O Sudoku e Sua Relação com a Comunicação na Nossa Vida
O Sudoku
Há um jogo famoso denominado Sudoku que, em que pese ter sido mais conhecido e difundido com esse nome japonês, tem suas origens ligadas ao conceito criado pelo matemático suíço Leonhard Euler no final do século XVIII que envolvia a ideia de “quadrados latinos”, termo cunhado pelo citado matemático, o qual usava letras do alfabeto latino (A, B, C…) como símbolos em seus estudos matemáticos, em contraste com “quadrados gregos”, que ele usava em problemas que envolviam pares de quadrados combinados.
Nesta esteira, a versão que conhecemos hoje, com a grade 9×9 dividida em blocos 3×3, surgiu nos Estados Unidos somente em 1979, criada por Howard Garns, um arquiteto aposentado, e publicada pela revista Dell Magazines sob o nome “Number Place”. Mas só em 1984 o jogo foi introduzido no Japão pela editora Nikoli, que o publicou e lhe deu o nome que ficou registrado na mente de todos: “Sūji wa dokushin ni kagiru” (数字は独身に限る), que significa algo como “os números devem permanecer solteiros/únicos”.
Esse nome foi depois abreviado (graças a Deus!) para “Sudoku” (数独) — combinando “sū” (número) e “doku” (sozinho/único). Curiosamente, o verdadeiro “boom” mundial aconteceu a partir de 2004-2005, quando um juiz aposentado neozelandês chamado de Wayne Gould, que descobriu o jogo no Japão, criou um programa de computador para gerar puzzles automaticamente e convenceu o jornal britânico The Times a publicá-los. Dali o Sudoku se espalhou rapidamente para jornais do mundo todo.
Mas o que me fascina neste joguinho de números, desde o momento em que o conheci, é o vislumbre de um mundo dentro de outro mundo que ele demonstra existir de modo muito sutil.
A ideia do jogo, como a maioria de nós já deve ter conhecimento, é preencher campos que inicialmente se encontram parcialmente completos, mas ainda apresentam muitos espaços vazios. Esses espaços devem ser completados em uma grade 9×9, dividida em blocos 3×3. Os números de 1 a 9 são distribuídos sem repetição dentro desses respectivos blocos. E qual seria esse mundo oculto por trás dessa condição?
O mundo da convicção e do direcionamento de nossas ações. Partimos em busca de uma solução lógica para o desafio proposto, à semelhança das decisões de nossa vida cotidiana.
O pressuposto inicial é que todo jogo Sudoku tem início, meio e fim. Ou seja, há uma finalidade e um propósito que conduzem cada etapa até a solução final. Tal como na vida, dispomos apenas de algumas “dicas” a partir das quais daremos continuidade à construção do caminho e do desafio que temos à frente. O curioso é que, não raro, conseguimos encontrar lógica nas nossas ações durante o jogo e vamos caminhando bem até determinado ponto. Então, constatamos que não fizemos algo adequadamente, interrompemos o fluxo e já não encontramos mais opções de jogada.
Nesse momento, olhamos para trás e verificamos que deixamos escapar algumas informações, seja por desatenção, por açodamento ou por ambos, e caímos na armadilha. A frustração nos abate e tentamos verificar onde erramos no processo. Até então, as deduções pareciam cheias de lógica e se mostravam consistentes a cada passo. Seguimos assim até nos depararmos com o insuperável abismo que surge diante de nós.
Na equação da vida, são inúmeras as decisões que tomamos dia após dia, lastreadas em argumentos e conhecimentos sobre assuntos internos e externos, nos quais nos respaldamos para pensar e agir. Há evidente lógica nesse raciocínio. O que não sabemos, contudo, é aquilo que não está aparente.
A nossa limitação de visão. Somos pegos dentro de nossa própria sapiência, cimentada com experiência de vida e sonhos. E constatar isso é algo que nos sobrevém com sabor amargo. Nesse ponto, chegamos à seguinte conclusão: a solução está, de fato, diante dos nossos olhos. Só não conseguimos enxergá-la de plano. Mas, ratifico, ela estava lá, e desde o princípio!
O Sudoku é fascinante, exatamente por isso. Começa como um espaço aparentemente livre, constituído por 81 células vazias, infinitas possibilidades, mas cada regra que se impõe (não repetir na linha, na coluna, no bloco) na verdade cria a estrutura que torna o jogo resolvível e interessante. Caso não houvesse restrição alguma, seria só um preenchimento de números aleatórios, sem graça ou sem sentido.
É uma boa metáfora para a vida humana: a liberdade total, sem nenhum limite, muitas vezes não gera realização, mas sim, paralisia ou vazio. São as restrições que a gente aceita (um compromisso, uma disciplina, um valor) que dão forma a algo que vale a pena. Chamo a isso de propósito.
