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Empatia e Liderança: Por Que Compreender o Outro Começa Pelo Autoconhecimento

Empatia e liderança começam com uma pergunta: como compreender o outro sem projetar nossas próprias certezas? Explore o papel do autoconhecimento, da escuta genuína e das conversas na construção de equipes mais humanas e conectadas.

Empatia e Liderança: O Erro de Supor o Que o Outro Sente

Empatia e Liderança: Por Que Compreender o Outro Começa Pelo Autoconhecimento

Existe uma frase que atravessa treinamentos de liderança, palestras motivacionais e manuais de cultura: “empatia é se colocar no lugar do outro”. Ela é bonita, fácil de repetir e quase ninguém a questiona.

O problema é que ela descreve algo impossível. E quando organizamos nossas relações em torno de algo impossível, não nos aproximamos do outro, mas fantasiamos sobre ele.

Humberto Maturana, com quem tive o privilégio de estudar no Chile, nos ajuda a entender o por quê. E, curiosamente, ele quase não usava a palavra empatia. Falava de outra coisa, mais exigente e mais bonita: a aceitação do outro como legítimo outro na convivência. Este artigo é uma tentativa de ler a empatia a partir dessa lente.


Somos fechados, e isso não é um defeito

Para Maturana, os seres vivos são sistemas determinados pela própria estrutura. Nada do que vem de fora nos instrui. O mundo, e as outras pessoas, apenas nos perturbam, e cada um responde a essa perturbação a partir do que é: seu corpo, sua história, seu emocionar.

Isso tem uma consequência radical. Duas pessoas diante do mesmo fato não vivem o mesmo fato. Cada uma vive o que a sua estrutura permite viver. Não existe um ponto neutro de onde eu possa observar o mundo do outro “como ele é”. Por isso, Maturana insistia em colocar a objetividade entre parênteses: tudo o que é dito é dito por um observador.

Se é assim, a ideia de entrar no lugar do outro desmorona. Eu não tenho acesso à experiência dele. Tenho acesso à minha experiência de estar diante dele.

Maturana não está sozinho nessa intuição. Edith Stein, aluna de Husserl, já dizia em 1917, na tese Sobre o problema da empatia, que posso perceber a dor do outro, mas nunca vivê-la como ele a vive. Carl Rogers, décadas depois, descreveria a escuta empática como compreender o mundo do outro “como se” fosse o próprio, sem nunca perder a condição do “como se”.

Se eu pudesse ocupar o lugar do outro, não haveria outro. Haveria apenas uma extensão de mim.

É justamente porque o mundo do outro me escapa que o encontro se torna possível. A distância não é o obstáculo da relação, mas a sua condição.


A ciência chega aonde a biologia já estava

Durante décadas, quase ninguém testou se imaginar a perspectiva do outro realmente nos faz compreendê-lo melhor. Os psicólogos Tal Eyal, Mary Steffel e Nicholas Epley resolveram testar, em 25 experimentos publicados em 2018.

O resultado confirma, em laboratório, o que Maturana dizia a partir da biologia. A maioria das pessoas acreditava que se colocar no lugar do outro aumentaria a precisão. Não aumentou. Em geral, a precisão caiu, e às vezes a confiança no próprio julgamento subiu. Ficamos mais seguros e menos certos ao mesmo tempo, que é a receita perfeita para a liderança que “já sabe” o que a equipe sente.

O que funcionou foi muito mais simples: perguntar. Quando as pessoas obtinham a perspectiva diretamente, pela conversa, a compreensão melhorava. Os autores chamam isso de perspective getting, receber a perspectiva em vez de tomá-la. A conclusão deles é quase maturaniana: compreender o outro exige informação nova que venha dele, e não o uso mais esforçado do que eu já penso sobre ele.

Há um segundo equívoco que a ciência desfaz: confundir empatia com absorver a dor alheia. A neurocientista Tania Singer, do Instituto Max Planck, mostrou que treinar ressonância empática aumenta o afeto negativo e ativa as redes cerebrais ligadas à dor. Já o treino em compaixão ativa redes diferentes, associadas ao cuidado e ao afeto positivo, e reverte esse desgaste. O monge Matthieu Ricard, voluntário dos experimentos, conta que uma hora de empatia intensa, sem amor e compaixão, bastou para levá-lo ao esgotamento.

