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A Coragem de Acolher o Bode na Sala: Conflitos, Vieses e Segurança Psicológica

Segurança psicológica não é ausência de conflitos. Entenda como acolher o "bode na sala", reconhecer vieses e sustentar diálogos difíceis pode transformar tensões em aprendizado, pertencimento e relações mais conscientes.

A Coragem de Acolher o Bode na Sala: Conflitos, Vieses e Segurança Psicológica - O que o conflito nos ensina sobre a verdadeira força da comunidade

A Coragem de Acolher o Bode na Sala: Conflitos, Vieses e Segurança Psicológica
O que o conflito nos ensina sobre a verdadeira força da comunidade

Um relato pessoal sobre como o V Retiro Praxis transformou a invalidação de uma história de racismo em um espaço de profundo aprendizado. O encontro autêntico só acontece quando não fugimos da roda e celebramos a coragem de encarar nossos vieses sistêmicos.

Quando cheguei para o “V Retiro Praxis de Comunicação Não-Violenta” em São Roque, nesse feriado da Independência, a própria estrutura do encontro já nos lançava um convite ousado à maturidade e à autorresponsabilidade. O evento foi desenhado a partir das premissas da “Tecnologia do Espaço Aberto” (Open Space Technology), um formato profundamente libertador onde as próprias pessoas participantes criam a agenda em tempo real, baseadas nos temas que consideram cruciais.

Fomos embalados por princípios revolucionários que exigem extrema confiança no processo: quem vier são as pessoas certas, quando começar é a hora certa, o que quer que aconteça é o único que poderia ter acontecido, e quando acabar, acabou.

Mais do que isso, as sessões não eram guiadas por autoridades externas inquestionáveis, mas facilitadas pelas próprias pessoas participantes do grupo, diluindo as hierarquias tradicionais.

Foi exatamente dentro dessa estrutura de vulnerabilidade e horizontalidade que a vida, com toda a sua complexidade, se manifestou. Em uma das sessões autogestionadas, um episódio doloroso e, infelizmente, muito comum em nossa sociedade aconteceu diante de nós: uma história de racismo compartilhada na roda e, na sequência, sutilmente invalidada.

A pessoa participante que estava facilitando a sessão, nossa querida Ivie, atuou com uma maestria e uma presença que me emocionam até agora. Em vez de se apequenar diante do conflito ou tentar pacificar o ambiente de forma tóxica e artificial, ela utilizou a base da “Arte de Anfitriar Conversas Significativas” (Art of Hosting). Ela sustentou os quatro pilares do anfitrião: anfitriou a si mesma mantendo a presença, participou com vulnerabilidade, anfitriou o grupo mantendo o espaço seguro e nos convidou a cocriar o entendimento daquela fratura. A facilitação não invalidou o incômodo, mas também não demonizou quem cometeu o deslize. O conflito foi acolhido como um mestre.

No entanto, ao citar o episódio na sessão de feedback da oficina, imediatamente, uma tensão racial densa se instalou no grupo. O desconforto tornou-se palpável. Um imenso “bode na sala” nos encarava, e o ar ficou subitamente pesado com o peso do silêncio normativo.

Como mulher negra, meu corpo decodifica a violência do silenciamento antes mesmo que a minha mente consiga organizá-la em um discurso estruturado. Historicamente, pessoas pertencentes a grupos minorizados conhecem a encruzilhada que se forma nesses segundos intermináveis: engolir a dor para manter a harmonia artificial do espaço ou romper o pacto de silêncio. A literatura nos alerta sobre os perigos da omissão. No conto “Para que ninguém a quisesse”, de Marina Colasanti, compartilhado por uma das participantes, uma mulher começa a se desfazer de si mesma para aplacar o incômodo alheio. Ela altera suas roupas, permite que tosquiem seus cabelos e, passivamente, passa a fluir em silêncio pelos cômodos, “mimetizada com os móveis e as sombras”, até desaprender a gostar de si mesma.

Quantas vezes nós, pessoas negras, fomos ensinadas a nos mimetizarmos com a mobília corporativa para não causarmos desconforto à estrutura dominante?

