fbpx

Anticorpos Emocionais e Sua Importância para a Inteligência Comportamental

Anticorpos emocionais podem fazer algo que a blindagem não consegue. Descubra como a Inteligência Comportamental nos prepara para enfrentar frustrações e conflitos sem perder o essencial: a liberdade de escolher quando permanecer ou sair.

Anticorpos Emocionais e Sua Importância para a Inteligência Comportamental

Anticorpos Emocionais e Sua Importância para a Inteligência Comportamental

Olá!

Há algumas semanas, eu estava lendo John M. Barry e seu extraordinário relato sobre a grande pandemia de influenza de 1918. Mais do que a história de um vírus, o livro me levou a pensar sobre uma ideia simples: organismos sobrevivem porque desenvolvem formas de resposta ao ambiente. Não significa que se tornem invulneráveis ou deixem de adoecer.

Significa que, diante de determinados agentes, não chegam completamente indefesos. E foi difícil não transportar essa imagem para outro campo que me interessa profundamente: o comportamento humano.

Afinal, será que também precisamos desenvolver uma espécie de anticorpo emocional para lidar com os ambientes aos quais somos expostos?

Há algum tempo tenho a impressão de que, como sociedade, fizemos um movimento bem-intencionado, mas talvez excessivo. Passamos a tentar retirar do caminho das novas gerações quase tudo aquilo que pudesse produzir desconforto: frustração, perda, espera, discordância, confronto, decepção, cobrança, consequência.

Pais fazem isso. Escolas fazem isso. Organizações fazem isso. Não estou defendendo o sofrimento como método educativo. O ponto é outro. Se toda situação potencialmente desconfortável for retirada do caminho antes que precise ser enfrentada, de onde virá o repertório necessário quando a vida, inevitavelmente, deixar de colaborar? Sofrimento, nesse sentido, não é uma virtude.

É uma possível consequência da forma como percebemos e enfrentamos determinada experiência. Uma conversa difícil pode gerar sofrimento ou alívio. Uma demissão pode desorganizar ou abrir uma mudança necessária. Um conflito pode destruir uma relação ou permitir que duas pessoas finalmente digam o que vinha sendo evitado. Antes da experiência, não sabemos qual será o resultado.

Mas evitar sistematicamente tudo aquilo que carrega algum risco emocional nos impede também de descobrir como respondemos a essas situações. É por isso que gosto da metáfora dos anticorpos emocionais. Imagine que você precise viajar para uma região na qual exista possibilidade conhecida de exposição a determinados agentes infecciosos.

Você não sabe se encontrará o agente, se será contaminado ou qual seria a intensidade de uma eventual resposta. Ainda assim, se houver uma forma segura de preparação, provavelmente não escolherá viajar completamente despreparado. A lógica não é viver com medo do ambiente. É reconhecer que o risco existe e preparar o organismo antes de precisar da defesa.

Talvez a Inteligência Comportamental cumpra função semelhante.

Não porque nos torne imunes à tristeza, à rejeição, ao conflito ou à pressão. Isso seria uma promessa falsa. Desenvolver Inteligência Comportamental significa ampliar o repertório disponível para que, diante de um ambiente adverso, possamos perceber melhor o que está acontecendo, compreender limites, regular impulsos, escolher uma resposta e avaliar suas consequências. O anticorpo, portanto, não é a ausência da emoção. É a existência prévia de possibilidades comportamentais para lidar com ela.

Essa distinção me parece particularmente importante porque, durante muito tempo, usamos expressões como “blindagem emocional”. A imagem parece boa à primeira vista. Blindar é proteger. O problema é que a blindagem está do lado de fora. É uma armadura que vestimos para impedir que alguma coisa nos atravesse. Ela sugere rigidez, isolamento e uma proteção que depende de estarmos permanentemente cobertos. O anticorpo trabalha de outra maneira. Ele está incorporado. Não precisa impedir todo contato com o ambiente. Ao contrário: permite que exista contato e, diante dele, o organismo tenha condições de responder. Blindagem é uma parede. Anticorpo é repertório.

Essa diferença é enorme para quem pensa comportamento. Eu não quero uma vida na qual nada me atinja; quero que aquilo que me atinge não determine automaticamente o que farei em seguida. Posso sair chateado de uma reunião, frustrado com uma negativa ou triste com uma perda. Nada disso é fracasso emocional. O problema começa quando a experiência retira de mim a capacidade de escolha. Anticorpos emocionais não existem para evitar que eu sinta, mas para impedir que eu fique completamente indefeso diante do que sinto.

