
A Coragem de Pertencer Sem Se Abandonar
Querido leitor,
Já fiz muita coisa para pertencer, acreditando que aquilo era bom para mim. Ajustei meu jeito, considerei expectativas, procurei formas de continuar sendo aceita. Durante um tempo, essas escolhas pareceram naturais. Eu dizia a mim mesma que estava apenas cuidando das relações, sendo flexível, encontrando maneiras de conviver. Até que comecei a perceber como era difícil reconhecer minhas próprias preferências na vida que eu mesma estava construindo.
Gosto de chamar esse movimento de “despertencer-se”, desabitar-se. Por fora, seguimos presentes nos encontros, nos compromissos e nas relações. Por dentro, vamos deixando para depois o que sentimos e desejamos. Sempre há alguém a compreender, uma expectativa a considerar, uma explicação a oferecer. Quando chega a nossa vez, a possibilidade de desagradar pesa tanto que acabamos cedendo mais uma vez — às vezes sem nem perceber que estamos fazendo isso.
Foi por reconhecer esse movimento em mim que passei a olhar com mais carinho para as próprias escolhas. Quando você concorda com algo, consegue reconhecer sua vontade naquela resposta? Ao mudar de ideia, sente liberdade para dizer ou já se preocupa com a explicação que terá de dar? São situações pequenas, cotidianas, mas nelas podemos perceber o espaço que estamos oferecendo a nós mesmos.
Esse olhar pede honestidade e também delicadeza com a nossa história. Eu precisei compreender que a mulher que buscava aceitação estava tentando preservar vínculos importantes. Ela não fazia escolhas para se abandonar; fazia o que conseguia com a compreensão que tinha e com os recursos emocionais disponíveis. Reconhecer o que essas escolhas me custaram também me ajudou a respeitar quem eu era.
Mas chega um momento em que esse jeito de viver cansa.
O desconforto se repete, uma relação fica difícil de sustentar, e continuar como está passa a exigir mais do que conseguimos oferecer. Comigo, algumas revisões vieram pela dor. Aprendi com elas, e hoje procuro me escutar antes que vire dor outra vez. Não porque eu tenha aprendido a evitar todo sofrimento, mas porque já consigo reconhecer alguns sinais que antes ignorava.
Penso que essa é uma pergunta que merece nos acompanhar: precisamos esperar doer tanto para levar a sério o que sentimos?
Parte desse aprendizado passa pelo medo do julgamento. Até que ponto suas decisões estão sendo orientadas por ele? Quanto espaço você consegue dar a uma escolha que faz sentido para sua vida, mesmo quando alguém importante discorda? Depois de decidir, ainda precisa convencer o outro para conseguir ficar em paz?
Essas perguntas me lembram de uma conta que gosto de compartilhar nas minhas palestras. Tentando me ajustar para caber ou sendo fiel a mim, sempre haverá quem fale. Se o julgamento pode vir dos dois jeitos, quando sou fiel a mim, eu desempato essa conta. Pelo menos eu também estou de acordo com a vida que estou escolhendo. E essa concordância interna, embora não elimine o medo, muda a maneira como atravesso o que vem depois.
Essa compreensão me trouxe liberdade, mas continua me pedindo maturidade. Eu me importo com as pessoas que amo e com o efeito das minhas atitudes. Quero ouvir o que elas têm a dizer, especialmente quando enxergam algo que ainda não consegui perceber. Ser fiel a mim também envolve reconhecer erros, reparar atitudes e assumir responsabilidade pela maneira como me relaciono. Não se trata de fazer apenas o que quero, sem considerar ninguém; trata-se de não desaparecer de mim enquanto considero o outro.
Eu acredito que há uma dose de rebeldia na coragem de ser quem se é.
A vida me ensinou a cultivar a minha, e hoje tenho carinho por essa parte de mim. Foi ela que me ajudou a questionar escolhas que eu tratava como obrigatórias e a admitir preferências que deixava de lado por receio de desapontar. No começo, essa rebeldia me pareceu quase uma ameaça aos vínculos. Depois, entendi que ela também podia ser uma forma de honestidade.
Pode ser que, na sua vida, essa rebeldia encontre expressão em uma conversa adiada, em um limite que precisa ser comunicado ou na decisão de seguir um caminho que ninguém esperava. Sustentar uma escolha assim exige aceitar que nem sempre virão a compreensão e o aplauso que gostaríamos de receber. E a falta deles, por si só, não determina o valor do que escolhemos. Às vezes, o primeiro reconhecimento de que estamos no caminho certo precisa nascer dentro de nós.
