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Da paixão e da loucura no cotidiano profissional!

Quem é que nunca teve sua vida profissional afetada ao viver um momento de paixão incontrolada? E quem consegue se sentir imune a tudo isso?

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Quem é que nunca teve sua vida profissional afetada ao viver um momento de paixão incontrolada? E quem consegue se sentir imune a tudo isso?

Anos atrás, eu lancei o livro “Paixão de Verão”, editado pela Qualitymark. Várias pessoas demonstraram surpresa ao ver aquela casa editorial, muito reconhecida pelas suas publicações afins com negócios e comportamento humano, apostar em tema tão diferente. Distribuidores, livrarias e leitores quiseram entender esse porquê e o como, mesmo antes de conhecerem mais do conteúdo!

Num primeiro instante, é curioso que pessoas envolvidas com a liberdade criativa e a geração de ideias e cenários, que um livro sempre se permite especular, pudessem ter essa preocupação. Mas a resposta não poderia ser mais simples: quem é que nunca teve a sua atividade profissional afetada ao viver um momento de paixão incontrolada? E quem trabalha com as pessoas, como o profissional de coaching ou mentoria, por acaso consegue se sentir imune a tudo isso?

Neste espaço eu já tratei, sem muitos questionamentos, sobre como a síndrome do burnout, a insegurança pessoal, a falta de motivação ou a baixa estima por si próprio afetam o cotidiano das pessoas e demandam por alguma intervenção profissional. Certamente, além desses exemplos, eu poderia citar outros temas que fazem com que um profissional seja emocionalmente afetado e coloque sua vida profissional em risco. E por que com uma paixão avassaladora seria diferente?

Continuando, os contos do livro acima citado trabalham com personagens de diferentes locais, posições sociais e atividades. Todos eles, envolvidos em tramas emocionais inesperadas e não planejadas, veem suas vidas modificadas quando a paixão ganha na prioridade. E para escrever este artigo, cabe trazer algumas referências bem interessantes que reforçam tudo o que afirmei há pouco.

Curiosamente, os profissionais de marketing sabem que o processo da paixão, misturando razões e emoções, é parecido com o que ocorre “na paixão” com determinada marca empresarial. Do desconhecimento, passando pela aceitação, preferência e, depois de um tempo, chegando à idealização e “paixão”, o relacionamento com marcas também é totalmente emocional.

Voltando ao ponto em que a paixão acontece, o corpo e a alma se misturam numa reação em cadeia. E assim leva à plenitude desejada por qualquer ser humano, mesmo que condenada a ter fim, mais cedo ou mais tarde. Fazendo uma viagem na História, um racionalista como René Descartes já percebia a importância de se relacionar à natureza do ser humano com as paixões, quando citava que:

“a paixão impacta a alma e se reflete sobre o corpo, movimento sobre a qual não há controle racional”.

Alguém conseguirá então domar essa força a bem do cotidiano de trabalho?

Descartes discordava que a sede das paixões fica no coração. Ele argumentava que:

“muitos pensam assim pois a paixão se faz sentir no coração mas, na realidade, resulta de estímulos físicos recebidos do cérebro”.

Para ele, o corpo e a alma ficam lutando um contra o outro, num estado apavorante que mistura ansiedade, espera, angústia e falta de explicação para o que se passa dentro do ser apaixonado. De novo, pode-se esquecer que esse cenário se reflete na vida profissional de um mortal?

A paixão carregada de desejo é a forma de Descartes definir a agitação da alma, a variação nos fluxos de sangue e ar dentro do corpo. Sua constatação mais precisa é a de que:

“os principais sinais da paixão se refletem nos olhos e nas expressões do rosto, na mudança de cor de nossas faces e nossos lábios, nos tremores e na mudança de respiração, na languidez e solicitude, nos risos e lágrimas, nos gemidos e suspiros”.

O brilhante pensador, já em sua época, via nossa alma diferentemente em relação aos estímulos racionais e às paixões. Então, outra vez, alguém vai negar que esse cenário se reflete também na vida profissional?

Descartes afirmava que o remédio para a cura das paixões está em se abster de julgamentos. Sugeria que a pessoa apaixonada se distraísse com outras coisas até que o tempo e o repouso pudessem apaziguar o corpo, trazendo a respiração e a circulação do sangue ao ritmo normal. Para ele:

“sendo uma imprudência querer enfrentar um inimigo desigual, como se mostra a paixão extremada, o ideal seria não sentir desonra em efetuar uma honesta retirada de cena”.

E será que a pessoa apaixonada consegue abandonar a luta ou prefere arriscar morrer na sua ousadia?

Stendhal, outro pensador brilhante, sintetizou que:

“a paixão só pode ser evitada no começo, e nela não pode haver ingratidão, pois o prazer atual sempre paga em excesso os sacrifícios maiores”.

Com isso, somos levados a entender que, na visão dele, viver uma paixão sempre “vale a pena”. No livro “A loucura e as épocas”, de Isaías Pessotti, as demonstrações de loucura foram analisadas ao longo dos séculos. E mostram como alguém pode perder a autonomia e a racionalidade. De Homero (século V a.C.) até hoje, Pessotti percorre um caminho que se inicia com a seguinte frase:

“Se entendermos a loucura como a perda da capacidade ou falência do controle voluntário sobre as paixões, uma história da loucura deve começar, praticamente, com a história da espécie humana.”

Para todos os efeitos, as descrições apresentadas sobre a loucura também servem muito bem para exemplificar o comportamento do ser humano no momento de paixão, incluindo suas manifestações sensoriais recheadas de desequilíbrios. Fica então à consideração de quem lê sobre a paixão, e particularmente conjugando as ideias de Descartes, Stendhal e Pessotti, imaginar até que ponto muitos humanos apaixonados que viram seu cotidiano no trabalho ficar de “pernas para o ar”, sem duplo sentido, possam ter sido tratados como loucos na história da humanidade.

Certamente, essas pessoas perderam os seus empregos por excesso de atrasos ou faltas, por abandono ou, como nos dias atuais, por absoluta e total perda de produtividade! Ou alguém acredita que o apaixonado dá prioridade ao trabalho e cresce em desempenho?

E você, como coach, mentor ou consultor, de que forma poderia ajudar essas pessoas a equilibrarem a emoção da paixão com a responsabilidade do trabalho. Este é um desafio fantástico à reflexão de todos os leitores, estejam ou não apaixonados no momento. E ficam os desejos de um feliz caminhar até a próxima postagem!

Mario Divo
https://www.dimensoesdesucesso.com.br/

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Mario Divo Author
Mario Divo tem extensa experiência profissional, tendo chegado a quase meio século de atividade ininterrupta, em 2020. É PhD e MSc pela Fundação Getulio Vargas, com foco em Gestão de Negócios, Marcas e Design, Marketing e Comunicação Corporativa. Tem formação como Master Coach, Mentor e Adviser pela Sociedade Brasileira de Coaching e pelo Instituto Holos. Consultor credenciado para aplicação do diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool), Professor e Palestrante. CEO e Coordenador Executivo das plataformas de negócios MENTALFUT® e Dimensões de Sucesso®, acumulando com o comando da sua empresa MDM Assessoria em Negócios. Foi Diretor Executivo do Automóvel Clube Brasileiro e Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras. Liderou a Comunicação Institucional e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Foi Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e, também, Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior em 126 países e territórios, voltada ao desenvolvimento das potencialidades das jovens lideranças em todo o mundo.
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