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O Silêncio Também É Parte da Conversa: Como o Turn-Taking Transforma a Comunicação

Entenda o que é turn-taking e como a alternância entre fala, escuta e silêncio afeta suas relações. Descubra sinais de uma conversa desequilibrada e como oferecer mais espaço ao outro pode transformar sua comunicação.

Turn-Taking: O Que É e Como Ele Transforma Sua Comunicação?

O Silêncio Também É Parte da Conversa: Como o Turn-Taking Transforma a Comunicação

Olá!

Você sabe o que é turn-taking? E, mais importante, sabe o quanto ele interfere na qualidade das suas relações?

Turn-taking é, de forma simples, a alternância de turnos em uma conversa. Uma pessoa fala, a outra escuta, depois responde, comenta, pergunta, acrescenta, e a conversa segue nesse movimento de troca. Parece banal. E talvez justamente por parecer tão banal quase nunca prestamos atenção ao quanto esse mecanismo é importante. Conversar não é apenas colocar palavras no ar. Conversar é compartilhar espaço. E quando esse espaço deixa de ser compartilhado, alguma coisa começa a se romper, ainda que ninguém consiga explicar exatamente o quê.

Todos nós conhecemos alguém que interrompe o tempo todo, completa a frase do outro, responde antes da pergunta terminar, transforma qualquer assunto em uma história sobre si ou parece viver em estado permanente de prontidão para provar alguma coisa. Às vezes essa pessoa é inteligente, interessante, culta, rápida no raciocínio. Pode até ser divertida. Mas conversar com ela cansa. E esse cansaço não aparece necessariamente porque houve conflito, agressividade ou falta de educação explícita. Surge porque a conversa deixou de ser uma troca e virou uma disputa por espaço.

Esse talvez seja um dos efeitos mais curiosos da quebra do turn-taking. Ela produz o que eu chamaria aqui de desconforto cognitivo ou relacional. A pessoa entra numa conversa esperando reciprocidade, escuta, continuidade, algum grau de reconhecimento. Quando sua fala é sistematicamente interrompida, desviada ou apropriada, a experiência produz uma pequena quebra de expectativa. É como se o cérebro registrasse: eu entrei aqui para conversar, mas estou tendo que lutar para existir dentro da própria conversa.

E lutar cansa.

Quando esse padrão se repete, começamos a fazer algo muito humano: evitamos aquilo que nos desgasta. Procuramos menos, compartilhamos menos, expomos menos nossas ideias e reduzimos nossa presença. Em alguns casos, nem sabemos exatamente por que nos afastamos. Apenas sentimos que estar com aquela pessoa exige energia demais. E relações que exigem energia demais, sem devolver conexão, tendem a perder espaço.

É curioso porque muitas pessoas que quebram continuamente a lógica do turn-taking não percebem isso. Ao contrário, podem acreditar que são boas de conversa. Falam muito, contam histórias, têm opinião sobre tudo, reagem rápido, sempre têm um exemplo, uma experiência ou uma resposta pronta. Aos próprios olhos, são comunicativas. Aos olhos do outro, podem estar sendo invasivas.

Essa diferença entre intenção e percepção é central para quem estuda comportamento. Eu posso ter a melhor intenção do mundo, mas relações são organizadas menos pelo que eu quis dizer e mais pelo que o outro percebeu da minha presença. E isso vale muito para a conversa. Posso acreditar que estou mostrando interesse ao contar uma experiência parecida. Mas, se toda vez que alguém começa uma narrativa eu puxo a conversa para mim, talvez o que eu esteja comunicando não seja empatia, mas sim protagonismo.

E por que fazemos isso?

Há várias causas possíveis, algumas circunstanciais: ansiedade, euforia, entusiasmo, medo de esquecer uma ideia ou receio de ser mal compreendido. Nessas situações, interrompemos não porque queremos dominar a conversa, mas porque nossa mente está acelerada. Falamos antes de escutar completamente. Respondemos enquanto o outro ainda está formulando.