Esse aprendizado também me fez olhar com mais cuidado para as aparências. Uma roupa que está na moda, uma conquista que ganha os holofotes ou um modo de viver podem expressar prazer e identidade. Podem carregar, ainda, o esforço de conseguir aceitação. Quem observa de fora nem sempre consegue distinguir. Conhecendo a força da vontade de pertencer, prefiro ter cuidado antes de concluir o que move a escolha de alguém. Nem sempre aquilo que parece segurança é liberdade; às vezes, é apenas uma maneira bem construída de tentar ser aceito.
É na intimidade com a própria vida que essa compreensão ganha profundidade.
Pense nas suas relações: você consegue ouvir e ser ouvido? Pode discordar e continuar sendo respeitado? Encontra espaço para compartilhar uma insegurança ou sente que precisa sustentar a imagem de quem está sempre bem?
Essas perguntas podem trazer respostas incômodas, mas não precisam ser respondidas com pressa. Ao se fazer esse exercício, procure acolher o que aparecer sem decidir imediatamente o destino de cada vínculo. Algumas relações precisam de conversas mais sinceras, outras pedem novos limites. Você também pode descobrir que nunca mostrou certas partes de si e, por isso, as pessoas ao seu redor ainda não tiveram a oportunidade de conhecê-las.
Para mim, esse cuidado passou também pela maneira de compartilhar meu tempo. Hoje, me socializo menos e escolho com mais atenção como quero estar nos encontros. Gosto das conversas, das descobertas e do afeto, mas preciso de espaço comigo. Durante muito tempo, achei que essa necessidade significava afastamento ou falta de interesse. Aos poucos, compreendi que era apenas uma forma de me recompor. Me habitar com respeito foi uma das formas mais valiosas que encontrei de honrar minha história.
E tenho aprendido que essa liberdade precisa circular nos dois sentidos. Se desejo ser acolhida em minha singularidade, também preciso rever o que espero das pessoas que amo. Elas terão preferências, ritmos e escolhas diferentes dos meus. Algumas dessas diferenças me desafiam, e é aí que posso perceber o quanto estou disposta a oferecer a liberdade que desejo receber. Não é simples acolher o outro quando ele escolhe algo que eu não escolheria, mas talvez seja justamente aí que o amor deixe de ser controle e se aproxime do respeito.
Ainda me importo em pertencer.
Quero compartilhar a vida, sentir-me querida e ter com quem contar. Imagino que isso também seja importante para você. Não vejo mais o pertencimento como o problema; o que me preocupa é o preço que pagamos por ele. Por isso, vale prestar atenção quando a permanência em uma relação parece depender de esconder continuamente o que pensamos, diminuir o que desejamos ou adiar o que tem valor para nós.
Querido leitor, entre tantas opiniões sobre quem você deveria ser, a sua também precisa participar. Ao olhar para a vida que construiu, pergunte a si: quanto de quem sou encontra espaço aqui? O que tenho deixado de dizer, escolher ou viver para preservar a imagem que esperam de mim?
Talvez você não consiga responder tudo agora. Pode ser que algumas respostas apareçam primeiro como um incômodo, uma vontade esquecida ou uma frase que você ainda não teve coragem de dizer. Já é um começo. Escutar-se não exige que você mude toda a sua vida de uma vez; mas que interrompa o ciclo de ir se deixando para depois sem perceber.
Desejo que esta reflexão lhe faça companhia quando uma escolha pedir coragem. Que você possa considerar quem ama, ouvir com respeito e, ainda assim, reconhecer a própria vontade. Sua presença tem valor demais para que, na tentativa de pertencer, você precise se ausentar de si.
Se esta reflexão fez sentido para você, então convido você a continuar essa jornada comigo pelo Instagram: @shirleybrandaooficial.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como pertencer sem se abandonar, sem buscar aceitação dos outros e construir relações mais autênticas, respeitando suas escolhas sem deixar de considerar quem você ama? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Com carinho,
Shirley Brandão
37 anos trabalhando para o desenvolvimento humano
https://shirleybrandao.com.br/
@shirleybrandaooficial
Confira também: O Rei Leão, o Futuro de Uma Nação e a Bandeira Hasteada
Participe da Conversa