O Perigo de Liderar com Certezas Demais: Os Riscos das Certezas na Liderança
Existe uma expectativa silenciosa sobre quem lidera: saber.
Saber o que fazer, o que responder, qual caminho seguir. Saber resolver conflitos, tomar decisões difíceis e transmitir segurança, mesmo quando o cenário ainda está sendo compreendido.
Durante boa parte da minha trajetória profissional, também aprendi a funcionar assim. Em ambientes exigentes, ter respostas rápidas era associado à competência. A experiência ampliava meu repertório e, com o tempo, fui me acostumando a ser aquela pessoa que sabia responder.
Mas existe uma diferença importante entre ter experiência e acreditar que precisamos ter respostas para tudo. É nessa fronteira que comecei a olhar com mais atenção para o perigo das certezas na liderança.
A experiência é um patrimônio. Ela nos ajuda a reconhecer padrões, antecipar riscos e decidir com mais segurança. Mas os contextos mudam. As pessoas mudam. Os negócios mudam. E nós também. Uma certeza que já nos protegeu pode, em outro momento, limitar nossa percepção.
Adam Grant, em Pense de novo, me ajudou a aprofundar uma questão que já vinha aparecendo no meu próprio processo: reconhecer os limites do que sabemos. Liderar exige posicionamento e decisão. A pergunta é: quanta abertura existe dentro das nossas convicções?
Quanto maior a posição de poder, maior pode ser a distância entre aquilo que o líder acredita saber e aquilo que as pessoas se sentem livres para dizer. Quando precisamos demonstrar segurança o tempo todo, o ambiente pode filtrar a realidade para nós. As pessoas concordam, evitam o confronto, levam apenas parte das informações. E, sem perceber, passamos assim a decidir a partir de uma realidade editada.
Foi nesse ponto que a vulnerabilidade ganhou outro significado para mim. É a coragem de não performar uma certeza que ainda não existe.
Baixar a guarda não é perder autoridade. É deixar de usar a autoridade como armadura.
Hoje reconheço em mim o impulso de responder rapidamente, encontrar a solução e, em alguns momentos, ter a última palavra. Esse impulso foi construído em uma trajetória em que competência, agilidade e capacidade de decisão eram fundamentais.
Mas estou vivendo um processo de reconstrução. Tenho aprendido a observar meu próprio ego, inclusive quando ele aparece disfarçado de experiência, segurança ou desejo de ajudar. Pergunto a mim mesma: por que preciso estar certa? Estou realmente ouvindo ou apenas esperando a minha vez de responder?
Essas perguntas não diminuem minha experiência, mas me ajudam a usá-la com mais consciência. Posso confiar no que aprendi sem ser prisioneira daquilo que aprendi.
É também por isso que vejo o papel do líder como mentor ganhando relevância. Mentorar é criar condições para que o outro pense melhor. Uma resposta pronta pode resolver a pergunta daquele momento. Uma boa pergunta pode ampliar a capacidade de responder às próximas.
Tenho percebido que, nesses momentos, uma pergunta simples pode mudar a natureza da relação: “Vamos construir juntos?” Em vez de ocupar todo o espaço com a minha experiência, abro espaço para a experiência do outro. O líder mentor usa sua autoridade para desenvolver autonomia.
É aqui que minha reflexão encontra a Governança Humana. Governar humanamente também significa olhar para a forma como exercemos poder: quem decide, como decide, que espaço existe para discordar e se as pessoas podem trazer para a mesa aquilo que precisamos ouvir.
Hoje, olhando para minha trajetória, percebo uma mudança importante: durante muito tempo, associei liderança à capacidade de ter respostas. Hoje, reconheço também o valor de fazer perguntas que ampliem, de fato, a consciência e a autonomia de quem está ao meu redor.
Talvez a liderança mais madura não seja aquela que sabe mais, mas aquela que consegue criar um ambiente em que mais pessoas possam pensar melhor.
É uma mudança de lugar: de quem tem a resposta para quem cria espaço para que uma resposta melhor possa nascer.
Porque o perigo de liderar com certezas demais não está apenas em estar errado. Está em não deixar espaço para descobrir algo novo.
E você, onde tem colocado suas certezas à prova?
Talvez uma boa conversa comece justamente quando deixamos espaço para rever o que pensamos saber.
Se este artigo provocou alguma reflexão em você, compartilhe comigo. Vou gostar de continuar essa conversa.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como colocar as certezas na liderança à prova para ampliar a escuta, desenvolver autonomia e tomar decisões melhores? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até o próximo mês!
Karem Zapana
Educadora Corporativa e Mentora de Lideranças
https://www.linkedin.com/in/karem-zapana
https://www.instagram.com/karemzapana
Confira também: Como Decidir com Lucidez Quando o Mercado Exige Pressa
Participe da Conversa