fbpx

Como Tratar os Importantes Problemas Morais de Nossos Tempos?

Os problemas morais do nosso tempo exigem mais do que boas intenções. Entenda como o altruísmo eficaz e o longotermismo ajudam a tomar decisões com base em evidências, enfrentar riscos existenciais e proteger o futuro das próximas gerações.

Altruísmo Eficaz: Como Enfrentar os Problemas Morais?

Como Tratar os Importantes Problemas Morais de Nossos Tempos?

Como é do conhecimento de todos que me acompanham nesta jornada pela fronteira do conhecimento, este espaço apresenta reflexões que conectem as transformações de um mundo dinâmico, complexo e hiperconectado às grandes questões que moldam o desenvolvimento humano e profissional.

Nesta postagem, quero convidar os leitores a elevarem o olhar para além do cotidiano corporativo, dos planos de metas trimestrais e das urgências imediatas. Vamos mergulhar em uma das perspectivas mais provocativas e transformadoras do pensamento contemporâneo, que é a filosofia do altruísmo eficaz e do longotermismo, formulada pelo filósofo Will MacAskill, um dos criadores do movimento de altruísmo efetivo.

Partindo de sua histórica apresentação no TED2018, intitulada “Quais são os problemas morais mais importantes da nossa época” (com mais de 2,6 milhões de reproduções), e cruzando esses conceitos com seus desdobramentos mais recentes, como a obra seminal What We Owe the Future (2022) e pesquisas avançadas sobre governança tecnológica (MacAskill; Moorhouse, 2025), vamos examinar como as decisões que tomamos hoje ecoarão por milhares de anos.


1. A Curva da Humanidade: Abundância sem precedentes e a lacuna ética

Se observarmos a história econômica da civilização humana por meio de um gráfico de longo prazo, como ilustra MacAskill em suas análises, perceberemos um fenômeno impressionante. Durante a maior parte dos últimos 200.000 anos, a humanidade viveu em um patamar de subsistência quase estático. A esmagadora maioria das pessoas veio sobrevivendo com o equivalente a um dólar por dia.

No entanto, algo extraordinário rompeu essa linha quase plana, que foram as revoluções científica e industrial. O gráfico que antes parecia horizontal transforma-se em uma curva ascendente vertical. Em termos de poder tecnológico, econômico e de capacidade de alterar o mundo, vivemos em um momento absolutamente sem precedentes na história da espécie humana.

Contudo, como pontua MacAskill, a nossa compreensão ética ainda não acompanhou esse salto colossal. Transformamos o nosso meio, dominamos a matéria, criamos inteligências articuladas e biologia sintética, mas continuamos a gerir nossos dilemas morais com ferramentas cognitivas herdadas de tribos ancestrais. O que precisamos desesperadamente é de uma revolução ética, ou seja, o esforço consciente para responder à pergunta fundamental sobre como utilizar essa enorme abundância de recursos para maximizar o bem-estar global.


2. O framework do altruísmo eficaz: Como fazer o máximo de bem possível?

Nos últimos anos, o movimento do altruísmo eficaz emergiu como um farol de racionalidade e da empatia baseada em evidências. O movimento utiliza o raciocínio rigoroso e dados empíricos para responder a uma questão pragmática e profunda: Como podemos fazer o máximo de bem com os recursos limitados de que dispomos?

Para estruturar essa tomada de decisão em um mundo repleto de causas nobres, MacAskill propõe um framework simples, porém implacável, baseado em três critérios fundamentais:

  • Escala (Tamanho): Quanto maior o problema, tanto melhor a busca de solução. Temos muito mais a ganhar resolvendo crises que afetam milhões ou bilhões de vidas do que questões de escopo reduzido.
  • Solubilidade: Quanto mais fácil de resolver, isso é excelente. Problemas em que dispomos de intervenções diretas e de alto retorno exigem menos esforço para gerar impacto transformador.
  • Negligenciação: Quanto mais negligenciado o problema, continua sendo bom. Devido à lei dos rendimentos decrescentes, áreas que já recebem bilhões de dólares e atenção excessiva oferecem margens menores de progresso adicional comparadas a setores ignorados pela filantropia tradicional.