Há também causas aprendidas. Pessoas que cresceram em famílias nas quais era preciso disputar espaço para falar podem levar esse comportamento para a vida adulta. Ambientes profissionais muito competitivos também podem ensinar que quem fala primeiro parece mais preparado, quem responde mais rápido parece mais inteligente e quem ocupa mais espaço parece mais relevante.

Algumas culturas de trabalho premiam a velocidade da resposta e não a qualidade da escuta. Com o tempo, aquilo que começou como adaptação vira hábito. E existe ainda uma terceira camada, talvez mais delicada. A necessidade de reconhecimento. O medo de parecer pouco interessante. A necessidade de provar competência. O desejo de demonstrar que sabemos, que já vivemos, que temos repertório, que entendemos mais. Em algumas pessoas, falar é uma forma permanente de assegurar presença. Como se o silêncio representasse risco de invisibilidade.

É aqui que a conversa começa a ficar realmente interessante.

Porque não estou propondo que você transforme o turn-taking em mais uma categoria para julgar as pessoas. Não é sobre identificar quem fala demais no almoço de domingo ou classificar colegas de trabalho. É sobre autoconsciência. E autoconsciência exige uma coisa difícil: conseguir observar a si mesmo de fora.

Há uma metáfora de que gosto muito: para enxergar uma ilha, é preciso sair da ilha. Enquanto estamos dentro dela, vemos ruas, árvores, pedras, casas, mas não vemos seu contorno. Para compreender a forma da ilha, precisamos ganhar distância. Com o comportamento acontece a mesma coisa.

Enquanto estamos imersos no nosso jeito habitual de conversar, tudo parece natural. É preciso dar um passo para fora e observar. Então não encare a quebra do turn-taking como defeito, acusação ou diagnóstico. Apenas saia da ilha por alguns minutos e pergunte: como as pessoas se sentem quando conversam comigo?

Há alguns sinais que podem ajudar nessa observação:

  • O primeiro sinal é perceber se você frequentemente termina frases que o outro começou. Às vezes fazemos isso querendo demonstrar sintonia. Mas completar permanentemente o pensamento de alguém também pode comunicar pressa e falta de confiança de que aquela pessoa conseguirá chegar ao próprio ponto.
  • O segundo sinal é notar se qualquer história apresentada pelo outro desperta imediatamente uma história sua. A pessoa comenta uma viagem e você responde com a sua. Fala de uma doença e você conta a sua experiência. Compartilha um problema e você rapidamente explica algo parecido que viveu. Isso pode ser uma tentativa genuína de conexão, mas, quando vira padrão, a conversa começa sempre no outro e termina em você.
  • O terceiro sinal é a dificuldade de tolerar silêncio. Algumas pessoas tratam qualquer pausa como um espaço vazio que precisa ser preenchido. Só que silêncio também faz parte da conversa. É nele que o outro organiza pensamentos, encontra palavras e decide se quer continuar. Preencher todo silêncio pode ser uma forma sutil de impedir profundidade.
  • O quarto sinal é perceber se você escuta para compreender ou escuta para responder. Há uma diferença enorme entre as duas coisas. Quando escutamos para responder, passamos a fala do outro inteira preparando nossa próxima intervenção. Quando escutamos para compreender, aceitamos inclusive a possibilidade de que nossa próxima contribuição seja apenas uma pergunta.
  • E o quinto sinal talvez seja o mais revelador: observe se as pessoas compartilham coisas importantes com você. Contam dúvidas? Pedem opinião? Revelam vulnerabilidades? Desenvolvem raciocínios longos na sua presença? Ou as conversas com você permanecem sempre rápidas, superficiais e funcionais? Muitas vezes, a qualidade daquilo que o outro escolhe compartilhar é um excelente indicador da segurança que encontra na nossa escuta.

Essa reflexão não significa que toda conversa precise ser perfeitamente equilibrada.