Mas, se os ambientes podem nos expor a riscos, por que entrar neles?

A resposta, para mim, passa por um princípio que venho utilizando para pensar comportamento: todo ambiente é definido pelo interesse. Nossa presença em determinado contexto não acontece no vazio. Existe alguma coisa que nos leva até ali e alguma coisa que, pelo menos durante certo tempo, justifica nossa permanência.

E gosto de organizar esse interesse em três grandes vetores: propósito, ganho e conforto cognitivo. Propósito existe quando aquele ambiente está conectado a algo que considero significativo. Posso permanecer em uma organização desafiadora porque acredito no projeto que estou construindo. Posso enfrentar uma conversa difícil porque aquela relação importa. Ganho, por sua vez, não precisa ser apenas financeiro. Pode ser aprendizado, crescimento, reconhecimento, acesso, experiência, segurança, vínculo ou oportunidade.

E conforto cognitivo não significa viver sem desconforto. Significa reduzir um ruído relevante, resolver uma pendência ou produzir uma sensação de coerência que diminui o custo mental de continuar carregando determinada questão. Essa tríade ajuda a responder uma pergunta que às vezes evitamos: por que ainda estou aqui?

Se determinado ambiente não conversa mais com meu propósito, não produz qualquer ganho relevante e tampouco reduz algum ruído cognitivo, talvez o problema não seja descobrir como suportá-lo melhor. Talvez seja compreender o que ainda me mantém nele. O ambiente é soberano. Ele é o que é e não tem obrigação de se transformar apenas porque eu gostaria que fosse diferente. Mas minha presença nele não precisa ser soberana. Ela pode e deve ser uma escolha.

É nesse ponto que o protagonismo entra na discussão. Desenvolver anticorpos emocionais não significa aprender a tolerar indefinidamente ambientes nocivos. Se o meu interesse justifica a presença, posso decidir entrar preparado, permanecer enquanto fizer sentido, obter dali aquilo que busco e sair quando o custo superar o interesse.

Inteligência Comportamental não serve apenas para suportar melhor os ambientes.

Serve para decidir, com maior consciência, por que entrar, como permanecer e quando sair. Uma das leis que gosto de repetir diz: se estiver no inferno, ande. A frase é deliberadamente provocativa. Ela não diz que você nunca entrará em um ambiente ruim. Também não diz que, ao perceber dificuldade, precisa fugir imediatamente.

Diz apenas que permanecer paralisado não é uma boa estratégia. Se houver um interesse legítimo que justifique atravessar aquele ambiente, atravesse. Se for possível transformá-lo, aja. E se for preciso colocar limites, coloque. Se não houver mais propósito, ganho ou conforto cognitivo que justifique o custo, continue andando até a saída. A Inteligência Comportamental não nos ensina a morar no inferno. Ensina a não perder o movimento quando passamos por ele.

E como esses anticorpos são desenvolvidos? Vejo pelo menos duas formas complementares. A primeira é aquilo que poderíamos chamar, ainda dentro da metáfora, de vacinação: aprendizagem deliberada antes da crise. Conhecer nossos padrões, entender gatilhos, desenvolver autocontrole, aprender a lidar com discordância, praticar conversas difíceis, refletir sobre limites, ampliar a capacidade de leitura do ambiente.

Não precisamos esperar o pior momento da vida para descobrir como pensamos sob pressão. Podemos treinar antes. A segunda forma é a exposição administrável. Não precisamos procurar sofrimento, mas também não deveríamos construir uma existência esterilizada contra qualquer dificuldade. Pequenas frustrações ensinam a esperar. Discordâncias respeitosas ensinam a argumentar sem destruir vínculos.

Perder alguma coisa ensina que continuamos existindo depois da perda. Receber um “não” ensina que rejeição não é extinção. Assumir consequências ensina responsabilidade. Cometer erros e repará-los ensina que falhar não precisa significar fugir. Quando vividas em condições minimamente seguras e elaboradas com consciência, essas experiências ampliam repertório.

Talvez tenhamos confundido proteção com eliminação da experiência.

