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Contadores de histórias: Como vocês retratam seus protagonistas?

Você sabia que, ao usar das práticas de storytelling ou contação de histórias, é fundamental evitar algumas armadilhas típicas ao descrever seus protagonistas.?

Contadores de histórias: Como vocês retratam seus protagonistas?

Contadores de histórias: Como vocês retratam seus protagonistas?

Como o leitor deste espaço sabe, meu interesse é trazer assuntos que exigem reflexão, avaliação crítica e a adaptação bem-feita para aplicação no cotidiano de coaches, mentores, consultores ou mesmo palestrantes. Desta vez, me inspiro em estudo recente (datado de 26/05/2021), da autoria de Alexandra Feldberg e Anthony Mayo, em colaboração com o Grupo de Pesquisa e Redação de Casos da Harvard Business School.

Alexandra Feldberg é professora de administração de empresas na Unidade de Comportamento Organizacional da Harvard Business School. Ela aplica métodos estatísticos para examinar as interseções entre gênero, transferência de conhecimento, tecnologia e discriminação nas empresas. Anthony Mayo é professor sênior de administração de empresas na Unidade de Comportamento Organizacional da Harvard Business School, comandando programas de liderança empresarial.

Minha escolha para explorar esse estudo escora-se numa razão primordial: atualmente, há enorme incentivo ao uso de técnicas de Storytelling para atividades de desenvolvimento humano. Mas será que os profissionais sabem aplicá-las direito?

O contador de histórias cria o roteiro para um caso, no qual há protagonistas, com o objetivo de levar a plateia para uma conclusão, a um conhecimento ou a algum impacto cognitivo. E como os autores afirmam no estudo, identifica-se que profissionais de desenvolvimento humano têm enfrentado dúvidas quanto a como tratar da diversidade de gênero, raça e etnia nos casos abordados para diferentes públicos. De acordo com pesquisas recentes, a forma de construir os casos e a contação de histórias não acompanham a diversidade da sociedade plural em que vivemos.

Essa constatação levou muitas instituições a examinarem suas práticas anteriores. Levou-as a adotarem novas formas de abordar e/ou ensinar com uso de casos baseados em histórias e seus protagonistas.

É fundamental que os casos reflitam o atual estado de diversidade, inclusão e equidade na sociedade, principalmente quando se trata de pessoas em programas de treinamento. Incluir protagonistas em casos tem exigido a habilidade de saber descrevê-los adequadamente. Isso porque essas descrições podem ter implicações importantes sobre como o caso é interpretado, analisado e assimilado pelos participantes do programa de treinamento.

Por conta disso, é essencial considerar que a forma como descrevemos os protagonistas, eventualmente, pode revelar nossos próprios preconceitos. E/ou aqueles difundidos pela sociedade, afetando assim o impacto pedagógico do caso contado ao público. A seguir, esta postagem faz um resumo de como os autores do estudo citam as abordagens mais adequadas para o contador de histórias descrever as identidades sociais dos protagonistas dos casos (principalmente, aqueles que serão utilizados em atividades de desenvolvimento humano).

Lembrando, o contador de histórias escreve o roteiro de um caso, de forma que o ouvinte caminhe para o objetivo definido. O papel do protagonista deve ser bem estudado, sempre avaliando o quanto as pessoas precisam saber sobre ele para entender o dilema apresentado. Em muitas situações, as informações sobre o protagonista não serão centrais para o caso e, portanto, deve-se fornecer descrição menos detalhada. A vantagem é que, ao minimizar os atributos do protagonista, o contador permitirá que cada ouvinte, independentemente de sua origem social ou étnica, possa se relacionar melhor com a história (e o caso).

Entretanto, haverá momentos em que detalhes da formação e identidade do protagonista serão centrais para os objetivos pedagógicos do contador da história (e do caso). Antes de iniciar o processo de construção da história, será importante que haja pleno entendimento do tipo de caso que está sendo criado, da forma de contar essa história e, principalmente, quais devem ser a formação e a identidade do protagonista.

Em termos gerais, ao analisar o papel do protagonista na história (ou no caso), é possível criar três categorias de abordagem, a saber:

– Protagonista Agnóstico

O histórico e a identidade do protagonista não são centrais para o desenvolvimento das conclusões e da aplicação no contexto dos negócios envolvidos no caso. O foco estará na empresa e no seu histórico, nos clientes e/ou na dinâmica do mercado (setor ou nicho). Geralmente, para um caso dessa natureza, o protagonista é rapidamente descrito em apenas poucas frases.

– Protagonista Relevante

O histórico e a identidade do protagonista são relevantes ao caso descrito, contudo não centrais para o objetivo esperado de aprendizagem. Isso ocorre porque as decisões organizacionais são, às vezes, analisadas pela perspectiva do protagonista e, assim, a identidade e a experiência ficam relevantes. Para este tipo de caso, alguns parágrafos são incluídos para construir o cenário que justifica a tomada de decisão (do caso).

