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Toda Carreira Precisa de uma Ítaca: Mas é a Odisseia que Determina Quem Chegará Até Ela

Planejamento de carreira não é controlar cada passo, mas saber para onde você quer ir. Descubra como escolhas, ambição, liderança, mentoria e mudanças de rota moldam sua trajetória profissional — e quem você se torna até chegar à sua Ítaca.

Planejamento de Carreira: O que Define Quem Você Se Torna? - Toda Carreira Precisa de uma Ítaca: A Odisseia que Define Quem Você Se Torna

Toda Carreira Precisa de uma Ítaca: Mas é a Odisseia que Determina Quem Chegará Até Ela

Mais de três mil anos depois de Homero contar a história de um homem tentando voltar para casa, Odisseu voltou a ocupar o imaginário de milhões de pessoas. Christopher Nolan levou A Odisseia ao cinema e trouxe novamente à cena uma das histórias mais antigas da humanidade: depois de lutar durante dez anos na Guerra de Troia, Odisseu inicia a viagem de volta para Ítaca, onde deixou sua mulher, Penélope, seu filho, Telêmaco, e seu reino.

Deveria ser apenas uma viagem de volta para casa, mas leva outros dez anos. No caminho surgem tempestades, monstros, deuses, tentações, perdas, escolhas erradas e consequências que Odisseu jamais poderia ter previsto quando deixou Troia. Talvez seja justamente por isso que essa história continue fazendo sentido tantos séculos depois.

Retire os ciclopes, as sereias e os deuses gregos e sobra algo muito próximo daquilo que acontece conosco ao longo da vida: sabemos mais ou menos onde queremos chegar, fazemos planos, escolhemos caminhos e então descobrimos que a realidade não recebeu uma cópia do nosso planejamento. No mundo corporativo não é muito diferente.


Qual é a sua Ítaca?

Quando começamos uma carreira, costumamos ter alguma ideia de destino. Queremos uma determinada posição, reconhecimento, independência financeira, liderar uma empresa, construir alguma coisa relevante. Os objetivos mudam ao longo dos anos, mas precisamos de algum lugar para onde caminhar. Ítaca representa isso.

O problema começa quando confundimos destino com trajetória. Passei boa parte da minha carreira em Finanças e, em determinado momento, provavelmente imaginava que continuar crescendo significaria ocupar posições financeiras cada vez maiores. A vida acabou me levando para a cadeira de CEO e abriu uma estrada que eu não havia desenhado daquela forma quando comecei. Olhando para trás, percebo que alguns dos acontecimentos mais importantes da minha trajetória não estavam no plano, e talvez isso aconteça com quase todo mundo.

Planejamento de carreira é importante. Direção é importante. Ambição também é. Mas existe uma diferença enorme entre ter uma direção e imaginar que conseguiremos controlar o caminho. Odisseu queria chegar a Ítaca. Quase nada do que aconteceu entre Troia e Ítaca estava em seus planos.


As sereias continuam cantando

Em um dos episódios mais conhecidos da Odisseia, Odisseu precisa passar pela ilha das sereias. Seu canto era irresistível: quem o ouvia perdia a capacidade de seguir viagem e caminhava para a própria destruição. Odisseu queria ouvi-las, mas sabia que não poderia confiar em si mesmo naquele momento. Mandou seus homens taparem os ouvidos com cera e pediu que o amarrassem ao mastro do navio. Por mais que implorasse para ser libertado, eles deveriam continuar navegando.

Sempre gostei dessa passagem porque ela fala menos sobre força de vontade do que sobre consciência dos próprios limites. O mundo corporativo também tem suas sereias. Status é uma delas, poder é outra. Há ainda o salário, o título no cartão, o escritório maior, a próxima promoção, o convite para participar de determinado círculo. Nada disso é necessariamente ruim. Eu quis crescer, aceitei desafios maiores e gostei das conquistas que vieram com eles.

O problema aparece quando deixamos de perguntar para onde estamos indo e começamos simplesmente a perseguir aquilo que está brilhando na nossa frente. Conheci executivos que conquistaram exatamente o cargo que desejavam e, algum tempo depois, descobriram que não queriam a vida que vinha junto com ele. Tinham chegado a algum lugar, mas já não tinham certeza de que aquela era sua Ítaca.


Inteligência também pode ser uma armadilha

Odisseu não é o herói mais forte da mitologia grega. Sua grande arma é a inteligência. É ele quem cria o estratagema do cavalo de Troia e encontra maneiras de escapar de situações aparentemente impossíveis. Sua astúcia o salva inúmeras vezes, mas existe um momento extraordinário em sua história que mostra como uma qualidade também pode se transformar em fraqueza.

Depois de escapar do ciclope Polifemo, Odisseu já está seguro em seu navio e poderia simplesmente partir. Mas não consegue. Quer que o ciclope saiba quem conseguiu derrotá-lo e revela seu nome. É um gesto de orgulho, e esse gesto provoca a ira de Poseidon, pai do ciclope, trazendo consequências terríveis para o restante da viagem.

Quantas vezes vemos algo semelhante dentro das organizações? A competência que levou alguém ao sucesso começa, lentamente, a produzir uma sensação perigosa de invulnerabilidade. O “eu sei fazer”, o “já passei por isso” e o “confie em mim” começam a ocupar o espaço que antes pertencia à curiosidade.

