
Entre Telas e Páginas: O Que Fazer para a Melhor Leitura!
Nunca tivemos acesso a tantos textos, pois são notícias, mensagens, artigos, relatórios, legendas e publicações que atravessam nossas telas diariamente. Ainda assim, a quantidade de palavras que lemos não revela, por si só, a qualidade da nossa compreensão.
É possível percorrer dezenas de páginas e, ao final, lembrar muito pouco. Também é possível ler um texto curto e sair dele com uma pergunta nova, uma conexão inesperada ou uma mudança de perspectiva. A diferença está menos no volume de palavras e mais na maneira como nos relacionamos com elas.
A leitura superficial busca capturar rapidamente uma informação, enquanto a leitura profunda, por outro lado, exige interpretar, fazer perguntas, estabelecer relações, perceber ambiguidades e conectar o que está escrito à própria experiência. Segundo reportagem da BBC News Brasil, esse modo de ler mobiliza processos associados ao pensamento analítico, à imaginação e à empatia (BBC NEWS BRASIL, 2021).
Em uma época marcada por notificações, rolagem contínua e múltiplas abas abertas, recuperar a capacidade de permanecer diante de um texto tornou-se um desafio ao desenvolvimento humano. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de compreender como nossos hábitos digitais influenciam nossa atenção, nossa memória e nossa capacidade de compreensão na leitura.
O cérebro leitor
A neurocientista Maryanne Wolf é uma das principais referências contemporâneas no estudo da leitura. Em suas obras, ela explica que ler não é uma capacidade biologicamente programada, como falar ou enxergar. A leitura é uma invenção cultural aprendida por meio da criação e da reorganização de circuitos cerebrais especializados (WOLF, 2008; WOLF, 2018).
Quando uma pessoa aprende a ler, o cérebro estabelece conexões entre regiões relacionadas à visão, à linguagem, ao pensamento e às emoções. Stanislas Dehaene também descreve a leitura como uma atividade que reutiliza circuitos originalmente associados ao reconhecimento visual e ao processamento da linguagem (DEHAENE, 2009). O cérebro humano tem grande capacidade de adaptação, mas essa adaptação depende de aprendizagem e prática continuada.
Isso significa que o cérebro leitor é plástico, pois ele se reorganiza de acordo com os hábitos que desenvolvemos. Se exercitamos a leitura atenta, a análise e a reflexão, fortalecemos essas competências. Se nos acostumarmos apenas a conteúdos breves, interrompidos e consumidos rapidamente, podemos nos tornar mais inclinados a procurar estímulos imediatos.
Wolf não afirma que a tecnologia destrói o cérebro. Seu alerta é mais cuidadoso, uma vez que para ela determinadas habilidades precisam ser praticadas para continuar ocupando espaço em nossa vida mental. Como observa a autora, o problema não está simplesmente no dispositivo utilizado, seja o papel ou seja a tela, mas nos hábitos de leitura que desenvolvemos a partir dele (WOLF, 2018).
O que é leitura profunda?
A leitura profunda começa quando deixamos de tratar o texto como um simples depósito de informações e passamos a construir um significado. Ao ler, nem tudo está explicitamente explicado, o que nos leva a deduzir intenções, causas, consequências e relações entre acontecimentos.
Um romance, por exemplo, pode não declarar que determinado personagem está com medo, mas seus movimentos, silêncios e escolhas permitem ao leitor chegar a essa conclusão. Isso se chama “inferência”. Outro elemento importante na leitura é a “analogia”. Comparamos uma ideia nova com algo que já conhecemos e, então, esse processo amplia a compreensão, porque transforma uma informação isolada em parte de uma rede de sentidos.
A leitura profunda também envolve o “pensamento crítico”. O leitor pode perguntar: Qual é a tese do autor? Quais as evidências apresentadas? Há pressupostos ocultos? O argumento considera outros pontos de vista? Em vez de aceitar o texto passivamente, o leitor efetivamente dialoga com o que lê.
Por fim, há a “empatia”. A ficção, em particular, pode nos colocar diante de experiências diferentes das nossas e, ao acompanhar os conflitos de personagens, somos convidados a imaginar sentimentos, contextos e escolhas que talvez não encontrássemos em nossa vida cotidiana. A leitura, assim, pode ampliar nossa capacidade de compreender outras pessoas e outras formas de existência (BBC NEWS BRASIL, 2021).
Para Daniel Willingham, compreender não significa apenas decodificar palavras. A compreensão depende de vocabulário, conhecimento prévio, memória de trabalho, atenção e capacidade de fazer inferências (WILLINGHAM, 2017). Ler profundamente, portanto, não significa apenas “ler mais devagar”, mas sim significa mobilizar diferentes recursos mentais para construir uma interpretação consistente.
Papel e tela: a comparação sem respostas simplistas
O debate sobre papel e tela costuma ser apresentado como a disputa entre dois lados. O livro seria sempre favorável à compreensão, enquanto o dispositivo digital seria necessariamente prejudicial. As pesquisas disponíveis não sustentam uma conclusão tão absoluta.
O estudo de Anne Mangen, Bente R. Walgermo e Kolbjørn Brønnick comparou a compreensão de textos lineares apresentados em papel e em computador. Os resultados indicaram, naquela amostra e nas condições específicas do experimento, desempenho superior dos estudantes que leram no papel (MANGEN; WALGEMO; BRØNNICK, 2013).
No entanto, isso não prova que o papel seja sempre melhor ou que as telas sejam inadequadas para qualquer tarefa.
