Cada Um Escuta com a História que Tem (parte III)
Dando continuidade à parte I e parte II deste tema, vamos então refletir sobre nossas forças de caráter, os riscos da positividade tóxica e o peso das interpretações sobre nossa identidade, especialmente na liderança feminina.
Forças de caráter: não somos apenas nossas feridas
Um ponto importante da Psicologia Positiva é o estudo das forças de caráter.
Forças como coragem, esperança, integridade, curiosidade, gentileza, perseverança, inteligência social e senso de justiça podem contribuir para a realização pessoal e coletiva. A APA define força de caráter como um traço positivo, valorizado por si mesmo, que contribui para o desenvolvimento da própria pessoa e de outras.
Essa perspectiva nos lembra que defesas, traumas ou faltas não constituem toda a nossa identidade. Somos também nossas forças:
- A mulher que aprendeu a silenciar talvez tenha desenvolvido uma grande capacidade de observação.
- A profissional que teme errar pode possuir responsabilidade e compromisso extraordinários.
- A líder que tenta controlar tudo pode ter uma forte orientação para resultados.
- A pessoa que evita conflitos pode carregar uma capacidade genuína de conciliação.
O desafio não está em eliminar essas características, mas em utilizá-las de maneira mais consciente e equilibrada. Uma força usada sem discernimento pode tornar-se rígida:
- A perseverança pode transformar-se em insistência em contextos que já exigem encerramento.
- A gentileza pode tornar-se dificuldade de estabelecer limites.
- A prudência pode tornar-se paralisia.
- A coragem pode tornar-se impulsividade.
Por isso, a liderança autêntica exige reconhecer tanto a potência quanto a sombra de nossas forças.
Nesse ponto, a Psicologia Positiva e a Psicanálise podem conversar de maneira produtiva. A primeira nos ajuda a nomear e desenvolver recursos. A segunda nos ajuda a reconhecer os conflitos, desejos e defesas que podem distorcer o uso desses recursos.
O risco da positividade usada como defesa
Quando falamos em Psicologia Positiva, é necessário distinguir florescimento de positividade tóxica.
Há ambientes que utilizam discursos sobre felicidade, propósito e resiliência para impedir que problemas sejam nomeados:
- Pede-se otimismo quando as pessoas precisam de escuta.
- Fala-se em gratidão para evitar discutir injustiças.
- Exalta-se resiliência enquanto estruturas continuam produzindo adoecimento.
- Incentiva-se a busca de sentido sem enfrentar relações abusivas, insegurança psicológica ou sobrecarga.
Nesse contexto, o positivo pode funcionar como mecanismo de defesa institucional. A organização nega o conflito porque reconhecer sua existência exigiria transformação. A pessoa afirma que “está tudo bem” porque entrar em contato com a dor parece ameaçador. A liderança tenta motivar a equipe quando deveria assumir responsabilidade por decisões mal conduzidas.
Uma Psicologia Positiva séria não propõe apagar o sofrimento. O florescimento precisa incluir a capacidade de reconhecer a realidade, elaborar perdas, sustentar frustrações e transformar condições que prejudicam a vida.
Até mesmo a ideia de encontrar benefícios depois de experiências adversas precisa ser tratada com cuidado. A identificação de aprendizados ou crescimento pode contribuir para adaptação em alguns casos, mas não acontece da mesma maneira para todas as pessoas e não deve ser imposta como obrigação.
Nem toda dor precisa imediatamente transformar-se em lição. Algumas experiências precisam primeiro ser reconhecidas como dor.
Mulheres, liderança e o peso da interpretação
Para as mulheres que ocupam posições de liderança, a frase “cada um lê com os olhos que tem” ganha uma dimensão social e cultural.
As pessoas não interpretam apenas com base em suas histórias individuais. Além disso, elas interpretam a partir das normas, expectativas e a partir de estereótipos de uma sociedade.
Ainda existem modelos muito específicos sobre como uma mulher deve se comportar:
- Ela precisa demonstrar competência, mas não pode parecer excessivamente segura.
- Precisa ser firme, mas não dura.
- Precisa ser acolhedora, mas não emocional.
- Precisa ser ambiciosa, mas não ameaçadora.
- Precisa ocupar espaço, mas sem causar desconforto.
Essas expectativas contraditórias fazem com que muitas mulheres sejam avaliadas não apenas pelo conteúdo de suas decisões, mas pela maneira como correspondem — ou deixam de corresponder — a papéis historicamente esperados.
Uma mesma fala pode ser interpretada de formas diferentes conforme quem a pronuncia:
- A objetividade de um homem pode ser considerada assertividade. A objetividade de uma mulher pode ser lida como agressividade.
- A confiança masculina pode ser associada à liderança. A confiança feminina pode ser confundida com arrogância.
- A exigência de um gestor pode significar foco em resultados. A exigência de uma gestora pode ser descrita como falta de sensibilidade.
Essas leituras não surgem no vazio. São atravessadas por referências culturais, relações de poder e modelos inconscientes de autoridade.
A Psicanálise nos ajuda a compreender que essas imagens podem ser profundamente internalizadas, inclusive pelas próprias mulheres. Muitas aprendem a vigiar permanentemente a própria presença:
- Revisam cada palavra antes de falar.
- Pedem desculpas antes de discordar.
- Transformam afirmações em perguntas.
- Acrescentam justificativas para não parecer autoritárias.
- Elogiam antes de fazer qualquer crítica.
- Assumem a responsabilidade pela temperatura emocional de toda a equipe.
- Tentam garantir que ninguém se sinta desconfortável com suas decisões.
Como resultado, essa tentativa de controlar a percepção alheia gera enorme desgaste psíquico. A mulher deixa de usar sua energia para liderar e passa então a utilizá-la para administrar todas as possíveis interpretações sobre sua liderança.
