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Uma Certa Cultura que Insiste em Sobreviver — e Por Que Isso Ainda Importa

Mesmo com avanços em RH e saúde mental, culturas organizacionais tóxicas ainda persistem. Entenda por que esse modelo sobrevive, seus impactos nos profissionais e o que está por trás dessa contradição no ambiente corporativo atual.

Cultura Organizacional Tóxica: Por Que Ela Ainda Sobrevive?

Uma Certa Cultura que Insiste em Sobreviver — e Por Que Isso Ainda Importa

A gente se esforça. Existem milhares de profissionais do setor de Recursos Humanos ao redor do mundo estudando, escrevendo, dando conferências, encomendando pesquisas, a maior parte afinada com o conceito de que organizações saudáveis dependem do bem-estar de seus trabalhadores. Poderia ser uma coisa simples, quase óbvia.

Outros conceitos, como clima organizacional, segurança psicológica, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, foram entrando ao longo dos anos no vocabulário corporativo. O nosso esforço também é para que isso tudo realmente signifique mudanças verdadeiras em relação a um modelo antigo, pré-histórico, mas ainda não abandonado por muita gente.

Infelizmente, entre essas pessoas que insistem em manter vivos esses modelos, estão algumas de grande projeção, que realmente influenciam muitas outras, como o CEO da Uber, Dara Khosrowshahi. Aliás, deve ser difícil a vida do pessoal de RH na Uber. Já imaginou tentar falar de ambiente saudável e cultura não-tóxica e ver seu superior dando declarações que vão contra esses conceitos?

Sim, porque coisas como o fim da escala 6×1 não estão no seu horizonte. Afinal, ele diz que quer dedicação total dos colaboradores à empresa, inclusive aos finais de semana, podendo mandar mensagem no sábado. E ele vai além: “E se eu não receber resposta envio outro no domingo com ponto de interrogação. O que está acontecendo?”.

Se o incauto funcionário responder algo como “Estou dedicando esse tempo livre para passar com a minha família” provavelmente não precisará aparecer na empresa na segunda-feira.


Falar do óbvio é sempre meio constrangedor.

Mas vamos lá: pesquisas sobre saúde mental no trabalho — já muito discutidas por instituições como a Organização Mundial da Saúde e diversos centros de pesquisa em gestão — indicam que jornadas extensas, insegurança e pressão constante estão associadas a burnout, queda de produtividade e aumento de rotatividade. Será que temos esse tipo de números em relação aos funcionários que trabalham na Uber?

Talvez esses não, mas temos outros. Em 2017, quando Khosrowshahi se tornou CEO, a empresa perdia de US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões por ano. Em 2025, gerou US$ 9,8 bilhões em fluxo de caixa livre. Para muitos sites de economia, é a prova de que esse estilo de liderança funciona. Em alguns deles, está escrito exatamente assim. Talvez funcione mesmo, mas isso é reduzir toda a complexidade da gestão de uma empresa a uma única fórmula: trabalhe duro e tenha sucesso.

O que acontece, a partir daí, é que se estabelece um modelo que vai ser replicado por muitos outros CEOs, em muitas outras empresas. Talvez seja um modelo que não é verdadeiro para a própria Uber. Esse sucesso pode não estar ligado apenas ao fato de que a pressão sobre os funcionários é grande, sete dias por semana. E quero acreditar que não está.


Por quê? Porque, se estiver, muitas perguntas precisam ser feitas. Para ficar em duas: esse sucesso é sustentável a longo prazo? E ele vale a pena, se o resultado for funcionários adoecidos em um ambiente tóxico?


Pessoas que pensam como eu, realmente se esforçam para mostrar que empresas que cuidam de seus funcionários são mais inovadoras, mais sustentáveis e, paradoxalmente, mais lucrativas. É onde a minha crença está e me preocupa muito que declarações como a de Khosrowshahi tenham tanta repercussão positiva, o que pode ser medido pelo tom das matérias e por comentários de leitores.

E aqui acontece uma coisa interessante: das pessoas que apoiam essas declarações, a maioria se coloca no papel de CEO, fazendo uma projeção de como fariam a gestão de uma empresa se estivessem nesse cargo, escolhendo essa forma de trabalho. No entanto, essas mesmas pessoas, trabalhando em um ambiente assim, provavelmente não aguentariam muito sem que começassem a falar mal do chefe ou sem enfrentar um processo de adoecimento.

Trabalhar duro não deveria ser sinônimo de abrir mão da sua vida pessoal e de ter outros interesses além do âmbito profissional. Na mesma entrevista, Khosrowshahi diz que, apesar de toda a sua intensidade, não deixa a família de lado, dedicando a ela duas horas inteiras para o jantar, todos os dias. Imagino que inclua os sábados e domingos, quando está enviando e-mails para seus funcionários.

Mas, depois dessas incríveis duas horas para a família, diz que sua cabeça já está de volta ao trabalho, checando seus e-mails novamente às nove e meia da noite, antes de dormir, e às cinco e meia da manhã, quando levanta. Aqui cabe outra pergunta: é esse o modelo de vida que queremos? Ele ainda acrescenta: “não vou deixar ninguém trabalhar mais do que eu”, o que para mim é mais sinal de narcisismo do que comprometimento. Afinal, com um dia de 24 horas, essa é uma competição que ninguém pode ganhar e muitos podem perder.


E assim, seguimos.

De um lado, departamentos de RH elaboram políticas de saúde mental, programas de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e treinamentos sobre liderança empática. De outro, a cultura real — frequentemente definida pelos níveis mais altos de liderança — ainda valoriza jornadas extensas, hiperdisponibilidade e uma dedicação que borra os limites entre vida profissional e vida pessoal.

Essa contradição coloca o próprio papel do RH em uma posição delicada. Ele é, ao mesmo tempo, responsável por cuidar das pessoas e por garantir que os objetivos da empresa sejam cumpridos. Quando essas duas coisas entram em choque, a autonomia real do setor costuma ser limitada.

Voltando a pensar no pessoal do RH da Uber, imagine um discurso onde se incentiva os funcionários a “desconectar” após o expediente enquanto seus líderes enviam mensagens à noite ou nos fins de semana? Fala-se em equilíbrio, mas recompensa-se quem sacrifica esse equilíbrio. Difícil. Se a liderança valoriza produtividade a qualquer custo, o discurso de bem-estar corre o risco de se tornar apenas marketing interno. Ou talvez nem isso eles tenham por lá. Boa sorte aos colaboradores da Uber.


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Quer entender como identificar — e transformar — uma cultura organizacional tóxica antes que ela comprometa pessoas e resultados? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar a respeito.

Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/

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Marco Ornellas é Psicólogo, Master of Science in Behavior pela California American University e Mestre em Biologia-Cultural pela Universidad Mayor do Chile e Escuela Matrizstica. Pós em Neurociência e o Futuro Sustentado de Pessoas e Organizações.Consultor, Coach, Designer Organizacional, Palestrante e Facilitador de Grupos e Workshops em temas como Liderança, Complexidade, Gestão, Desenvolvimento de Equipes, Inovação e Consultor em Design da Cultura Organizacional.Autor dos Livros: DesigneRHs para um Novo Mundo, Uma nova (des)ordem organizacional e Ensaios por uma Organização Consciente.CEO da Ornellas Consulting e Ornellas Academy.
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