Na linguagem de Maturana, poderíamos dizer: quando me perco no emocionar do outro, deixo de ser alguém disponível para ele. A fronteira entre os nossos mundos não precisa ser derrubada. Precisa ser habitada.


O mergulho que vem antes: reconhecer o próprio emocionar

Se não posso entrar no mundo do outro, por onde começa a empatia? Pelo único mundo a que tenho algum acesso: o meu.

Maturana nos lembrava que todo fazer humano se funda numa emoção. A emoção define o domínio de ações em que estamos. Diante de alguém, posso estar no medo, na desconfiança, na ambição, na pressa ou então no amor, e cada uma dessas emoções abre e fecha possibilidades de conversa. Antes de tentar compreender o outro, preciso perceber de que emoção estou partindo.

Edgar Morin, em Os sete saberes necessários à educação do futuro, faz a mesma convocação por outro caminho: não há compreensão do outro sem autoexame. Quem não reconhece as próprias cegueiras, projeta.

Por isso, empatia é um projeto, e não um gesto. Ela tem três movimentos que se repetem, a saber:

  1. Reconhecer o próprio emocionar. Que emoção estou vivendo agora? O que esta situação desperta na minha história? Que certeza eu trago antes mesmo de ouvir?
  2. Colocar a minha certeza entre parênteses. Não abrir mão da minha leitura, mas deixar de tratá-la como a realidade do outro.
  3. Receber o mundo do outro. Perguntar o que não posso adivinhar. Escutar sem preparar a resposta. Deixar que a informação venha da pessoa, e não da minha imaginação sobre ela.

Empatia, nesse sentido, se parece mais com uma prática de pesquisa do que com um sentimento. Ela pede curiosidade, método e humildade.


O legítimo outro

Aqui chegamos ao ponto mais profundo. Para Maturana, o amor não é um sentimento romântico. É a emoção que constitui o espaço de convivência em que o outro surge como legítimo outro. Não como alguém que preciso corrigir, convencer ou decifrar, mas como alguém cuja existência é válida mesmo quando difere da minha.

Talvez o que chamamos de empatia seja, no fundo, uma consequência desse amor. Só me interesso genuinamente pelo mundo do outro quando aceito que ele tem um mundo próprio, que não é uma versão equivocada do meu.

Byung-Chul Han descreve uma sociedade que vai expulsando o outro e se fechando no igual. Quando só toleramos o semelhante, a empatia vira um exercício de reconhecimento de nós mesmos. A aceitação do legítimo outro é o antídoto: ela nos obriga a conviver com o que não compreendemos por inteiro.

Empatia não é chegar ao lugar do outro, mas aceitar que ele tem um lugar que não é o meu.


Organizações são redes de conversações

Esta é a virada que me parece mais importante para quem trabalha com organizações.

Costumamos tratar empatia como virtude individual: alguns líderes têm, outros não, e os que não têm vão para um treinamento. Mas Maturana nos ensinou a olhar para as culturas como redes de conversações. O que uma organização é se revela nas conversas que ela torna possíveis e nas que ela impede.

A pesquisa vai na mesma direção. Sara Konrath, que estuda empatia há décadas, mostra que ela não é um traço fixo: cresce ou encolhe conforme as experiências que vivemos. Se cresce ou encolhe conforme o contexto, então o contexto pode ser desenhado.

E o impacto é concreto. De acordo com um estudo da Catalyst com quase 900 profissionais, 61% das pessoas com líderes seniores altamente empáticos dizem ser inovadoras com frequência, contra 13% das que têm líderes pouco empáticos. No engajamento, a diferença é de 76% contra 32%. E o que as pessoas descreveram como empatia não era nada heroico: um líder que pergunta o que elas precisam para fazer bem o seu trabalho. Receber a perspectiva, de novo.