Aqui tem o que disse acima e me fascina: num Sudoku bem formado, existe exatamente uma solução possível. Cada número já “deveria” estar lá desde o início — a grade preenchida já existe logicamente, mesmo antes de você jogar.
O que você faz, jogando, não é criar algo novo do nada; é descobrir algo que já estava implícito nas pistas dadas. Isso levanta uma pergunta filosófica e nada trivial: quanto da nossa vida é assim? Quanto do que vivemos como “decisão” é, na verdade, a única solução coerente dada diante de tudo que já nos foi dado, como nossa história, nosso contexto, nossos valores? E quanto é genuinamente aberto?
Um bom jogador de Sudoku raramente “chuta”. Ele observa, elimina possibilidades, e só avança quando tem certeza lógica. Isso é quase uma ética epistemológica em miniatura, uma legítima recusa a afirmar o que não se sabe. Dá para pensar nisso como um contraponto ao jeito como muita gente vive, a saber, decidindo por impulso, sem examinar as implicações do que já está diante dos olhos.
Poderia resumir dizendo que tem algo tocante no fato de que milhões de pessoas dedicam tempo e energia mental a resolver algo que não tem nenhuma utilidade concreta. Nenhuma resolução de Sudoku alimenta ninguém, cura doença, resolve conflitos da humanidade ou algo desse tipo.
E, ainda assim, insistimos. Talvez isso diga algo sobre a mente humana: ela não busca só sobrevivência, mas ordem ou, melhor dizendo, o prazer de ver o caos virar padrão, mesmo que só dentro de 81 quadradinhos. Pense um pouco sobre isso: o caos impõe à nossa mente a necessidade de um padrão!
Liberdade e restrição
A intuição inicial é a de que liberdade e restrição são opostos: quanto mais regras, menos livre você é. Contudo, o Sudoku sugere uma relação mais paradoxal.
Siga o seguinte raciocínio: um Sudoku com zero restrições (nenhuma pista, nenhuma regra) não é “mais livre”, mas simplesmente outra coisa, algo sem identidade própria. A grade vazia sem regras não é um jogo em potência máxima de liberdade, mas sim, um vazio. É justamente a regra “não repetir na linha, coluna e bloco” que faz existir a possibilidade de um Sudoku ser resolvido, ser difícil, ser satisfatório de completar.
E a sensação de incompletude é extremamente ruim para a nossa capacidade cognitiva. Como ensina Zeigarnik, dentro do escopo da psicologia experimental, o cérebro humano retém tarefas inconcluídas na memória ativa por muito mais tempo do que as tarefas já finalizadas. É como se houvesse um processo contínuo de “ruminação”, direcionando energia cognitiva de forma desnecessária para impedir que esqueçamos que algo ainda precisa ser finalizado.
Ainda sobre a questão da liberdade e restrição, ecoa uma linha de pensamento que atravessa várias tradições filosóficas (do estoicismo à ideia de Frankfurt) sobre “vontade de segunda ordem”: a liberdade genuína não é ausência de estrutura, é a escolha consciente de quais estruturas adotar.
Um músico de jazz não é mais livre porque ignora a escala. Ele é livre porque a domina o suficiente para improvisar dentro dela e, às vezes, até contra ela, fazendo isso com intenção. A restrição, longe de ser inimiga da liberdade, é o material bruto de que a liberdade precisa para se expressar como algo reconhecível, tal como uma joia que precisa ser lapidada.
Não se trata, contudo, de gerar uma afirmação de que qualquer restrição ou regra liberta. Na verdade, há uma diferença crucial, qual seja, a de que restrições escolhidas e compreendidas (como as regras do Sudoku, que você aceita ao decidir jogar) são diferentes de restrições impostas sem consentimento ou sentido. O valor não está na restrição em si, mas na relação consciente que se estabelece com ela.
Determinismo por trás da “escolha”
Essa posição filosófica é ligeiramente mais desconfortável. Note que, no Sudoku, a solução final já é logicamente necessária a partir das pistas iniciais, pois o jogador não a cria, mas a descobre. Cada “decisão” de preencher uma célula, se o raciocínio for correto, não é realmente uma escolha entre alternativas genuínas, mas sim, a única resposta coerente.
Aplicado à vida, isso soa quase como determinismo causal, ideia defendida por filósofos como Spinoza e discutida hoje por autores como o cientista e escritor estadunidense Robert Sapolsky. Considerando tudo o que nos formou — genética, história, contexto e cada input que já recebemos —, talvez só exista um caminho coerente à frente. Nesse caso, a sensação de “escolher” seria uma ilusão pós-hoc: a mente narraria como decisão algo que já estaria determinado.
