
A Escuta Sob Ataque: Como a Crise da Atenção Está Afetando Nossas Relações
Faz muitos anos que pesquiso nossas limitações em termos de escuta. Costumo dizer que carregamos um hardware ancestral tentando dar conta de uma comunicação cada vez mais complexa.
Foi olhando para essas limitações humanas que compartilhei, ao longo dos anos, ferramentas e estratégias para criar condições para conversas mais fluidas e resolutivas. Acontece que algo mudou. Nossas limitações individuais estão sendo severamente agravadas por uma ameaça muito maior: a degradação do nosso ambiente atencional.
Cada vez mais a disputa da nossa atenção parece ser a maior competição do nosso tempo. Johann Hari, em Foco Roubado, formula um diagnóstico perturbador: nossa atenção não simplesmente piorou; ela está sendo sistematicamente capturada, fragmentada, fraturada e exaurida pelo ambiente em que vivemos. As palavras são deliberadamente violentas. Existe uma disputa econômica gigantesca para decidir onde colocaremos nossa atenção, nosso tempo e nossa consciência. E não se trata apenas do celular.
Attensity, livro-manifesto do movimento Friends of Attention, reforça a analogia com o fraturamento hidráulico do gás de xisto: uma extração agressiva, profunda e contínua de um recurso valioso. É uma boa imagem para a ferocidade com que nossa atenção vem sendo disputada — e para o quanto, individualmente, pode ser difícil resistir a ela. A partir daí, a questão deixa de ser apenas individual e passa a ser coletiva: que tipo de sociedade estamos construindo quando aquilo que merece nossa atenção passa cada vez mais a ser decidido por sistemas interessados em capturá-la?
Há um paradoxo curioso nisso tudo.
De acordo com Gérald Bronner em Apocalypse cognitive, em termos absolutos, nunca tivemos na história da humanidade tanto tempo liberado das tarefas básicas de sobrevivência. Trabalhamos menos que nossos antepassados e gastamos proporcionalmente menos tempo em atividades ligadas à subsistência. Criamos tecnologias para economizar tempo e terminamos com a sensação de possuir cada vez menos tempo.
Parece que o tempo que liberamos foi hackeado. Douglas Rushkoff descreve um presente digital no qual tentamos existir em diferentes lugares simultaneamente. Estamos numa reunião, mas também no WhatsApp. Conversando com alguém, mas acompanhando uma notificação. Não é simplesmente que temos pouco tempo; nosso presente foi fragmentado em vários presentes simultâneos. A densidade de eventos por minuto explode. Comprimimos o tempo.
Há ainda outra contradição que me interessa: enquanto quase tudo acelera, uma coisa não acelerou — a velocidade com que dois seres humanos conseguem falar e escutar um ao outro. Uma conversa continua acontecendo na mesma velocidade humana de milhares de anos atrás. Para mim, isso ajuda a explicar por que conversar começa, para algumas pessoas, a parecer algo “lento”, até a dar preguiça, diante da quantidade de estímulos e possibilidades disponíveis. Até a escuta começa a ser terceirizada para a inteligência artificial, como se resumir, compreender ou sugerir uma resposta pudesse substituir o trabalho humano de estar presente diante do outro.
A crise da atenção está se tornando uma crise da relação.
Não estamos apenas perdendo o foco; estamos perdendo disponibilidade para o outro. E, quando nossa atenção se fragmenta, diminui também nossa capacidade de permanecer diante de uma ideia diferente sem imediatamente classificá-la, rejeitá-la ou combatê-la. Empobrece nossa relação com a diversidade, nossa capacidade de tirar proveito das diferenças e pode produzir uma espécie de analfabetismo emocional e relacional em um momento em que mais precisamos de espírito crítico.
Por isso volto sempre à curiosidade: trocar argumentação por investigação, justificativa por pergunta, certeza por curiosidade. Mas fazer isso exige algo além de técnica. Exige coragem.
Coragem para escolher onde colocar nossa atenção enquanto milhares de estímulos tentam decidir por nós. Coragem para resistir à fratura permanente da atenção, como Ulisses diante do canto das sereias. E coragem para escutar aquilo que não queremos ouvir e, principalmente, para nos deixarmos afetar pelo outro. Porque escutar de verdade inclui admitir a possibilidade de mudar de opinião.
Como nos lembra Stephen Covey em Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, influentes são as pessoas influenciáveis: não porque aceitem qualquer argumento, e sim porque não têm medo de aprender e sabem transformar o conflito em negociação, em vez de confronto. Sabem suspender o ego e deixar coexistir várias visões antagonistas. Se encontram uma perspectiva melhor, evoluem e ganham tempo. Não precisam morrer abraçadas a uma ideia apenas porque um dia acreditaram nela. Para Covey, escutar não é apenas uma técnica para exercer influência; aceitar a influência do outro faz parte da própria escuta.
Gosto de concluir com Hartmut Rosa, autor da teoria sociológica da ressonância, pois amplia o problema.
Para ele, não é apenas a tecnologia que acelera. Quanto mais tentamos tornar o mundo disponível, imediato e controlável, maior o risco de produzir alienação: podemos estar conectados a cada vez mais coisas e, ao mesmo tempo, profundamente relacionados com cada vez menos.
Objetos, profissões, instituições, relacionamentos, ideias e comportamentos tornam-se obsoletos cada vez mais rapidamente.
Essa obsolescência para mim ressoa com uma questão de sustentabilidade. Um sistema movido permanentemente por novidade, substituição, aceleração e consumo não esgota apenas nossa atenção. Esgota pessoas, relações, recursos e ecossistemas. Para mim, a sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade da atenção estão intimamente ligadas: quanto de aceleração um sistema consegue suportar antes de começar a degradar aquilo que o mantém vivo?
Diante dessa disputa: seja você quem decide onde colocar a sua atenção. Porque, se não decidir, outros decidirão por você — e possa permanecer com essa estranha sensação de estar sempre correndo, sempre conectado, sempre informado e sempre sem tempo.
Inspirar antes de responder e desacelerar para escutar são maneiras de escolher onde colocamos nossa atenção, bem como de decidir que tipo de relação queremos manter com os outros e com o mundo. Em um mundo que acelera sem parar, escutar está se tornando um dos atos mais corajosos de resistência.
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Quer saber mais sobre como a crise da atenção está afetando suas relações e como você pode recuperar a qualidade da escuta e construir relações com mais presença? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Thomas BRIEU
https://www.linkedin.com/in/thomas-brieu/
https://www.instagram.com/thomasbrieu_/
Autor do livro “Escutatória” – Link: https://www.h1editora.com/produto/escutatoria-150183
Coautor do livro “Escute Expresse e Fale” – https://encurtador.com.br/31Vwa
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