E Se Farmar Aura Virar um Esporte Olímpico? O Que o Fenômeno Diz Sobre as Gerações
Se você viu esse título aí em cima e resolveu ler esse artigo, já deve saber o que é uma competição de farmar aura. Se não sabe, até posso explicar, mas é melhor ver. É só buscar no Google e vários vídeos vão aparecer. E pode voltar aqui depois, com todos os seus preconceitos.
Por falar em preconceito, vamos pensar em adolescentes da década de 70. Se você se encaixa nesse perfil, pode ficar mais fácil de identificar. Você é adolescente, descobre uma banda nova, rock progressivo ou heavy metal, acha que é a melhor coisa do universo e resolve mostrar para os seus pais. E aí vem a decepção, quando apesar do seu entusiasmo, na primeira guitarra mais pesada, já pedem para você desligar a vitrola ou o toca-fitas, olhando para você com cara de preocupação, pensando onde foi que eles erraram.
Essa reação não é diferente da que enfrentam adolescentes de hoje, chegando em casa com um troféu conquistado em uma competição de farmar aura. Eles não devem conhecer Como Nossos Pais, música de Belchior mais conhecida na voz de Elis Regina, mas esse ciclo está descrito nessa letra.
As reações pelo país mostram isso.
Na cidade de Cametá, interior do Pará, um senhor que observava a competição de farmar aura perguntou se seria “essa geração que vai pagar” a aposentadoria dele; outro sugeriu que os jovens usassem o tempo livre para capinar um terreno. O caso mais extremo aconteceu em Cuiabá, onde o prefeito chegou a proibir a realização de um campeonato do tipo na cidade — e, ao ser questionado sobre o significado da expressão, respondeu não fazer ideia do que se tratava.
Para pesquisadores da área de comunicação, esses campeonatos representam uma busca do que sempre existiu: a vontade de experimentar o novo, de criar formas de pertencimento e de socializar fora das telas. O que é ótimo e estranhamente, o que todo pai quer que filhos e filhas façam, se afastem das telas. Mas para a maioria, essa não é a melhor forma. Esse incômodo de adultos é a repetição do padrão que se repete a cada geração. Afinal, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
Mudando de gênero musical, foi assim quando surgiu o rock’n’roll e Elvis Presley chegou a ser filmado apenas da cintura para cima em programas de TV por causa de seus movimentos de quadril, considerados obscenos pela geração adulta da época.
Aí, os que foram jovens nos anos 50, vendo o hip-hop dos anos 80, talvez tenham ficado escandalizados com os filhos ouvindo um gênero tratado como sinônimo de violência e marginalidade, ao mesmo tempo em que jogavam videogames apontados como causa de violência, isolamento social e baixo rendimento escolar. Ainda é visto assim, mas ao mesmo tempo é uma indústria bilionária, com competições de e-sports transmitidas para milhões de espectadores.
Como com nossos pais, o padrão se repete.
O novo comportamento é lido pela geração mais velha como sintoma de decadência, um passo atrás na evolução humana. E não como uma linguagem própria de um momento histórico e, aqui, ligado a um momento também tecnológico. Com o tempo, farmar aura pode até ser normalizado e ganhar reconhecimento formal. Ou pode só desaparecer, enquanto o julgamento adulto vai migrar para a próxima moda.
Esse ciclo de estranhamento entre gerações não fica só nas praças, entre adolescentes. Também aparece dentro das empresas, especialmente quando o assunto envolve algum tipo de inovação ou mudança de paradigma. É só ver o que acontece com as ações de diversidade e inclusão. Quantas vezes você já não ouviu de profissionais mais velhos comentários do tipo “no meu tempo a gente só trabalhava, e tudo funcionava muito bem” ou “isso é modismo, vai passar”, associando políticas de D&I a uma espécie de “campeonato de farmar aura corporativo”, com ações vistas como performáticas, feitas para aparecer nas redes sociais da empresa ou só para cumprir pautas da moda, sem gerar resultado prático.
O que uma geração não viveu na sua trajetória profissional costuma ser, de fato, visto como exagero ou frescura. E não como uma resposta a demandas reais de um mercado de trabalho mais diverso e conectado. Assim como o adulto que nunca “farmou aura” enxerga apenas poses sem sentido ou ridículas em uma praça, o gestor que nunca precisou lidar com pautas de representatividade pode enxergar apenas reuniões e relatórios em uma política de inclusão, sem perceber tudo que existe por trás dela.
Se a gente parar para pensar, o mais estranho deveria ser pessoas se incomodando com a forma como outras se divertem.
No caso de competições de farmar aura, como já foi com o rock, quem está de fora se coloca em uma posição de superioridade. Talvez se esquecendo até do seu próprio passado, mas tentando julgar o que vê a partir do seu gosto, o que nunca vai funcionar. Da mesma forma, quem olha para formas novas de gestão cede ao preconceito e se coloca em uma posição de superioridade. E não consegue ver a realidade de outras pessoas colocadas à margem pela falta dessas políticas.
Claro que reduzir toda essa discussão a “gente velha implicando com coisa de gente nova” seria tão simplista quanto ignorar que parte da resistência a essas pautas reproduz o mesmo tipo de estranhamento geracional discutido neste artigo. Mas tudo pode mudar.
Vamos pensar em uma mudança total, por exemplo. Se farmar aura não desaparecer e virar um esporte olímpico, como dizem que pode acontecer em breve com videogames, vai ter gente torcendo em frente da televisão e os medalhistas vão desfilar em carro aberto nas suas cidades. Pode parecer absurdo, mas nem tanto, se a gente pensar que ainda hoje, tem gente que não se conforma que bilhões parem para assistir mais de vinte homens adultos correndo atrás de uma bola por mais de uma hora. Tudo pode mudar e que bom que seja assim.
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Quer saber mais sobre como o fenômeno de farmar aura revela nossos preconceitos diante das novas gerações e até das mudanças dentro das empresas? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/
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