
O Que É, de Verdade, a Comunicação?
Vinte anos depois, um ex-aluno, que na época era gestor de uma área da ABB (Asea Brown Boveri), em Osasco, procurou-me para proferir uma palestra com o tema “Comunicação é o que chega” e justificou o porquê me contratou para essa palestra, dizendo:
“Reinaldo, quando fiz um curso com você, tive um grande impacto e por observar a mudança significativa que gerou em toda a nossa equipe. O que foi mais relevante para mim e mudou minha opinião e me fez mudar meus hábitos foi exatamente o que você sempre afirmava: “Comunicação não é o que você fala, é o que chega no interlocutor”.”
Fiz a palestra no Hotel Cheiro de Mato em Mairiporã e foi um sucesso. Fiquei feliz pela excelente remuneração e ele ainda mais por ter levado ao seu time essa reflexão que amplia a visão e o impacto dessa competência, em especial com profissionais que usam a comunicação como seu principal instrumento de trabalho.
Curiosamente, falamos sobre comunicação o tempo todo, treinamos comunicação, medimos comunicação, culpamos a comunicação quando algo dá errado, ensinamos e aprendemos por meio da comunicação, nos relacionamos com outras pessoas através da comunicação, mostramos nosso potencial pela nossa comunicação, além de ser um dos principais problemas das organizações. Ela é tão presente em nossa vida como o ar que respiramos.
Neste artigo, proponho uma reflexão mais profunda sobre esse tema, partindo de uma pergunta simples:
O que é, de fato, a comunicação?
Já ouvi várias respostas, que se multiplicam como reflexos num espelho, e cada uma delas revela uma faceta, e todas juntas formam o retrato de algo que é muito maior do que palavras. Algumas respostas:
- Comunicação é dizer o que penso e o que sinto;
- É a troca de informações entre pessoas;
- É a transmissão de uma mensagem de um emissor por meio de um canal para um receptor;
- É a base dos relacionamentos;
- Comunicação é um falar e o outro ouvir;
- Comunicação é a capacidade de uma pessoa expor suas ideias;
- É expressar as ideias por gestos e por palavras;
- Comunicação é tudo.
Todas estão certas, embora nenhuma é completa e é exatamente essa a beleza do tema: a comunicação é grande demais para caber numa única frase, mas se fosse propor uma simples e prática definição em uma única frase eu optaria por: “Comunicação é o que chega”. Para mim é uma das verdades mais duras, e mais libertadoras, do processo comunicacional, pois inverte a lógica natural de quem fala: a comunicação não começa em você, ela só existe no outro.
Quero compartilhar uma bonita história, que mostra exatamente o momento em que a comunicação acontece:
Helen Keller nasceu saudável, mas uma doença, aos dezenove meses, a deixou cega e surda, presa num mundo sem imagens e sem sons, ela se comunicava por gestos primitivos e vivia frustrada, porque ninguém conseguia entrar no seu mundo, e ela não conseguia sair dele.
Até que chegou Anne Sullivan, uma jovem professora que teve uma ideia simples e genial: escrever palavras na palma da mão da menina. Dia após dia, Anne soletrava “boneca” na mão de Helen enquanto lhe dava uma boneca. “Xícara”, enquanto tocava a xícara. Mas Helen repetia os movimentos como um papagaio, sem entender o que aquilo significava. A comunicação ainda não tinha acontecido.
Então, num certo dia, Anne levou Helen até o poço d’água. Enquanto a água fria escorria sobre a mão da menina, Anne soletrou lentamente: w-a-t-e-r. Naquele instante, algo se acendeu. Helen compreendeu. Aquela sequência de toques na palma da mão não era um gesto vazio, era o nome daquela substância fria e viva que escorria entre seus dedos. Cada coisa tinha um nome. E os nomes podiam ser compartilhados.
Helen Keller escreveu depois que, naquele momento, “tudo tinha um nome, e cada nome dava origem a um novo pensamento”. Em poucas horas, ela aprendeu dezenas de palavras. E aquela menina, presa num mundo de silêncio e escuridão, tornou-se uma das maiores comunicadoras do século XX, tornando-se escritora, palestrante e ativista, tendo emocionado plateias no mundo inteiro.
Por que essa história é tão poderosa?
Porque Anne Sullivan falava havia semanas. Mas a comunicação só aconteceu quando Helen compreendeu. A palavra só se tornou comunicação no instante em que foi decodificada. Foi exatamente o que a menina sentiu que não bastava que Anne emitisse, era preciso que Helen recebesse.