Proteger alguém não deveria significar retirar do mundo todo atrito que possa incomodá-lo. Deveria significar ajudá-lo a desenvolver condições para enfrentar o atrito sem ser destruído por ele. Há uma diferença imensa entre abandonar uma pessoa ao sofrimento e permitir que ela atravesse dificuldades compatíveis com sua capacidade, oferecendo suporte sem assumir o lugar dela. Por isso, gosto cada vez menos da ideia de blindagem emocional.

Não quero precisar vestir uma armadura toda vez que sair de casa. Prefiro desenvolver respostas internas suficientemente maduras para que eu possa circular por ambientes diferentes, reconhecer riscos, experimentar tensões e, ainda assim, preservar capacidade de escolha. A blindagem evita o contato. O anticorpo pressupõe que o contato pode acontecer.

Voltando a John M. Barry, talvez seja essa a imagem que mais ficou comigo depois da leitura. Grandes epidemias nos lembram de nossa vulnerabilidade, mas também da capacidade dos organismos de construir respostas. Anticorpos não prometem que nunca mais haverá contato, desconforto ou doença. Representam a possibilidade de que uma nova exposição encontre um organismo menos indefeso do que antes.

A analogia comportamental precisa permanecer apenas como analogia, evidentemente, mas ela nos oferece uma pergunta poderosa:

Que repertório existe hoje dentro de você para lidar com a próxima frustração, a próxima perda, o próximo conflito, a próxima rejeição ou o próximo ambiente tóxico que, por alguma razão ligada ao seu propósito, ao seu ganho ou ao seu conforto cognitivo, você decidir enfrentar?

Talvez a resposta não esteja em construir muros cada vez mais altos ao redor de nós. Talvez esteja em desenvolver condições internas que nos permitam entrar, permanecer quando houver interesse, sair quando for necessário e aprender com aquilo a que fomos expostos.

Não se trata de nunca adoecer emocionalmente, de nunca sair chateado de uma reunião ou de nunca sentir o peso de uma experiência ruim. Isso faz parte do jogo. Trata-se de não transformar todo desconforto em catástrofe e toda adversidade em ameaça à própria existência. Anticorpos emocionais não eliminam a vida como ela é. Eles ampliam nossa capacidade de atravessá-la.

Pense nisso!


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como desenvolver anticorpos emocionais e ampliar seu repertório para enfrentar adversidades sem perder a capacidade de escolha? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Até a próxima!

Edson Carli
https://inteligenciacomportamental.com

Confira também: O Silêncio Também É Parte da Conversa: Como o Turn-Taking Transforma a Comunicação

Palavras-chave: anticorpos emocionais, inteligência comportamental, blindagem emocional, conforto cognitivo, propósito, como desenvolver anticorpos emocionais, desenvolver inteligência comportamental, aprendizagem antes da crise, ampliar seu repertório diante das adversidades, propósito, ganho e conforto cognitivo
Edson Carli Author
Edson Carli é especialista em comportamento humano, com extensa formação em diferentes áreas que abrangem ciências econômicas, marketing, finanças internacionais, antropologia e teologia. Com mais de quarenta anos de vida profissional, atuou como diretor executivo em grandes empresas do Brasil e do mundo, como IBM, KPMG e Grupo Cemex. Desde 2003 está à frente do Grupo Domo Participações onde comanda diferentes negócios nas áreas de consultoria, mídia e educação. Edson ainda atua como conselheiro na gestão de capital humano para diferentes fundos de investimentos em suas investidas. Autor de sete livros, sendo dois deles best sellers internacionais: “Autogestão de Carreira – Você no comando da sua vida”, “Coaching de Carreira – Criando o melhor profissional que se pode ser”, “CARMA – Career And Relationship Management”, “Nut’s Camp – Profissão, caminhos e outras escolhas”, “Inteligência comportamental – A nova fronteira da inteligência emocional”, “Gestão de mudanças aplicada a projetos” (principal literatura sobre o tema nos MBAs do Brasil) e “Shé-Su – Para não esquecer”. Atual CEO da Academia Brasileira de Inteligência comportamental e membro do conselho de administração do Grupo DOMOPAR. No mundo acadêmico coordenou programas de pós-graduação na Universidade Mackenzie, desenvolveu metodologias de behaviorismo junto ao MIT e atuou como professor convidado nas pós-graduações da PUC-RS, FGV, Descomplica e SENAC. Atual patrono do programa de desenvolvimento de carreiras da UNG.
follow me
Neste artigo


Participe da Conversa