Mas aqui vale uma distinção importante que o próprio Sudoku ilustra: mesmo que a solução seja única e determinada, a experiência de resolver ainda é real e não trivial. O jogador ainda precisa raciocinar, testar hipóteses, errar, corrigir. O determinismo do resultado que se busca não elimina a fenomenologia do processo.
Isso se aproxima do compatibilismo, posição filosófica que vai de Hume a Dennett e afirma que liberdade e determinismo não são necessariamente contraditórios. Nesse contexto, o termo “livre” pode significar agir de acordo com sua própria razão e seu caráter, mesmo que esse caráter tenha causas anteriores. Você não escolheu ser o tipo de pessoa que raciocina de determinada forma, mas, ainda assim, é você quem raciocina ao longo de todo o processo. E isso, a rigor, é o que realmente tem valor.
O Ponto de Cruzamento
O ponto de contato mais interessante no caso talvez seja a ideia de que a “liberdade” real, tanto no Sudoku quanto na vida, não esteja em ter infinitas opções abertas, nem em inventar algo do nada — mas em participar ativamente de um processo cujo resultado, mesmo que em algum sentido já determinado pela lógica ou pelas circunstâncias, só se revela através do esforço de quem joga. A liberdade não é a ausência de necessidade lógica; é o ato de percorrer, com atenção e presença, o caminho até ela. E, amigo(a) leitor(a), com muita paciência e perseverança…
O Sudoku no Contexto Empresarial: Liberdade, Estrutura e Convite na Gestão de Pessoas
De forma prática, entendo que um pequeno jogo de números como o Sudoku pode ensinar mais sobre liderança do que muitos manuais de gestão, porque ele carrega, escondido em suas regras simples, uma teoria inteira sobre como estruturas bem desenhadas não aprisionam pessoas, mas sim as libertam para produzir algo com significado. E se olharmos com atenção, encontramos ali um espelho quase perfeito dos dilemas que todo gestor enfrenta ao liderar equipes.
Proponho aqui três pilares para reflexão e, a partir deles, busco estabelecer diretrizes concretas para programas de treinamento gerencial centrados em comunicação.
Pilar n º1: Regra não é jaula, e sim o que torna o jogo possível
A queixa mais comum de colaboradores sobre processos, políticas e KPIs é que eles “engessam” o trabalho. Só que, como no Sudoku, uma grade sem nenhuma regra não é liberdade máxima, mas sim vazio. Sem restrição, o colaborador não tem contra o que criar, não tem onde apoiar o raciocínio e não tem como saber se está indo bem.
O erro de muitas lideranças não está em ter regras, mas em impor regras sem explicar o porquê, transformando estrutura em arbitrariedade. A diferença entre uma norma que liberta e uma que sufoca não está na norma em si, mas na compreensão que a equipe tem dela. Um profissional que entende por que determinado processo existe se movimenta dentro dele com autonomia; um que apenas obedece sem entender vive a mesma regra como cerceamento.
Implicação para comunicação gerencial: todo processo, meta ou política deveria vir acompanhado do seu raciocínio, não apenas da sua instrução. Não basta comunicar o “o quê” — é preciso comunicar o “para quê”. Gestores que treinam suas equipes apenas em procedimentos formam executores. Gestores que explicam a lógica por trás dos procedimentos formam pensadores autônomos dentro da estrutura. À guisa de exemplo, colaciono um dado de Sull, Sull e Yorder (MIT Sloan) — somente 1/4 dos gestores consegue listar corretamente as prioridades estratégicas da própria empresa.
Pilar nº2: Nem toda decisão sentida como escolha é, de fato, uma escolha aberta, e tudo bem com relação a isso
Num Sudoku bem resolvido, cada número preenchido não foi, exatamente, “escolhido” entre várias opções: era a única resposta logicamente coerente diante das pistas disponíveis. E, ainda assim, ninguém diria que o jogador não teve agência no processo. A liberdade ali não estava em ter infinitas alternativas, mas em participar ativamente do raciocínio até a resposta certa.
Isso tem uma aplicação direta e desconfortável na gestão: muitas decisões dentro de uma empresa, seja sobre processo, padrão de qualidade ou ainda sobre compliance, não comportam de fato múltiplos caminhos válidos. Existe uma resposta correta, ditada por contexto, segurança, legislação ou estratégia. O erro de comunicação mais comum aqui é fingir que existe deliberação onde não há, gerando frustração quando a “escolha” da equipe é, na prática, revertida.