Em determinado estágio da carreira, competência técnica e experiência deixam de ser apenas vantagens. Se não houver cuidado, podem se transformar em filtros que impedem o executivo de ouvir, aprender e reconhecer que talvez não tenha todas as respostas.

Foi algo que precisei aprender quando passei de CFO para CEO. Em Finanças, eu havia construído boa parte da minha carreira dominando números, processos e análises. Como CEO, descobri rapidamente que muitas decisões importantes não cabiam em uma planilha. Pessoas, cultura e relações de poder dificilmente se deixam traduzir por fórmulas e, principalmente, o futuro nunca vem acompanhado de dados suficientes para eliminar a incerteza.

A experiência continua sendo valiosa. Mas chega um momento em que precisamos deixar de usá-la para provar que sabemos e começar a utilizá-la para fazer perguntas melhores.


Ninguém atravessa o mar sozinho

Existe outra dimensão da história de Odisseu que muitas vezes fica em segundo plano. Ele é o herói, mas nunca está realmente sozinho. Há companheiros, aliados, pessoas que o protegem, outras que o desafiam e algumas que o fazem enxergar aquilo que ele próprio não consegue perceber.

Talvez seja uma das grandes contradições da liderança. Quanto mais alto alguém chega dentro de uma organização, mais pessoas existem ao seu redor e menos pessoas existem com quem ele realmente pode conversar. A posição cria filtros. Algumas pessoas dizem aquilo que imaginam que o líder gostaria de ouvir, outras evitam contrariá-lo, certas dúvidas deixam de poder ser compartilhadas com a equipe e decisões importantes começam a ser tomadas em um espaço cada vez mais solitário.

Por isso sempre considerei importante ter pessoas diante das quais não precisamos representar o cargo. Alguém que possa discordar, fazer a pergunta desconfortável, perceber quando estamos prestes a seguir o canto das sereias ou simplesmente perguntar se temos certeza de que aquela ainda é a nossa Ítaca.

Talvez uma das funções mais importantes de um coach ou mentor seja justamente essa. Não decidir o rumo pelo outro, mas ajudá-lo a enxergar melhor o mar em que está navegando.


E quando finalmente chegamos?

Depois de vinte anos longe de casa, Odisseu finalmente retorna a Ítaca. Mas o homem que volta não é o mesmo que partiu, e essa talvez seja a parte da história que mais me interessa hoje.

Durante muitos anos, carreira significou para mim movimento: novas responsabilidades, empresas, desafios, posições, países e decisões. Como acontece com tantos executivos, boa parte da vida era medida pelo que ainda estava à frente. Até que chega um momento em que começamos a olhar também para trás, não por nostalgia, mas para entender o que fizemos com a viagem.

Uma carreira pode produzir cargos, patrimônio, histórias e um bom currículo. Tudo isso tem seu valor, mas pode produzir algo mais: repertório. Erros que agora evitamos, situações que aprendemos a reconhecer antes que se tornem problemas, decisões das quais nos orgulhamos e outras que, se pudéssemos voltar no tempo, tomaríamos de maneira diferente.

É curioso perceber que justamente aquilo que durante tantos anos acumulamos para avançar pode, em algum momento, ganhar mais sentido quando começa a ser compartilhado. Talvez por isso eu tenha encontrado na mentoria uma espécie de nova viagem.

Não se trata de entregar mapas prontos, porque depois de tantos anos navegando uma coisa que aprendi é que mapas envelhecem rapidamente. Trata-se de sentar ao lado de alguém que está atravessando seu próprio mar e ajudá-lo a enxergar um pouco mais longe.

No final, Homero talvez tenha escrito muito mais do que uma história sobre um homem tentando voltar para casa. Escreveu sobre aquilo que acontece conosco enquanto tentamos chegar a algum lugar. Todos precisamos de uma Ítaca, de ambição, direção e algum destino que faça valer a pena levantar as velas.

Mas, depois de muitos anos de viagem, começo a desconfiar que a pergunta mais importante não seja apenas

“Até onde você chegou?”

Talvez seja outra:

“Quem você se tornou durante o caminho?”

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Quer saber mais sobre como construir um planejamento de carreira com direção sem deixar que o destino faça você perder de vista quem está se tornando durante a jornada? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.

Walter Serer
https://walterserer.com.br
https://www.linkedin.com/in/walter-serer-86717b20/

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Walter Serer Author
Walter Serer possui extensa e sólida experiência executiva como CFO e CEO de empresas multinacionais de grande porte. Robusta formação em Finanças Corporativas adquirida na General Electric (graduado pelo Financial Management Program) onde atuou por 14 anos ocupando relevantes posições na área de Finanças e Administração. Atuou como CFO nas empresas TI Group, Valeo, Coldex Frigor e Black&Decker. Nos últimos 18 anos exerceu posição de CEO na Ingersoll Rand Brasil (2011-2014), Syncreon South America (2003-2010) e TI Group Latin America (1997-2003). Pós-graduado em Finanças pela FGV e graduado em Administração de Empresas pela (ESAN – PUC/SP).
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