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Cada Um Escuta com a História que Tem (parte II)

Os mecanismos de defesa podem nos proteger, mas também limitar relações e escolhas. Entenda como reconhecê-los e como a Psicologia Positiva e o PERMA ajudam a transformar proteção em consciência, vínculos mais saudáveis e florescimento.

Cada Um Escuta com a História que Tem: Mecanismos de Defesa (parte ii)

Cada Um Escuta com a História que Tem (parte II)
Dando continuidade à parte I deste tema, vamos abordar como compreender nossos mecanismos de defesa para deixar de apenas nos proteger para que possamos começar a responder à vida de forma mais consciente e saudável.

Mecanismos de defesa: como nos protegemos do que ameaça nossa identidade

A Psicanálise também descreve os mecanismos de defesa como estratégias psíquicas utilizadas para lidar com conflitos, sentimentos ou experiências difíceis.

Esses mecanismos de defesa não são necessariamente sinais de doença. Em diferentes graus, fazem parte do funcionamento humano.

O problema surge quando passam a limitar nossa capacidade de compreender a realidade, aprender com a experiência ou então construir relações mais autênticas.

Podemos racionalizar uma decisão para não entrar em contato com o medo que a motivou ou negar um problema porque reconhecê-lo exigiria uma mudança. Podemos deslocar a raiva provocada por uma pessoa para alguém que oferece menos risco. Também podemos transformar vulnerabilidade em controle, usar a ironia para evitar demonstrar insegurança ou nos calar não porque não temos nada a dizer, mas porque o silêncio funciona como proteção contra a possibilidade de julgamento.

Na liderança, esses movimentos podem assumir formas sofisticadas.

Uma gestora pode controlar excessivamente a equipe e chamar esse comportamento de busca pela excelência ou evitar delegar, afirmando que os outros ainda não estão preparados, quando, no fundo, teme tornar-se menos necessária.

Ela também pode adiar uma conversa difícil sob a justificativa de escolher o melhor momento, quando de fato está tentando evitar o desconforto. Pode reagir agressivamente a uma pergunta que desperta uma sensação de inadequação que ela não consegue admitir. Pode construir uma imagem de força permanente para que não corra o risco de ser vista como frágil.

O comportamento visível nem sempre revela diretamente a necessidade interna.

Por trás da rigidez pode existir medo. Por trás do perfeccionismo pode existir insegurança, assim como por trás da necessidade de controle pode existir desamparo. E, por trás do silêncio, pode existir uma tentativa de preservar a própria integridade.

Compreender isso não significa romantizar condutas prejudiciais.

Uma história difícil não autoriza ninguém a humilhar, manipular, controlar ou violentar outras pessoas.

Compreender não é justificar, mas sim ampliar o diagnóstico para que a transformação não fique restrita à superfície.


O que a Psicologia Positiva acrescenta a essa reflexão

A Psicanálise nos ajuda a investigar por que repetimos determinados padrões, por que algumas falas nos atingem profundamente e como conteúdos inconscientes participam de nossas relações.

A Psicologia Positiva amplia a pergunta:

  • Além de compreender as feridas, como construímos recursos para viver melhor?
  • Além de reconhecer os mecanismos de defesa, como desenvolvemos forças que nos permitam responder de maneira mais consciente?
  • Além de analisar o sofrimento, quais condições favorecem vínculos mais saudáveis, sentido, realização e florescimento?

A Psicologia Positiva é definida como um campo de estudo voltado aos estados psicológicos positivos, às forças de caráter e às instituições sociais que contribuem para o bem-estar e para uma vida considerada valiosa. Ela não propõe negar sofrimento, conflitos ou emoções difíceis, mas investigar também os fatores que possibilitam às pessoas e às comunidades florescer.

Essa distinção é fundamental.

Psicologia Positiva não é pensamento positivo, nem significa repetir frases otimistas diante de experiências dolorosas. Ela também não propõe transformar o sofrimento em oportunidade antes que ele possa ser reconhecido ou exigir que as pessoas encontrem imediatamente um aprendizado em situações traumáticas.

O próprio campo reconhece que emoções negativas, dificuldades e sofrimento fazem parte da condição humana. Também alerta que pensamentos negativos podem, em algumas situações, contribuir para avaliações mais precisas da realidade.

Florescer não é viver permanentemente feliz, mas desenvolver recursos internos e relacionais para atravessar a complexidade da vida sem reduzir-se ao sofrimento.

Significa reconhecer a dor sem perder o acesso às forças, compreender a própria história sem acreditar que estamos condenados a repeti-la e, além disso, encontrar sentido sem negar a realidade.


PERMA: uma leitura do florescimento nas relações

Martin Seligman organizou sua teoria do bem-estar em cinco elementos conhecidos pela sigla PERMA:

  • emoções positivas;
  • engajamento;
  • relacionamentos;
  • sentido;
  • realização.