Há momentos em que alguém precisa falar mais. Há relações em que um dos dois ocupa temporariamente mais espaço porque está vivendo uma situação difícil. E há conversas apaixonadas em que as pessoas se interrompem por entusiasmo e ninguém se sente desrespeitado. Competência relacional não é seguir uma regra mecânica de cinquenta por cento para cada lado.

É perceber.

Perceber quando sua participação está ampliando a conversa e quando está sufocando, quando compartilhar uma experiência aproxima e quando sequestra a narrativa, ou quando uma interrupção demonstra entusiasmo e quando demonstra incapacidade de escutar. E perceber, sobretudo, o efeito que seu comportamento produz no outro. Talvez seja justamente isso que diferencia alguém que apenas sabe falar de alguém que sabe conversar.

Porque conversar exige uma competência que vai muito além da eloquência. Exige regular a própria necessidade de protagonismo para que outra pessoa tenha espaço de existir diante de nós. Exige tolerar o silêncio, demonstrar curiosidade, fazer perguntas, sustentar atenção e aceitar que nem toda fala precisa terminar com nossa contribuição. E aqui está o paradoxo: muitas vezes queremos ser admirados, reconhecidos e lembrados e, na tentativa de demonstrar valor, falamos demais. Só que pessoas raramente se aproximam de quem constantemente precisa provar valor. Elas tendem a se aproximar de quem faz com que elas próprias se sintam valorizadas.

Talvez por isso algumas relações não terminem por grandes conflitos. Não há brigas memoráveis, traições ou rompimentos dramáticos. Elas simplesmente se desgastam. Uma das pessoas deixa de procurar. Depois deixa de compartilhar. Depois deixa de sentir falta. E, muitas vezes, tudo começou porque ela deixou de se sentir ouvida.

A próxima vez que estiver em uma conversa, experimente observar menos o que você tem para dizer e um pouco mais o espaço que está oferecendo para que o outro diga. Talvez você descubra que escutar não é o intervalo entre duas falas suas.

É parte da relação.

Pense nisso!


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Quer saber mais sobre como o turn-taking pode transformar sua comunicação e melhorar a qualidade da escuta? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Até a próxima!

Edson Carli
https://inteligenciacomportamental.com

Confira também: Qual é o Papel da Competência Relacional na Construção de Relações de Valor?

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Edson Carli Author
Edson Carli é especialista em comportamento humano, com extensa formação em diferentes áreas que abrangem ciências econômicas, marketing, finanças internacionais, antropologia e teologia. Com mais de quarenta anos de vida profissional, atuou como diretor executivo em grandes empresas do Brasil e do mundo, como IBM, KPMG e Grupo Cemex. Desde 2003 está à frente do Grupo Domo Participações onde comanda diferentes negócios nas áreas de consultoria, mídia e educação. Edson ainda atua como conselheiro na gestão de capital humano para diferentes fundos de investimentos em suas investidas. Autor de sete livros, sendo dois deles best sellers internacionais: “Autogestão de Carreira – Você no comando da sua vida”, “Coaching de Carreira – Criando o melhor profissional que se pode ser”, “CARMA – Career And Relationship Management”, “Nut’s Camp – Profissão, caminhos e outras escolhas”, “Inteligência comportamental – A nova fronteira da inteligência emocional”, “Gestão de mudanças aplicada a projetos” (principal literatura sobre o tema nos MBAs do Brasil) e “Shé-Su – Para não esquecer”. Atual CEO da Academia Brasileira de Inteligência comportamental e membro do conselho de administração do Grupo DOMOPAR. No mundo acadêmico coordenou programas de pós-graduação na Universidade Mackenzie, desenvolveu metodologias de behaviorismo junto ao MIT e atuou como professor convidado nas pós-graduações da PUC-RS, FGV, Descomplica e SENAC. Atual patrono do programa de desenvolvimento de carreiras da UNG.
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