Uma simples evidência para saber se a comunicação foi processada efetivamente, não é perguntar se a outra pessoa entendeu, gerando a resposta binária de sim ou não, mas a pergunta certa é: O que você entendeu do que eu disse? Assim, ao ouvir o que a pessoa responder, terei a evidência de que o que foi compreendido foi exatamente o que eu queria dizer.
A complexidade do processo comunicacional permeia várias camadas da percepção e inteligência humana, além de envolver outros aspectos como cultura, conhecimento do idioma, nível cultural, níveis neurológicos, vocabulário, entre outros, por isso apresento algumas respostas à mesma pergunta, subdivididas em três blocos:
Bloco I — Comunicação como expressão do ser
Nesta dimensão, a comunicação nasce em quem fala. É a força que nos move para fora, a coragem de tirar o mundo interno e oferecê-lo ao outro:
- Comunicação é ato criador. Ao nomear as coisas, criamos o que existe para nós e para o outro. A linguagem não descreve a realidade, ela a edifica. Antes da palavra, a ideia é apenas possibilidade; depois da palavra, ela se torna presença no mundo;
- Comunicação é congruência. Sua força está na unidade entre o que se pensa, o que se sente, o que se diz e o que se faz. A coerência é o que torna a mensagem crível e o orador, confiável;
- Comunicação é presença. É a disposição de estar inteiro diante de alguém. A atenção plena é a forma mais rara e mais poderosa de comunicar: quando você está ali, de corpo, mente e coração, o outro sente.
Bloco II — Comunicação como encontro e relação
Aqui a comunicação deixa de ser um monólogo e se torna um encontro. Não basta falar; é preciso que alguém receba:
- Comunicação é relação. Só existe comunicação no encontro entre dois mundos internos. Sozinho, ninguém comunica, é apenas pensamento;
- Comunicação é escuta. Definir comunicação apenas pelo falar é esquecer que o sentido não nasce em quem fala, mas em quem recebe. A escuta é a metade invisível de toda conversa;
- Comunicação é vínculo emocional. As pessoas esquecem o que você disse, mas raramente esquecem como você as fez sentir;
- Comunicação é adaptação. É traduzir a mesma ideia para a linguagem, o vocabulário e o universo do outro, para que ela de fato chegue;
- Comunicação é sintonia. Falar não é apenas emitir numa frequência qualquer; é encontrar a frequência em que o outro consegue receber;
- Comunicação é transformação bilateral. Ao me expressar, não apenas entrego algo ao mundo no qual eu mesmo me modifico no ato de dizer.
Bloco III — Comunicação como construção de significado
Agora a comunicação se revela em sua dimensão mais profunda: a criação de sentido compartilhado:
- Comunicação é a criação de significado compartilhado. Não basta emitir; só existe comunicação quando um mesmo sentido nasce em duas pessoas;
- Comunicação é contexto. Nada significa por si só: o sentido depende da situação, do tom, do momento e da história entre as pessoas;
- Comunicação é negociação de sentidos. Cada pessoa interpreta a partir do seu repertório; comunicar é ajustar continuamente o que o outro entendeu;
- Comunicação é construção de uma realidade comum. Duas pessoas que se comunicam passam a habitar, em parte, o mesmo mundo;
- Comunicação é cultura e memória. Falamos com palavras, símbolos e histórias que herdamos e nunca começamos do zero;
- Comunicação é redução de incerteza. Comunicar é diminuir o que o outro não sabia, é organizar o ruído em compreensão;
- Comunicação é comportamento. Inclusive o silêncio comunica e, por isso, não é possível não comunicar;
- Comunicação é influência recíproca. Não existe mensagem neutra: toda palavra transforma quem a ouve e quem a fala;
- Comunicação é poder e responsabilidade ética. A palavra move, constrói ou destrói e quem comunica exerce influência e, por isso, responde por ela;
- Comunicação é travessia. É o esforço de fazer o outro habitar, por um instante, o pensamento que estava só dentro de mim.
Conclusão
Todas as definições que exploramos até aqui apontam para uma verdade que transforma completamente a nossa prática, de que a comunicação é o que chega, o que é decodificado e compreendido pelo outro. Quem falou pode ter sido brilhante, pode ter escolhido as palavras perfeitas, pode ter se emocionado com o próprio discurso, mas se o ouvinte não compreendeu, a comunicação não se completou. Essa é a grande virada de chave: o centro da comunicação não está em quem fala, está em quem recebe. O orador não é o dono da mensagem; o dono da mensagem é quem a compreende.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre por que a comunicação é o que chega e como transformar suas conversas em verdadeiras pontes de compreensão? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Reinaldo Passadori
CEO da Passadori Comunicação, Professor de Oratória, Mentor e formador de Palestrantes
https://www.passadori.com.br/
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