A alternativa não é abandonar a transparência, mas recalibrá-la. Em vez de simular abertura onde ela não existe, o gestor deveria comunicar com clareza onde está o espaço real de decisão da equipe e onde está o território não negociável. Sobretudo, deveria convidar a equipe a participar do raciocínio, mesmo quando o resultado almejado já está, em grande parte, determinado. Envolvimento no processo de dedução gera senso de agência mesmo quando o resultado é único.
Nesse sentido, temos o estudo da Gallup State of the Global Workplace 2026, que aponta engajamento global de 20% (mínimo desde 2020), perdas de US$ 10 trilhões e indica que o gestor responde por até 70% da variação do engajamento da equipe, justamente a peça mais desgastada hoje.
Implicação para comunicação gerencial: distinguir publicamente, em toda comunicação de decisão, entre “isto está aberto à sua contribuição” e “isto é definido por fatores que não podemos alterar, mas posso explicar por quê”. Ambiguidade aqui é a maior fonte de desengajamento silencioso em equipes.
Pilar nº3: Estrutura oferecida só vira liberdade vivida, quando é aceita
Aqui talvez esteja o ponto mais importante para qualquer plano de treinamento. Regras, autonomia e processos bem desenhados são, na melhor das hipóteses, um convite. E todo convite pressupõe alguém do outro lado disposto a aceitá-lo. A diferença entre uma política “existir no papel” e a equipe realmente vivê-la está exatamente nesse ato de adesão.
Isso desloca o centro de gravidade da liderança: não basta desenhar uma estrutura tecnicamente perfeita (metas claras, processos bem definidos, autonomia delegada) se a comunicação não consegue transformar essa estrutura em algo que a equipe aceita como seu. Estrutura imposta sem convite genuíno tende a ser cumprida em modo de conformidade, ou seja, o mínimo necessário, sem apropriação real. Estrutura comunicada como convite, com espaço para pergunta, resistência e ressignificação, tende a ser incorporada, ou seja, vivida com iniciativa, não apenas seguida. Cito como exemplo estatísticas de produtividade, lucratividade e absenteísmo ligadas ao engajamento em um estudo acadêmico brasileiro (Redalyc) que correlaciona a autonomia da equipe ao aprendizado, à flexibilidade e à eficiência. [1]
Implicação para comunicação gerencial: todo lançamento de processo, meta ou mudança organizacional deveria ter, estruturalmente, um momento de escuta antes do momento de instrução. Não como formalidade, mas como mecanismo real de transformar imposição em aceitação e, consequentemente, cumprimento burocrático em engajamento genuíno.
Diretrizes práticas para o plano de treinamento
A partir desses três pilares, um programa de capacitação gerencial voltado à comunicação poderia estruturar-se em torno de:
- Módulo “O porquê antes do quê”: treinar líderes a nunca comunicar uma regra, meta ou processo sem justificar sua lógica, ainda que brevemente.
- Módulo “Mapeando o espaço de decisão”: ferramenta prática para que gestores identifiquem, antes de qualquer comunicação de mudança, o que é genuinamente negociável e o que é fixo — e comuniquem essa fronteira com honestidade, evitando falsas consultas.
- Módulo “Convite antes de instrução”: técnicas de comunicação que antecedem toda diretriz relevante com um momento real de escuta, mesmo que breve, garantindo que a equipe tenha onde depositar dúvida, objeção ou contribuição antes da formalização.
- Módulo “Autonomia dentro do bloco”: usando a metáfora do próprio Sudoku (liberdade de raciocínio dentro de uma grade fixa) para treinar gestores a delegar o como mesmo quando o “o quê” é inegociável.
Conclusão
Se há uma lição central nessa analogia, é esta: gestão não é a escolha entre estrutura e liberdade, como se fossem polos opostos disputando espaço. É o desenho cuidadoso de estruturas que, comunicadas com clareza, propósito e espaço genuíno de escuta, deixam de ser jaula e passam a ser tabuleiro, o verdadeiro lugar onde a equipe exerce, com inteligência e iniciativa própria, a única coisa que de fato transforma regra em resultado: o raciocínio ativo de quem joga. O mais são só números, e nem sempre a conta fecha…
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Quer saber mais sobre como o Sudoku e a comunicação podem nos ensinar a transformar regras e estruturas em espaços de autonomia e engajamento nas equipes? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Acácio Lima dos Santos
https://acacio.lovable.app
Confira também: O Caminho de Todos Nós e Seus Descaminhos
Referências:
[1] Nascimento Santos, Jair , Santos Franco Júlia Hosana. UMA POSSÍVEL RELAÇÃO ENTRE TRABALHO EM EQUIPE E APRENDIZAGEM ORGANIZACIONAL. Revista de Administração FACES Journal [online]. 2011, 10(4), 190-206 [Data da Consulta 7 de Setembro de 2026]. ISSN: 1517-8900. Disponível em:
https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=194022127010
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