Esses elementos são apresentados como componentes que contribuem para o florescimento, e não como uma fórmula única ou prescritiva de felicidade. Diferentes pessoas podem construir bem-estar por diferentes caminhos.

Quando aplicamos essa perspectiva à comunicação, percebemos assim que relações saudáveis não dependem apenas da ausência de conflitos.

Dependem da qualidade das experiências construídas.


Emoções positivas

Emoções positivas não eliminam medo, raiva, tristeza ou frustração.

Elas ampliam o repertório emocional e podem favorecer abertura, curiosidade, criatividade e conexão.

Uma conversa difícil pode ser atravessada com respeito. Uma discordância pode coexistir com consideração. E um feedback pode conter firmeza e reconhecimento.

Uma relação não precisa ser permanentemente confortável, mas precisa oferecer experiências suficientes de confiança, dignidade e pertencimento para que o conflito não seja interpretado automaticamente como ameaça.


Engajamento

O engajamento acontece quando conseguimos mobilizar nossas capacidades em atividades que nos desafiam e fazem sentido.

No trabalho, uma comunicação marcada por controle excessivo, críticas constantes ou ambiguidade pode reduzir o envolvimento.

A pessoa deixa de colocar sua inteligência e criatividade na atividade e passa a usar sua energia para se proteger.

Em contrapartida, quando existe clareza, reconhecimento e espaço para contribuição, a presença deixa de ser defensiva e pode se tornar inteira.


Relacionamentos

A Psicologia Positiva reconhece os relacionamentos como um dos pilares centrais do bem-estar.

Relações de qualidade envolvem apoio, respeito, confiança, reciprocidade e sensação de pertencimento. Pesquisas e formulações do campo destacam que vínculos positivos e apoio social contribuem significativamente para o florescimento humano.

Isso não significa relações sem tensão.

Uma relação madura é aquela em que o conflito não destrói necessariamente o vínculo.

É possível discordar e continuar respeitando, frustrar e continuar cuidando, estabelecer limites sem perder a dignidade e reconhecer um impacto negativo sem reduzir a pessoa inteira ao erro.


Sentido

O sentido surge quando percebemos que fazemos parte de algo que ultrapassa interesses imediatos.

No trabalho, ele pode estar ligado à contribuição, ao propósito, ao impacto social, aos valores ou à construção de um legado.

Quando a comunicação cotidiana contradiz os valores declarados pela organização, o sentido se rompe.

Não basta uma empresa afirmar que valoriza pessoas se as lideranças não permitem questionamentos.

Não basta falar em diversidade se determinadas vozes continuam sendo interrompidas.

E não basta defender inovação se o erro é punido com humilhação.

A comunicação é uma das formas pelas quais o propósito deixa de ser discurso e se torna experiência.


Realização

A realização envolve progresso, desenvolvimento, competência e conquista.

Mas, em relações marcadas por comparação, desqualificação ou falta de reconhecimento, as pessoas podem perder a capacidade de perceber o próprio avanço.

Especialmente entre mulheres, a realização pode ser acompanhada por culpa, autocrítica e sensação de que ainda não é suficiente.

Uma liderança que favorece o florescimento reconhece resultados, mas também ajuda as pessoas a reconhecerem capacidades, aprendizados e evolução.


Gostou do artigo?

Quer saber mais sobre como reconhecer mecanismos de defesa e transformá-los em possibilidades de crescimento? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Até a próxima!

Luciana Soares Passadori
https://www.passadori.com.br

Confira também: Cada Um Escuta com a História que Tem (parte I)

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Luciana Soares Passadori é mentora, coaching de desenvolvimento humano e facilitadora de autoliderança, liderança integral e liderança situacional. Possui vasta experiência no atendimento de grandes empresas para desenvolvimento de soluções em treinamentos comportamentais. Realizou a formação em Coaching Integrado – Coaching Executivo, Life Coaching pelo ICI Integrated Coaching Institute – Credenciado pelo ICF International Coach Federation, formação em DISC Profiler Solides e formação em Mentoria pela Enora Leader, formação em liderança feminina com Sally Helgesen. Criou e conduz, juntamente com Reinaldo Passadori, o curso Autoliderança Transformadora que tem um modelo de programa de autodesenvolvimento que potencializa as competências profissionais e pessoais. Advogada de formação, pós-graduada em Psicologia Transpessoal e especializada em Psicologia Forense. Iniciou sua jornada na carreira jurídica, onde atuou com Direito de Família por 12 anos. É Diretora estratégica do IVG, participa do comitê executivo do Programa Mentoria Colaborativa – Nós Por Elas do Instituto Vasselo Goldoni. E coautora do livro Mentores e suas histórias inspiradoras – Editora Leader.
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