A Importância da Recaída: Uma Oportunidade para a Autocompaixão

Quando caímos, devemos levantar. É o que o “óbvio” nos diz, porém, muitas vezes quando falamos da nossa saúde e bem-estar, um relapso em nosso comportamento resulta na desistência da busca por uma vida mais saudável e a aceitação de que a “recaída” será para sempre.

Quando caímos, devemos levantar. É o que o “óbvio” nos diz – quando temos uma queda de bicicleta, precisamos subir novamente e continuar pedalando, quando terminamos um relacionamento acreditamos que “a fila anda” e quando somos demitidos de um emprego, sabemos que está na hora de procurar outro. Porém, muitas vezes quando falamos da nossa saúde e bem-estar, um relapso em nosso comportamento resulta na desistência da busca por uma vida mais saudável e a aceitação de que a “recaída” será para sempre.

O que está faltando na equação para o sucesso da mudança de hábitos de saúde é a compreensão de que a recaída não só faz parte do processo de mudança, mas é essencial.  De acordo com Prochaska, DiClemente e Norcross o processo de mudança comportamental não é linear e sim espiral, pois uma vez atingida alguma mudança, não significa que a mudança será mantida perpetuamente já que a vida é repleta de movimentos e imprevistos; logo a recaída é um fator constante.

Conforme estudos demonstram, menos de 5% dos dependentes químicos que conseguem algum período de sobriedade conseguirão mantê-la sem nenhum lapso e o mesmo é verdadeiro para outros comportamentos como a manutenção de dietas, prática de atividade física, etc. (Prochaska, JO; DiClemente, CC. Toward a comprehensive model of change. In: Miller, WR; Heather, N. (eds.) Treating addictive behaviors: processes of change. New York: Plenum Press; 1986. p. 3–27. ISBN 0-306-42248-4.)  Nesta perspectiva, a recaída, costuma ser regra e não exceção. Inclusive para Miller e Rollnick (2001) a recaída é normal e prevista quando se busca uma mudança de comportamento por um longo prazo.

Transcendendo a teoria, qualquer pessoa que tenha tentado mudar algum comportamento, tem o conhecimento e a experiência de que em algum momento tenha passado pelo “fracasso” de atingir os objetivos estabelecidos. Quem nunca deixou de ir à academia durante meses mesmo pagando a mensalidade? Ou “pisou na jaca” na dieta após semanas de alimentação regrada? Mesmo assim, parece que nunca estamos preparados para lidar com este momento de relapso. Por quê? Porque não aceitamos nossos fracassos e baseamos nosso “valor” no sucesso das nossas metas.

Temos a tendência de cuidar, apoiar e compreender os outros, porém quando o assunto somos nós mesmos, muitas vezes, nos punimos, emocionalmente, cognitivamente e até fisicamente, por falhas percebidas, como estarmos acima do peso ou não fazermos exercícios. De acordo com Kristin Neff, professora de psicologia da Universidade do Texas em Austin e pesquisadora do assunto, autocompaixão significa ser compreensivo e gentil consigo mesmo, sem ficar se culpando ou criticando demais. Estudos demonstram que cultivar essa atitude faz bem para a saúde e auxilia no sucesso do processo de mudança comportamental: pessoas com bom desempenho em testes de autocompaixão apresentam menos índices de depressão e ansiedade, tendem a ser mais felizes e mais otimistas, influenciam hábitos alimentares, além de ajudar na perda de peso (“A dieta da autocompaixão”, Jean Fain).

A autocompaixão é importante, pois evita críticas destrutivas a si mesmas, fazer generalizações negativas, e possibilita a saída de um momento de recaída. Passamos a ver nossas falhas como parte normal do processo de mudança. Como os próprios estudos de Neff demostram, as pessoas que tem autocompaixão e não atingem seus objetivos, percebem que não será o fim do mundo, porque elas não determinam seu próprio valor com base no sucesso. E seguem em frente para conquistar seus sonhos.

Vale compreender que o nosso verdadeiro valor está em nossa capacidade de lidar com momentos de dificuldade. Quando comemos um pacote inteiro de bolacha em plena segunda-feira após um dia estressante no trabalho, pulamos a academia para ficarmos deitados no sofá quando sabemos que precisamos nos exercitar, pois a perda de peso auxiliaria com a prevenção de doenças, fumamos aquele cigarro quando estamos tentando parar – respire e lembre-se de se tratar com carinho, amor e respeito. Como profissionais, é crucial que acolhemos nossos clientes e ensinemos a se amarem e se compreenderem. Em níveis moderados, a autocrítica pode ser um motivador para a mudança, mas quando manchada com percepções negativas, pode ser prejudicial. Quando há muita crítica, se desenvolve o medo de errar, assim levando a estagnação total. O importante é encontrar um equilíbrio entre a autocrítica e a autocompaixão, onde a busca pelo “melhor eu” é constante, mas sem a necessidade de se colocar para baixo em qualquer tropeço.

As nossas recaídas nos trazem a oportunidade de aprendermos que somos mais fortes do que imaginamos e que temos uma nova chance para (re)começar. Devemos ver a recaída como um momento de reflexão, de crescimento, de renovação. Um momento para (re)criarmos e reconstruirmos dentro de nós nossas forças, motivações e recursos para ultrapassarmos nossos limites e conquistar nossos sonhos. Mas sempre, com muito carinho e delicadeza com nós mesmos.

“Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar.” – Clarice Lispector

Sharon Feder Author
⚙️ Carevolution
Sharon Feder é formada em Psicologia pela Brown University nos EUA, com especialidade em Estudos Brasileiros e Portugueses pela Brown University e Coach de Saúde e Bem-Estar com Certificação Internacional pela Wellcoaches (EUA). Treinada no Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento (ProChange Behavior Systems). Atualmente, é Sócia Diretora na Carevolution Consultoria em Saúde e Bem-Estar, desenvolvendo programas de qualidade de vida e capacitações de profissionais com foco em mudança de comportamento, engajamento e autocuidado.
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