A partir desse crivo, a comunidade do altruísmo eficaz convergiu historicamente em três grandes prioridades morais: a saúde global (altamente solúvel), a criação intensiva de animais em fazendas industriais (altamente negligenciada) e os riscos existenciais (de colossal magnitude). E, nos tempos atuais, é sobre esta última categoria que precisamos nos debruçar com máxima urgência.


3. O longotermismo e a vasta tapeçaria do futuro (What We Owe the Future)

Em seu livro aclamado globalmente, What We Owe the Future (publicado pela One World Publications, em 2022), MacAskill aprofunda o conceito de longotermismo (longtermism). A premissa central é simples e avassaladora, qual seja, as pessoas do futuro importam tanto quanto as pessoas que vivem hoje. Em outras palavras, a humanidade tem um potencial temporal vastíssimo pela frente, e as nossas ações atuais podem moldar profundamente essa trajetória.

Considere a metáfora temporal proposta por MacAskill, de que a raça humana existe há cerca de 200.000 anos. Se fôssemos uma espécie mamífera típica, já teríamos vivido boa parte de nossa existência e teremos milhões de anos pela frente. Contudo, não somos uma espécie comum e vale considerar que a Terra permanecerá habitável por mais milhões de anos. Sejamos prudentes e imaginemos que a civilização humana consiga atravessar esse corredor temporal e alcançar as estrelas.

Se a história fosse um livro, estaríamos ainda na primeira página. Isso significa que existem trilhões de seres humanos potenciais que poderão nascer nos próximos séculos e milênios. Então, será que as gerações futuras viverão em um estado de florescimento inimaginável, erradicando doenças, expandindo a consciência, descobrindo novas formas de arte e ciência? Ou será que cairão em um colapso permanente, inteiramente vinculado às escolhas críticas que tomarmos hoje.

Indo além, existe um viés estrutural perigoso: as gerações futuras não têm voz nos mercados atuais, não votam nas urnas de hoje e não possuem grupos de pressão político-partidários. Elas são sistematicamente ignoradas e negligenciadas.


4. Riscos existenciais: navegando na era da biotecnologia e da inteligência artificial

O progresso tecnológico trouxe maravilhas, mas também inaugurou a era dos riscos existenciais. Entre eles estão os potenciais eventos de guerras nucleares, pandemias globais provocadas por engenharia genética, geoengenharia descontrolada ou mesmo o desalinhamento de sistemas autônomos avançados. Em trabalhos recentes, como o estudo Preparing for the Intelligence Explosion (MacAskill; Moorhouse, 2025), o autor reforça que a velocidade do desenvolvimento tecnológico exige rigorosa governança preventiva.

Como argumenta MacAskill no TED2018, quando o risco envolve a extinção da raça humana ou a destruição permanente do potencial civilizacional, mesmo probabilidades estatísticas aparentemente pequenas importam de maneira infinita. Afinal, esses eventos acabariam com a capacidade de se estruturar uma organização humana avançada. É o equivalente a embarcar em um avião cuja chance de queda seja de “apenas uma em mil”. Ainda assim, a consequência seria tão catastrófica que o risco se tornaria inaceitável.


5. O Papel das Lideranças e dos Gestores

Chegamos, portanto, ao ponto de convergência com o nosso espaço na plataforma Cloud Coaching. O que o altruísmo eficaz e o longotermismo têm a ver com a prática de líderes, gestores, consultores, mentores e coaches? Tudo.