Eu decidi, ali, que não seria uma sombra. Após uma provocação sobre o que me afetava no check-in de uma oficina sobre CNV e Afetos, peguei o Bastão de Fala — um instrumento ancestral utilizado nos processos circulares que garante que apenas quem o segura tem o direito de se expressar, estimulando a escuta profunda dos demais — e apontei a tensão racial que estava asfixiando a sala. Iniciei o diálogo de forma honesta, nomeando os fatos objetivos e iluminando o silêncio da nossa comunidade diante do que acabara de acontecer.

O que se sucedeu a partir da minha fala é o motivo central pelo qual escrevo este relato em tom de celebração e profunda esperança. Em ambientes convencionais, a reação padrão da branquitude ao ser confrontada com seus vieses inconscientes é a reatividade paralisante. A Comunicação Não-Violenta (CNV) descreve com precisão cirúrgica esse fenômeno humano. Ao ouvir algo que desafia nossas crenças ou privilégios, ficamos enredados nos julgamentos, absorvemos as palavras e as recebemos como se fossem uma ameaça direta ao nosso valor moral. Proteger a nossa dignidade e autoestima torna-se a prioridade biológica absoluta, gerando o impulso defensivo de resistir ou de nos afastarmos para manter o equilíbrio.

Mas nós estávamos no V Retiro Praxis. Nós havíamos nos comprometido a acolher o desconforto.

A roda não se quebrou; ela se aprofundou. Mergulhamos coletivamente no abismo perigoso que existe entre o que acreditamos conscientemente e o que aprendemos de forma estrutural. A grande lição que emergiu no centro do nosso círculo foi que o racismo não se sustenta apenas em intenções maldosas. Ele se perpetua em aprendizados, hábitos, silêncios cúmplices e padrões culturais. O grupo inteiro precisou olhar para o vão que separa o repúdio consciente do repertório inconsciente que, vira e mexe, reproduzimos no automático.

A artista Paris Paloma canta sobre o peso do trabalho invisível na canção labour, descrevendo a “tortura emocional” (“emotional torture“) de quem precisa buscar a “água na nascente da montanha rochosa” enquanto absorve as palavras afiadas de quem detém o poder. O que celebramos naquele retiro foi justamente a recusa do grupo em deixar que esse “trabalho emocional” pesado recaísse apenas sobre mim ou sobre as pessoas não-brancas da sala. A comunidade assumiu a sua parte do trabalho pesado.

Para isso, a estrutura da Comunicação Não-Violenta foi o nosso chão seguro. A prática nos guiou com disciplina através do caos emocional:

  1. Paramos e respiramos fundo.
  2. Observamos quais eram os FATOS incontestáveis.
  3. Mapeamos como cada pessoa estava se SENTINDO.
  4. Investigamos quais eram as NECESSIDADES humanas universais por trás daqueles sentimentos conflitantes.

Em vez de procurarmos culpados para punir, o grupo se inclinou para o centro e fez a pergunta transformadora: “O que está vivo aqui?”.

Descobrimos que, por trás da falha, havia ignorância estrutural, mas também havia necessidade de pertencimento, de aprendizado e de segurança. E por trás da minha fala, havia a necessidade latente de respeito, de empatia e de verdade. Navegamos pelo “Movimento da Roda” compartilhado pela inspiradora Silvialene Baptista. Tivemos a coragem de RECONHECER a estrutura excludente que nos forjou e nos IMPLICAMOS ao sair da frieza intelectual para olhar para as próprias atitudes. Nos permitimos SENTIR e humanizar os impactos daquela dor e assumimos a RESPONSABILIDADE de nos movermos de forma diferente.

A sabedoria ancestral nos diz que as estruturas precisam prever o conflito para não serem, de fato, destruídas por ele. Entramos na dinâmica dos Círculos de Resolução de Conflitos, sistematizados por Kay Pranis, aplicados exatamente quando existe um desentendimento claro. O objetivo não é alcançar o falso consenso, mas limpar os canais de comunicação e construir entendimentos que atendam às necessidades de todas as pessoas.