Agora olhe para muitas organizações com o olhar de um Designer Organizacional:

  • Agendas sem espaço para conversa que não seja de status;
  • Métricas que enxergam a entrega, mas nunca a experiência de quem entrega;
  • Estruturas em que a liderança está distante demais para perguntar e próxima demais da pressão para escutar;
  • Rituais de feedback desenhados para avaliar, e não para compreender.

Num desenho assim, pedir empatia às pessoas é pedir que nadem contra a correnteza. Elas até tentam, por um tempo, e depois se esgotam, exatamente como mostram os estudos de Singer.

A pergunta, então, muda. Em vez de “como tornar nossos líderes mais empáticos?”, talvez a pergunta mais potente seja:

Que rede de conversações estamos desenhando, e ela torna o encontro com o legítimo outro possível ou improvável?

É essa a lente com que trabalhamos na Ornellas Consulting e na 157next: olhar a organização como sistema vivo, em que estrutura, processos, cultura e relações formam um todo. Empatia não se instala por decreto nem por workshop. Ela emerge, ou não, das conversas que o desenho da organização permite.


Para terminar, um convite

Na próxima vez que alguém disser “precisamos nos colocar no lugar do outro”, talvez valha propor outra coisa: primeiramente, reconhecer o nosso próprio lugar e o nosso emocionar. Depois, perguntar ao outro sobre o lugar dele. E, por fim, olhar para o desenho da organização e ver se ele deixa espaço para essa conversa acontecer.

Deixo aqui três perguntas para a nossa comunidade:

  1. De que emoção você costuma partir, sem perceber, nas conversas difíceis?
  2. Quando foi a última vez que você perguntou, em vez de supor, o que alguém da sua equipe estava vivendo?
  3. Que elemento do desenho da sua organização, uma reunião, uma métrica, um ritual, hoje torna mais difícil o encontro com o legítimo outro?

Empatia não é chegar ao lugar do outro, mas caminhar até a fronteira entre os nossos mundos e ficar ali, curioso, disponível e inteiro.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como empatia e liderança podem começar pelo autoconhecimento e transformar as relações no trabalho? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Marco Ornellas
Designer Organizacional
Ornellas Consulting

Confira também: Pra Onde Vai Nossa Atenção? Como o Excesso de Informação Está Disputando Nosso Foco


Referências

Maturana, H. Emoções e linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: UFMG.

Maturana, H.; Varela, F. A árvore do conhecimento. São Paulo: Palas Athena.

Stein, E. Sobre o problema da empatia (Zum Problem der Einfühlung), 1917.

Rogers, C. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes.

Morin, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez/UNESCO.

Han, B.-C. A expulsão do outro. Petrópolis: Vozes.

Eyal, T.; Steffel, M.; Epley, N. Perspective mistaking: Accurately understanding the mind of another requires getting perspective, not taking perspective. Journal of Personality and Social Psychology, 2018.

Klimecki, O.; Leiberg, S.; Ricard, M.; Singer, T. Differential pattern of functional brain plasticity after compassion and empathy training. Social Cognitive and Affective Neuroscience, 2014.

Ricard, M. A revolução do altruísmo. São Paulo: Palas Athena.

Van Bommel, T. The Power of Empathy in Times of Crisis and Beyond. Catalyst, 2021.

Konrath, S. et al. Estudos sobre variações da empatia ao longo do tempo (2011 e atualizações posteriores).

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Marco Ornellas é Psicólogo, Master of Science in Behavior pela California American University e Mestre em Biologia-Cultural pela Universidad Mayor do Chile e Escuela Matrizstica. Pós em Neurociência e o Futuro Sustentado de Pessoas e Organizações.Consultor, Coach, Designer Organizacional, Palestrante e Facilitador de Grupos e Workshops em temas como Liderança, Complexidade, Gestão, Desenvolvimento de Equipes, Inovação e Consultor em Design da Cultura Organizacional.Autor dos Livros: DesigneRHs para um Novo Mundo, Uma nova (des)ordem organizacional e Ensaios por uma Organização Consciente.CEO da Ornellas Consulting e Ornellas Academy.
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