Muitas pessoas que buscam processos de desenvolvimento humano estão imersas em crises de sentido, ansiedades existenciais diante da volatilidade do mundo moderno ou dilemas éticos em suas posições de liderança corporativa. Como agentes de transformação humana, precisamos transcender o microfoco no desempenho imediato e ajudar essas pessoas a desenvolverem:

  • Visão sistêmica de longo prazo: Capacidade de olhar para além do trimestre fiscal, avaliando o impacto moral e ambiental das decisões estratégicas (conectando-se também com agendas vitais como ESG e governança sustentável);
  • Humildade epistêmica: Reconhecer que nossas certezas atuais são limitadas e que a busca pela verdade exige abertura ao diálogo e escuta ativa (ecoando os ensinamentos de pensadores e filósofos sobre ética, principalmente);
  • Senso de responsabilidade intergeracional: Compreender que liderar com excelência hoje significa proteger o espaço de prosperidade das gerações que ainda nem nasceram.

O amanhã começa na conversa de hoje

Will MacAskill nos deixa uma mensagem de profunda esperança pragmática: o futuro não está escrito de forma fatalista. Assim como um jardim que pode ser cultivado com cuidado e dedicação, a trajetória da humanidade depende do direcionamento que damos aos nossos recursos, à nossa carreira e ao nosso engajamento político e social.

Para quem é consultor, conselheiro, coach, mentor ou líder corporativo, fica o convite para repensar o seu papel. Como você pode alinhar seu propósito profissional não apenas ao sucesso financeiro ou à eficiência operativa, mas à construção de um legado duradouro e ético para o nosso planeta?

Eu sou Mario Divo e você me encontra pelas mídias sociais ou em www.mariodivo.com.br.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como alinhar o altruísmo eficaz e a visão de longo prazo ao seu desenvolvimento profissional? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Até nossa próxima postagem!

Mario Divo
https://www.mariodivo.com.br

Confira também: Marcas, Eleições e o Tabuleiro da Reputação Corporativa


Referências Bibliográficas

MACASKILL, William. Quais são os problemas morais mais importantes da nossa época. TED2018, Disponível em: TED.com.

MACASKILL, William. What We Owe the Future: A Million-Year View. London: One World Publications, 2022.
MACASKILL, William; MOORHOUSE, Fin. Preparing for the Intelligence Explosion. arXiv preprint, 2025.

Palavras-chave: altruísmo eficaz, o que é altruísmo eficaz, longotermismo, o que é longotermismo, problemas morais, riscos existenciais, gerações futuras, problemas morais mais importantes da nossa época, como fazer o máximo de bem possível, visão sistêmica de longo prazo, impacto moral e ambiental das decisões estratégicas,
altruísmo eficaz e longotermismo
Mario Divo Author
Mario Divo possui mais de meio século de atividade profissional ininterrupta. Tem grande experiência em ambientes acadêmicos, empresariais e até mesmo na área pública, seja no Brasil ou no exterior, estando agora dedicado à gestão avançada de negócios e de pessoas. Tem Doutorado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) com foco em Gestão de Marcas Globais e tem Mestrado, também pela FGV, com foco nas Dimensões do Sucesso em Coaching (contexto brasileiro). Formação como Master Coach, Mentor e Adviser pelo Instituto Holos. Formação em Coach Executivo e de Negócios pela SBCoaching. Consultor credenciado no diagnóstico meet® (Modular Entreprise Evaluation Tool). Credenciado pela Spectrum Assessments para avaliações de perfil em inteligência emocional e axiologia de competências. Sócio-Diretor e CEO da MDM Assessoria em Negócios, desde 2001. Mentor e colaborador da plataforma Cloud Coaching, desde seu início. Ex-Presidente da Associação Brasileira de Marketing & Negócios, ex-Diretor da Associação Brasileira de Anunciantes e ex-Conselheiro da Câmara Brasileira do Livro. Primeiro brasileiro a ingressar no Global Hall of Fame da Aiesec International, entidade presente em 2400 instituições de ensino superior, voltada ao desenvolvimento de jovens lideranças em todo o mundo.
follow me
Neste artigo


Participe da Conversa