O que cabe a mim, quando o outro não está disposto a escutar?
Falar com verdade exige coragem. Escutar com abertura também.
É talvez por isso que adiamos tantas conversas importantes. Sabemos o que precisamos dizer, ensaiamos mentalmente as palavras, imaginamos como o outro poderá reagir e, ainda assim, permanecemos em silêncio.
Às vezes, porque temos medo de ferir. Outras vezes, porque tememos perder a relação, o vínculo, o trabalho, a aprovação ou simplesmente porque não sabemos o que poderá acontecer depois que aquilo for dito.
E existe ainda uma situação mais delicada: quando finalmente encontramos coragem para falar e descobrimos que o outro não está disposto a escutar.
O que fazer quando a nossa verdade encontra resistência?
Uma conversa segura não significa que o outro necessariamente concordará conosco. Não significa que haverá compreensão imediata, que o conflito desaparecerá ou que sairemos da conversa com tudo resolvido.
Significa, antes de tudo, que existe espaço para que aquilo que precisa ser dito possa ser colocado com respeito, consciência e responsabilidade.
E isso depende de mais de uma pessoa.
Podemos cuidar da nossa forma de falar, escolher o momento, observar nossas emoções, assumir nossa parte, fazer perguntas, escutar genuinamente e evitar transformar uma conversa em acusação.
Ainda assim, não podemos controlar a disponibilidade do outro para escutar, e essa talvez seja uma das partes mais difíceis das relações.
Ensinaram-nos a acreditar que, se encontrarmos as palavras certas, conseguiremos chegar ao outro e que uma comunicação suficientemente clara será capaz de produzir compreensão.
Há pessoas que escutam para responder, e não para compreender, assim como relações em que qualquer manifestação de desconforto é recebida como crítica ou ambientes em que discordar é interpretado como deslealdade. Em outras situações, o poder, a autoridade, a manipulação ou a necessidade de ter razão acabam ocupando todo o espaço da conversa.
Nesses lugares, insistir indefinidamente para que o outro nos compreenda pode nos afastar de nós mesmos.
É aqui que a autoconsciência volta a nos encontrar.
Se eu já disse o que precisava dizer, com respeito e responsabilidade, o que ainda está sob meu controle?
Talvez não seja convencer, mas sustentar aquilo que percebi, estabelecer um limite, mudar a forma como me posiciono naquela relação e até reconhecer que determinada conversa não poderá acontecer enquanto o outro não estiver disponível para ela.
E talvez seja aceitar uma verdade difícil: nem toda relação está preparada para uma conversa segura.
Isso não significa desistir das pessoas, mas não abandonar a si mesmo na tentativa de ser escutado.
Existe uma diferença importante entre dialogar e insistir.
Dialogar pressupõe, de algum modo, a presença de dois sujeitos. Insistir pode nos colocar em um movimento de tentar obter do outro algo que ele não está disposto a oferecer ou não consegue oferecer.
E quando isso acontece repetidamente, talvez a pergunta deixe de ser:
“Como faço para o outro me entender?”
E passe a ser:
“O que preciso compreender sobre mim, sobre essa relação e sobre o limite que preciso estabelecer?”
Essa mudança de pergunta pode transformar muita coisa porque uma conversa segura também começa quando reconhecemos aquilo que não podemos controlar.
Não controlamos a reação, a interpretação, a disponibilidade nem a mudança do outro.
Controlamos, dentro dos limites humanos possíveis, a nossa presença, a nossa escolha e a nossa forma de nos posicionar, e assumimos a responsabilidade pelas consequências das nossas decisões.
Segurança não é ausência de desconforto; às vezes, estar seguro é justamente conseguir permanecer inteiro diante dele.
Dizer o que precisa ser dito sem violência, escutar sem se abandonar e reconhecer quando existe espaço para construir e quando é necessário colocar um limite.
Porque conversar com segurança não é garantir que o outro nos dará a resposta que desejamos, mas criar condições para que possamos estar em uma relação sem precisar desaparecer de nós mesmos.
E quando o outro não está disposto a escutar, talvez a conversa mais importante seja aquela que precisamos ter conosco mesmos.
O que você tem tentado explicar repetidamente a alguém que talvez não esteja disponível para escutar?
E o que mudaria se, em vez de buscar mais uma vez as palavras certas, você começasse a escutar aquilo que a própria relação já pode estar comunicando?
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre o que fazer quando o outro não está disposto a escutar e como se posicionar sem se abandonar? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até breve!
Angela Passadori
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