A interpretação do outro importa, mas não define integralmente quem você é
Uma das tarefas mais complexas da maturidade emocional é aprender a escutar o olhar do outro sem entregar a ele a definição completa de nossa identidade.
Nós nos constituímos nas relações e precisamos de reconhecimento, pertencimento e de nos sentirmos vistos, mas quando toda avaliação externa se transforma em sentença, perdemos o contato com nosso próprio centro.
- Se alguém considera meu limite egoísmo, concluo que fui egoísta.
- Se alguém reage negativamente ao meu posicionamento, concluo que me posicionei de maneira inadequada.
- Se alguém não reconhece meu trabalho, começo a duvidar de minha competência.
- Se uma pessoa me considera arrogante, diminuo minha voz para tentar parecer mais aceitável.
Nesse sentido, a Psicologia Positiva pode contribuir para fortalecer uma identidade baseada também no reconhecimento das próprias forças, dos valores, do sentido e das realizações.
A Psicanálise acrescenta uma pergunta fundamental:
- Por que a avaliação dessa pessoa tem tamanho poder sobre mim?
- O que estou buscando nesse olhar?
- Que falta desejo que ele preencha?
- Que medo aparece quando não sou aprovada?
- Que imagem de mim tento preservar?
Maturidade não significa ignorar feedbacks. Significa não confundir feedback com identidade.
Uma crítica pode conter informações importantes, mostrar um ponto cego, revelar um impacto que não percebemos e nos convidar a rever comportamentos. Por outro lado, também pode revelar a expectativa, o desconforto ou a projeção de quem critica.
Discernimento é conseguir perguntar:
- Existe um comportamento concreto por trás dessa avaliação?
- Esse retorno aparece em diferentes contextos ou apenas quando estabeleço limites?
- A pessoa está reagindo à minha forma ou ao fato de que minha decisão a frustrou?
- Há algo que preciso transformar?
- Há algo que preciso sustentar?
- Essa crítica me ajuda a crescer ou tenta me devolver a um lugar de submissão?
Nem toda crítica é injusta, mas nem toda crítica é verdade.
Intenção, impacto e responsabilidade
Uma comunicação madura precisa sustentar duas dimensões ao mesmo tempo: intenção e impacto.
Quem fala costuma defender sua intenção: “Eu não quis ofender.”
Quem escuta costuma defender o impacto: “Mas eu me senti ofendida.”
As duas experiências podem ser verdadeiras. Uma pessoa pode ter uma intenção legítima e produzir um impacto negativo. Outra pode sentir-se atingida sem que tenha existido intenção de ferir.
No entanto, o problema surge quando cada lado acredita que apenas sua experiência merece ser considerada.
A intenção não apaga o impacto. O impacto não revela automaticamente a intenção.
A maturidade relacional permite dizer: “Não era isso que eu desejava comunicar, mas quero compreender como minha fala chegou até você.”
Além disso, permite perguntar: “Minha reação corresponde somente ao que foi dito ou essa situação tocou experiências anteriores?”
Assumir responsabilidade não significa aceitar toda interpretação do outro como verdade absoluta. Significa estar disponível para examinar o efeito produzido.
Da mesma forma, expressar um sentimento não significa possuir acesso completo à intenção de quem falou.
Somos responsáveis por nossa comunicação, mas não controlamos todos os sentidos que serão construídos a partir dela.
Liderança positiva não é liderança permissiva
No ambiente organizacional, a Psicologia Positiva é, algumas vezes, confundida com uma liderança excessivamente agradável, que evita cobranças e conflitos. Essa compreensão é equivocada.
Uma liderança que favorece o florescimento precisa ser capaz de reconhecer capacidades, construir significado, fortalecer vínculos e estimular desenvolvimento. Ao mesmo tempo, também precisa estabelecer limites, tomar decisões difíceis, responsabilizar comportamentos e oferecer feedbacks honestos.
Bem-estar não é ausência de exigência. Um ambiente pode ser desafiador e, ainda assim, saudável. A diferença está na maneira como o desafio é conduzido.
Há diferença:
- entre cobrar e humilhar;
- entre discordar e desqualificar;
- entre responsabilizar e perseguir;
- entre estabelecer autoridade e produzir medo;
- entre exigir excelência e construir perfeccionismo adoecedor.
Assim, uma liderança positiva não protege as pessoas de todo desconforto. Cria condições para que o desconforto produza desenvolvimento, e não destruição.
O lugar da esperança
A esperança ocupa um espaço importante na Psicologia Positiva. Podemos compreendê-la como expectativa de experiências favoráveis, força de caráter, emoção, recurso motivacional e mecanismo de enfrentamento diante de dificuldades.
Mas esperança não é passividade. Não é esperar que as relações melhorem sem ação. É acreditar que existem caminhos possíveis e mobilizar recursos para construí-los.
- Em uma conversa difícil, esperança é acreditar que o conflito pode produzir compreensão.
- Em uma carreira, é reconhecer que a experiência atual não determina todas as possibilidades futuras.
- Na liderança feminina, é compreender que os modelos herdados não são os únicos modelos possíveis.
- Na vida psíquica, é perceber que conhecer nossos padrões aumenta nossa liberdade diante deles.
Não escolhemos tudo aquilo que nos constituiu, mas podemos ampliar a consciência sobre como essa história continua atuando.
Não controlamos todas as interpretações dos outros, mas podemos fortalecer nossa capacidade de comunicar com clareza, escutar com discernimento e sustentar nossa identidade.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como reconhecer suas forças de caráter, equilibrar potência e limites e lidar com críticas sem deixar que elas definam sua identidade? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até a próxima!
Luciana Soares Passadori
https://www.passadori.com.br
Confira também:
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