A cada rodada, o bode na sala diminuía de tamanho, substituído pela clareza, pelo letramento e, além disso, por um afeto genuíno. E lembremos: o verbo “afetar” significa causar impacto, modificar e incidir sobre algo. Saímos todos profundamente afetados, modificados por termos acolhido o desconforto.

Faço então uma pausa para que possamos refletir sobre o mundo corporativo e as nossas relações sociais diárias. O que estamos normalizando nas nossas culturas organizacionais quando ignoramos o bode na sala? Quantas vezes a inovação morre porque as lideranças preferem abafar a tensão, varrendo os vieses inconscientes para baixo do tapete, em vez de assumirem a coragem de facilitar o diálogo difícil? O evento no retiro nos provou que a segurança psicológica não é a ausência de conflitos, mas a certeza de que a comunidade não vai desmoronar quando o conflito aparecer.

Essa experiência majestosa no “V Retiro Praxis de Comunicação Não-Violenta” me remete, inescapavelmente, à sabedoria vital contida na Fábula do Porco-espinho, compartilhada pela Adriana Rosa com o grupo:

Conta-se que, durante a era glacial, os porcos-espinhos tentavam se aquecer juntos para fugir da morte iminente, mas acabavam se ferindo mutuamente com os espinhos dos companheiros mais próximos. Assustados com o desconforto, eles se afastaram para evitar o contato, mas começaram inevitavelmente a morrer congelados na solidão. Diante desse dilema, precisaram fazer uma escolha definitiva: ou desapareciam da face da Terra, sucumbindo ao frio da separação, ou aceitavam os espinhos uns dos outros. Eles, sábios, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas e fricções que a proximidade pode causar, porque entenderam que o calor do companheiro, no fim das contas, era a própria vida e a garantia da sobrevivência.

A grande moral dessa nossa história comunitária, que deveria estar pendurada nas paredes de todas as salas de reunião, é que o melhor relacionamento — seja ele afetivo, corporativo ou comunitário — não é aquele que une pessoas perfeitas que nunca pisam no calo umas das outras. O relacionamento capaz de transformar a sociedade é aquele em que cada pessoa tem a coragem de ficar na roda, assume seus vieses, aprende a conviver com as imperfeições humanas e admira profundamente as suas qualidades.

Nós abraçamos o bode na sala. Nós acolhemos nossos espinhos. E a recompensa por não fugirmos do conflito foi o calor curativo da mais verdadeira e resistente conexão humana.

Sejamos a mudança!


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Quer saber mais sobre como acolher o “bode na sala”, reconhecer vieses, bem como construir segurança psicológica para transformar conflitos em aprendizado e diálogo? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Kaká Mandakinï
Gallup Global Strengths Coach, mentora de Liderança Regenerativa, facilitadora de CNV e consultora de DEI. Acredita que a comunicação autêntica é a chave para transformar organizações em ecossistemas de vida.
https://www.diversidadeagora.com.br

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Kaká Mandakini tem o propósito de contribuir para a construção de uma sociedade mais humana, compassiva, não-violenta e que valoriza a diversidade em todas as suas formas de expressão. Atuou durante 15 anos no mercado financeiro em áreas comerciais, estratégicas e de apoio ao negócio. Hoje, trabalha com o desenvolvimento de lideranças, com treinamentos, processos de autoconhecimento, gestão de conflitos e apoiando o desenvolvimento e as práticas de Comunicação Não-Violenta. Também atua como professora convidada e coach na Fundação Dom Cabral e no Insper, e como voluntária no Grupo Mulheres do Brasil e na Universidade do Propósito. É palestrante, coach, master practitioner em PNL, CHO – Chief Happiness Officer, treinadora comportamental, mentora, facilitadora de práticas de Comunicação Não-Violenta, Constelação Sistêmica Organizacional, Action Learning coach e mediadora de conflitos. Ela acredita que estamos entrando em uma nova era que pulsa por valores humanos mais elevados, como propósito, colaboração, criatividade, diálogo, sabedoria, felicidade, bem-estar, realização pessoal e consciência de interdependência, e que é papel de uma liderança consciente criar o ambiente favorável para a plena expressão do potencial e da autenticidade das pessoas.
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