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Confiança e Competência: A Armadilha de Confundir os Dois

Confiança e competência não são a mesma coisa. Entenda como essa confusão distorce decisões, enfraquece relações e compromete a liderança. Aprenda a separar performance, relação e percepção para avaliar pessoas com mais lucidez.

Confiança e Competência: A Armadilha de Confundir os Dois

Confiança e Competência: A Armadilha de Confundir os Dois

O que a confiança distorcida faz com a nossa percepção de competência.

Brené Brown e Adam Grant perguntam no quarto episódio do seu podcast: “O que acontece quando a nossa confiança supera a nossa competência?” A pergunta é poderosa e me colocou na urgência de compartilhar o que observo na prática: confiança e competência não se medem na mesma escala.

A questão não é quando uma supera a outra. A questão é o que acontece com a nossa percepção de competência quando a confiança está distorcida.

“Confio nele(a), é muito competente.”

Essa frase é dita com frequência nas organizações. E parece certa, mas ela já carrega dentro de si a armadilha.

Confiar porque é competente não é confiar. É aprovar uma performance. E essa confusão tem custo alto: na liderança, na equipe e na relação que cada líder tem consigo mesmo. Acompanho líderes há anos e essa é uma das confusões mais recorrentes que encontro nos diagnósticos de confiança.


Duas perguntas diferentes

Precisamos nomear a diferença, porque ela organiza o que vem depois.

Competência é técnica, mensurável, contextual. Para Guy Le Boterf, referência no tema, a competência não é um estado fixo. É um saber agir em situação: ela se revela no que a pessoa faz diante de um contexto real, pode ser observada, avaliada e desenvolvida. Responde à pergunta: o que essa pessoa sabe e consegue fazer agora?

Confiança vive na relação, comigo e com o outro. São os comportamentos que me aproximam: a coerência entre o que sinto, digo e faço; a capacidade de me expressar e de deixar espaço para o outro; a disponibilidade de estar presente sem precisar controlar. Responde a uma pergunta diferente: como me relaciono, incluindo no que ainda não sei?

São perguntas diferentes. E quando as confundimos, o custo então aparece na relação:

  • Quando a confiança está num lugar lúcido, conectada comigo e com o outro, então ela funciona como uma lente que permite perceber a competência com clareza. É a partir dessa lucidez relacional que consigo identificar o que sei, o que não sei e o que o outro traz de real. Consigo entender onde estou e onde está o outro, sem inflacionar nem diminuir.
  • Quando a confiança está distorcida, inflada, defensiva ou colapsada em autocobrança, essa lente falha. A percepção de onde me situo se distorce e a do outro também. É exatamente nesse ponto que a confusão entre os dois conceitos se instala com mais força: avalio mal a competência porque a confiança já não está lúcida o suficiente para ver com clareza.

Perco a percepção de onde me situo. E perco a do outro também.


Como essa confusão aparece na liderança

O primeiro caso é interno. O(A) líder diz que é autoconfiante, mas o que governa é uma régua de competência alta e exigente, sinônimo de autocobrança alta. Ela produz dois comportamentos opostos com a mesma raiz: avançar e ocupar todo o espaço, sem escuta, sem abertura para o outro; ou recuar e não se posicionar, porque nunca atinge o próprio critério de saber o suficiente. Em ambos, a expectativa do outro, ou da organização desaparece, pois o(a) líder está sempre respondendo à própria régua.

A relação some e, com ela, a possibilidade de um diagnóstico real.

O segundo caso é com a equipe. Líderes frequentemente confundem nível de delegação com nível de confiança: autonomia baixa vira incompetência, incompetência vira desconfiança. O ciclo se fecha e, assim, nunca muda. A equipe aprende a entregar o que é cobrado, mas não a contribuir com o que é possível. E o(a) líder permanece convicto de que o problema é de competência, quando o que falta é a relação.

O que escapa nessa lógica: a relação precede o diagnóstico de competência. É na relação lúcida que consigo identificar o que o outro de fato sabe, onde está o limite e o que precisa ser desenvolvido. Sem esse contato, minha avaliação é sempre parcial.


O deslocamento

Não se trata de calibrar confiança e competência entre si, mas de perceber que elas respondem a perguntas diferentes, e parar de usar uma como medida da outra. Quando essa separação acontece, algo muda: consigo construir confiança enquanto desenvolvo competência, e não depois. Consigo confiar no meu posicionamento mesmo sem ter todas as respostas. E consigo criar espaço real para a relação acontecer, com a equipe, com os pares, comigo mesmo.

Confiança não é o prêmio da competência. É o solo em que a competência pode ser vista e crescer.

Na próxima vez que perceber que está avaliando alguém, ou a si mesmo, pause e pergunte: estou medindo competência ou construindo relação?

A resposta pode revelar onde está a verdadeira armadilha.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como a confusão entre confiança e competência pode distorcer decisões, enfraquecer relações bem como comprometer a liderança nas organizações? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Sara Veloso
Coach Executiva ICF | 25+ anos em liderança e RH global
Especialista em confiança, Advisor STARTRUST, Análise comportamental e estabilização emocional
Criadora e Facilitadora do Programa “Liderar pelo Prisma da Confiança”
contato@saraveloso.coach
https://www.linkedin.com/in/saraveloso-ptfr/

Confira também: Autoconfiança: O Superpoder Que Talvez Você Ainda Não Acessou


Referências:

  • Brown, Brené; Grant, Adam. The Curiosity Shop, Episode 4: Overconfidence and the Art of Knowing Yourself. Vox Media, 2026.
  • Kruger, J.; Dunning, D. Unskilled and unaware of it: How difficulties in recognizing one’s own incompetence lead to inflated self-assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1121–1134, 1999.
  • Le Boterf, Guy. Construire les compétences individuelles et collectives. Paris: Éditions d’Organisation, 2000.

Palavras-chave: confiança e competência, confiança, competência, liderança, delegação, confiança distorcida, percepção de competência, confusão entre confiança e competência, diagnóstico de competência, construir confiança
Sara Veloso Author
⚙️ Sara Veloso
Sara Veloso é Economista, Coach Executiva certificada pela ICF e fundadora de uma consultoria especializada em apoiar líderes e empresas em momentos decisivos de transformação e crescimento. Com mais de 25 anos de experiência em Recursos Humanos e liderança, atuou em organizações nacionais e multinacionais na França, Brasil e América Latina, construindo uma visão estratégica e global de desenvolvimento humano e organizacional. Sua atuação como coach, consultora e facilitadora é focada em confiança organizacional, segurança psicológica e Terapia Comportamental ACT. Sara impulsiona líderes e equipes a expandirem sua capacidade de atuação, se posicionarem em desafios complexos e fortalecerem culturas colaborativas que sustentam alto desempenho e resultados duradouros.
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