
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