Cuidando das Emoções

Ansiedade, estresse e depressão se tornaram comuns na rotina nos últimos anos. Por que somos capazes de falar da febre amarela, com direito a manchetes e campanhas públicas e mantermos no escuro a discussão sobre as emoções?

Ansiedade, estresse e depressão se tornaram termos comuns na rotina nos últimos anos. A depressão, inclusive, foi considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o “mal do século XXI,” além de ser a principal causa de problemas de saúde e incapacidade em todo o mundo. A OMS revelou que mais de 300 milhões de pessoas vivem com depressão, um aumento de mais de 18% entre 2005 e 2015. O Brasil, sozinho, tem um total de 11,5 milhões (5,8% da população brasileira) de casos registrados e mais de 75 mil pessoas afastadas do trabalho por depressão em 2016, sendo classificado como maior índice na América Latina.

A falta de apoio às pessoas com transtornos mentais, juntamente com o preconceito existente, impede muitas pessoas de acessarem o tratamento de que necessitam para viver vidas saudáveis e produtivas. Doença silenciosa, ela ainda é incompreendida inclusive por quem sofre do problema. Há ainda quem considere, por exemplo, que é uma doença “fictícia”, de “luxo” ou “preguiça”. O pouco compartilhamento de conhecimento e divulgação sobre assuntos de natureza emocional tem levantando a necessidade de abrirmos novas conversas. Por que somos capazes de falar sobre febre amarela, com direito a manchetes e campanhas públicas e mantermos no escuro a discussão sobre as emoções?

Está na hora de quebrarmos o tabu e falarmos abertamente sobre questões emocionais. Quando estamos com um dor no corpo, não existem barreiras para expressar o incômodo. Buscamos remédios, dicas caseiras e especialistas para orientar e tratar. Em contrapartida, quando percebemos que não estamos bem emocionalmente, fazemos de tudo para evitar o assunto e enterrar estes sentimentos. Passamos a vida sendo educados a esconder nossas emoções; quando choramos, tentamos secar as lágrimas o mais rápido possível e até chegamos a pedir desculpa pelo choro.

Este assunto ficou tão relevante que até a Disney dedicou um filme inteiro para ensinar crianças, e mais importantemente, os adultos acompanhantes a falarem sobre sentimentos. O enredo de Divertida Mente se passa dentro da cabeça de Riley, onde cinco emoções — Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojo — são responsáveis por processar as informações e armazenar as memórias. Aprendemos com o filme algumas lições essenciais para a nossa vida:

  • A Alegria é sempre acompanhada pela Tristeza. Não existe ser 100% feliz em todos momentos da vida e até a vida fica mais bonita pela vivência das emoções contrastantes;
  • As emoções são o caminho para a nossa memória. Todas as lembranças que temos, sejam elas boas ou ruins, são recheadas por sentimentos;
  • Precisamos aprender a identificar nossas emoções e ensinar as gerações mais novas a falarem uma linguagem que contemple sentimentos;
  • Sentir é essencial para viver. Não se pode reprimir e esconder sentimentos – precisamos viver a vida de forma plena, incluindo sempre sensações positivas e negativas.

É essencial criarmos estratégias para cuidarmos das nossas emoções. Pesquisadores da psicologia positiva como Martin Seligman (2002) e Sonja Lyubomirsky (2008), dentre outros, propuseram uma fórmula da felicidade. Eles concluíram que fatores como genética, circunstâncias da vida e atividades intencionais influenciam diretamente na nossa felicidade. Dentre estes fatores, temos controle sobre as atividades intencionais, sendo necessária a implementação na rotina diária de momentos e atividades que gerem sensações prazerosas. Estas podem variar entre meditação, atividade física, assistir filmes, jantar com pessoas queridas, etc.

Quando falamos de saúde emocional, precisamos considerar a importância da busca pelo equilíbrio. Em estudo sobre o Desenvolvimento Adulto (Study of Adult Development, no original em inglês) pela Harvard University com foco na identificação dos fatores que fazem as pessoas saudáveis emocionalmente, os resultados demonstram que:

  • Precisamos estar conectados. Relacionamentos são essenciais para nossa satisfação na vida;
  • Cuidam da saúde física;
  • Focam no positivo;
  • Tem um propósito de vida;
  • Realizam atividades de prazer;
  • Entendem que momentos ruins fazem parte da vida, e buscam aprender com estes momentos.

A jornada pelo cuidado dos sentimentos é difícil e repleta de obstáculos como preconceito, julgamentos e críticas. A busca por ajuda profissional e especializada é de extrema importância em casos de percepção e identificação de sintomas. O Coach pode auxiliar na prevenção e apoio, porém não é capacitado para realizar tratamentos ou intervenções. Vemos uma oportunidade para os profissionais que realmente almejam transformar a saúde e bem-estar em processos empáticos e eficientes, a quebrarem os muros dos tabus em torno da saúde mental e compartilhar a importância de cuidar dos nossos sentimentos.

“A prova de que estou recuperando a saúde mental, é que estou cada minuto mais permissiva: eu me permito mais liberdade e mais experiências. E aceito o acaso. Anseio pelo que ainda não experimentei. Maior espaço psíquico. Estou felizmente mais doida.”
(Clarice Lispector)

Sharon Feder Author
⚙️ Carevolution
Sharon Feder é formada em Psicologia pela Brown University nos EUA, com especialidade em Estudos Brasileiros e Portugueses pela Brown University e Coach de Saúde e Bem-Estar com Certificação Internacional pela Wellcoaches (EUA). Treinada no Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento (ProChange Behavior Systems). Atualmente, é Sócia Diretora na Carevolution Consultoria em Saúde e Bem-Estar, desenvolvendo programas de qualidade de vida e capacitações de profissionais com foco em mudança de comportamento, engajamento e autocuidado.
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