– Protagonista de Primeiro Plano

O histórico e a identidade são centrais para os objetivos pedagógicos e também são vitais para a história (e o caso). Por conta disso, faz-se necessária a descrição mais detalhada do protagonista. De forma que seja possível entender todas as nuances da decisão de negócios que a história (e o caso) pretende abordar. Do contrário, haverá perda de consistência, coerência e impacto quanto aos objetivos iniciais do contador dessa história (e do encaminhamento do caso).

Enfim, é fundamental que o contador de histórias evite algumas armadilhas típicas ao descrever seus protagonistas. Nunca é demais lembrar, a maioria dos estudos de casos de negócios, trabalhados com princípios de contação de histórias, apresenta protagonistas que são, normalmente, tomadores de decisão centrais, os quais lutam com dilemas empresariais, sociais ou institucionais. Avaliar esses desafios e oportunidades, pelos olhos e pela experiência de um protagonista, permitirá aprimorar habilidades analíticas e as capacidades empáticas daquelas pessoas que estão em treinamento.

A seguir, há uma abordagem simples, desenvolvida pelos autores do estudo, visando apoiar o contador de histórias na decisão sobre como melhor descrever o protagonista de um caso.

Entre as questões que deverá considerar, estas perguntas (a seguir) são muito relevantes e podem ajudar na criação do roteiro, da contextualização do caso e na caracterização mais adequada para os rumos da decisão que o protagonista terá na história (e no caso):

  • Quanto da identidade do protagonista é apropriado discutir? Quais aspectos da identidade são centrais para o caso? Se há aspectos centrais para o caso, até que ponto eles devem ser descritos com mais detalhes quanto à formação ou identidade do protagonista?
  • Se a origem racial, social ou étnica do protagonista não terá relevância na descrição do caso, até que ponto valerá a pena incluir alguma informação na história a contar? Para o entendimento adequado do caso, sob o ponto de vista pedagógico, cabe deixar em aberto a origem social, raça ou a etnia do protagonista?
  • Até que ponto vale a pena incluir dicas sobre a origem social, racial e étnica do protagonista? Em caso afirmativo, como essas dicas podem ser incluídas de maneira que não criem confusão e nem sejam politicamente incorretas (mais atrapalhando do que colaborando)?
  • Como o contador pode trabalhar na descrição do protagonista, de forma a evitar a aplicação de estereótipos ou a projeção de preconceitos internos (ou inconscientes)?
  • Como o contador pode trabalhar bem suas próprias incertezas, dúvidas e os problemas em potencial, evitando que isso o leve à construção do “protagonista à sua imagem” (mais atrapalhando a história do que colaborando com a compreensão do caso)?
  • Quais são as vantagens e as desvantagens de incluir uma foto ou um vídeo do protagonista em vez de sua descrição? Como isso poderá impactar na compreensão do caso?

Feldberg & Mayo finalizam seu longo estudo com comentário pertinente.

Eles acreditam que o foco renovado do contador de histórias deve estar na forma como descrevemos protagonistas. Principalmente para os casos apresentados a participantes de programas de desenvolvimento humano. Os casos bem escritos e, mais ainda, bem apresentados têm, de fato, o potencial de mudar não apenas a maneira como os participantes entendem os protagonistas. Mas também como cada participante constrói empatia com questões críticas relacionadas a decisões empresariais.

Para você que é coach, mentor, conselheiro, palestrante ou consultor, quando usar das práticas de contação de histórias lembre-se: o(s) protagonista(s) que você decide usar em um roteiro de história precisa(m) estar alinhados com o caso a ser abordado. Mas, acima de tudo, em absoluta sintonia com os valores sociais e morais vigentes. Do contrário, os participantes do programa de desenvolvimento humano que você comanda não se sentirão representados, nem na história e muito menos no caso. E isso fará com que não aconteça assim o impacto pedagógico definido de início, jogando fora o objetivo esperado da aprendizagem!

Gostou do artigo? Quer saber mais sobre o uso de técnicas de Storytelling para atividades de desenvolvimento humano? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Mario Divo
https://www.mariodivo.com.br

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Mario Divo Author
Mario Divo possui meio século de atividade profissional ininterrupta, hoje estando dedicado à gestão de negócios e de pessoas. É PhD pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com foco em Gestão de Marcas Globais e MSc, também pela FGV, com foco em Dimensões do Sucesso em Coaching (contexto brasileiro). Formação como Master Coach, Mentor e Adviser pelo Instituto Holos. Formação em Coach Executivo e de Negócios pela SBCoaching. Consultor credenciado no diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool). Credenciado pela Spectrum Assessments para avaliações de perfil em inteligência emocional e axiologia de competências. CEO da plataforma MENTALFUT® e da MDM Assessoria em Negócios, desde 2001. Mentor e colaborador da plataforma Cloud Coaching. Ex-Clube Correspondente da FIA – Federação Internacional do Automóvel, no Brasil. Foi titular do Planejamento de Comunicação Social da Presidência da República (1997-1998) e, anteriormente, comandou a Comunicação Institucional da Petrobras e a Área de Novos Negócios da Petrobras Internacional. Ex-Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, ex-Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e ex-Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior, voltada ao desenvolvimento de jovens lideranças em todo o mundo.
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