A extensão do texto, a finalidade da leitura, a familiaridade com o dispositivo, o tempo disponível, a presença de distrações e a forma de avaliação podem influenciar os resultados. Por isso, o adequado é falar em diferenças possíveis entre suportes do que na superioridade universal de um deles.
Mangen também chama atenção para a dimensão espacial da leitura. No papel, as páginas oferecem referências relativamente estáveis, dado que sabemos onde uma passagem está localizada, percebemos quanto já avançamos e podemos retornar fisicamente a um trecho. Em telas, a rolagem pode tornar essa orientação menos operacional e dificultar a localização de determinadas informações (MANGEN, 2016).
Isso não torna a tela incapaz de sustentar a compreensão. Um texto digital pode ser lido com profundidade, especialmente quando o ambiente está livre de notificações, anúncios, hiperlinks e outras interrupções. O problema não é necessariamente a tela, mas a combinação entre o suporte e um modelo de consumo fragmentado.
Naomi Baron acrescenta uma dimensão comportamental ao debate. Muitos leitores reconhecem vantagens do papel para textos longos, mas continuam preferindo a tela por causa da portabilidade, do preço, da praticidade e do acesso imediato (BARON, 2015). Essa constatação é importante, já que nossas escolhas não dependem apenas do que favorece a compreensão, mas também das condições reais da vida cotidiana.
Assim, a questão não é escolher um suporte vencedor. O papel pode ser especialmente útil para leituras longas, analíticas e literárias, enquanto a tela pode ser adequada para localizar informações, acessar conteúdos, estudar com recursos interativos e ler em situações nas quais o livro físico não está disponível. O desafio é escolher o meio de acordo com a finalidade.
Atenção e compreensão: conhecimento, memória e tempo
A leitura profunda exige atenção, mas esse não é um recurso isolado, pois a leitura depende também do conhecimento que já possuímos. Quando encontramos um texto sobre algum assunto familiar, conseguimos reconhecer conceitos, antecipar relações e preencher lacunas. Quando o tema é completamente novo, podemos gastar grande parte da energia mental tentando compreender palavras e frases básicas.
Willingham afirma que o conhecimento prévio facilita a compreensão de novos conteúdos, criando uma base para análise, síntese e pensamento crítico (WILLINGHAM, 2017). A memória também é essencial, pois para acompanhar um argumento, precisamos manter na mente informações apresentadas anteriormente e relacioná-las ao que estamos lendo agora.
Em textos longos, o quesito memória significa lembrar personagens, conceitos, exemplos e mudanças de perspectiva. Dehaene (2009) mostra que a fluência na leitura é resultado de uma aprendizagem prolongada, em que o leitor experiente reconhece palavras e libera recursos mentais para interpretar e relacionar ideias.
Contudo, a fluência não elimina a necessidade de atenção, mas apenas torna alguns processos mais automáticos. O tempo é igualmente decisivo, pois muitas vezes precisamos interromper a leitura, voltar a um parágrafo, consultar um conceito ou mesmo reformular a ideia com nossas próprias palavras.
Pesquisas de Patrícia Alexander e Lauren Trakhman discutem a diferença entre a sensação subjetiva de fluidez e a compreensão efetivamente demonstrada em avaliações (SINGER TRAKHMAN; ALEXANDER, 2017). Ler rapidamente pode produzir a impressão de facilidade, sem garantir bom desempenho quando uma reflexão for exigida. A leitura profunda não busca apenas terminar o texto, mas garantir que o texto permaneça em nós.
Aplicação prática: como cultivar a leitura profunda
Podemos treinar a leitura profunda por meio de práticas simples e intencionais:
- Reserve sessões sem notificações: Coloque o celular no modo silencioso ou fora do alcance. Reduzir interrupções é mais eficaz do que confiar apenas na força de vontade;
- Escolha textos longos: Dedique alguns minutos diários a um capítulo, ensaio, reportagem extensa ou conto. A permanência diante de textos complexos precisa ser exercitada gradualmente;
- Faça anotações: Registre perguntas, conceitos principais, discordâncias e conexões com outras experiências;
- Releia trechos importantes: A releitura não representa fracasso, mas sim uma ferramenta para aprofundar a interpretação;
- Resuma com suas próprias palavras: Depois de uma seção de leitura, tente explicar a si mesmo o que entendeu sem consultar o texto;
- Alterne conscientemente entre papel e tela: Use o dispositivo para buscas rápidas ou leituras breves, mas prefira um ambiente mais protegido de distrações para textos complexos;
- Construa repertório: Leia sobre assuntos variados, pois quanto maior o conhecimento prévio, mais facilmente você compreenderá conteúdos novos;
- Observe a própria compreensão: Pergunte a si mesmo se está realmente entendendo ou apenas avançando rapidamente pelas linhas.
Como mostra Baron (2015), a leitura digital muitas vezes é escolhida por razões práticas. Portanto, cultivar a leitura profunda exige criar condições concretas como reservar tempo, desligar notificações, selecionar textos e definir objetivos.
Conclusão: uma melhor relação com a leitura
A leitura não precisa se transformar em uma escolha excludente entre o livro impresso e a tela. A proposta mais promissora é desenvolver um cérebro “biletrado”, capaz de transitar entre diferentes meios e escolher conscientemente o suporte mais adequado a cada objetivo (WOLF, 2018).
No contexto de vida atual, a dificuldade de ler profundamente não está relacionada apenas às características da tela, mas também à combinação entre excesso de informação, tempo escasso e pressão permanente por desempenho. A leitura compete com notificações, mensagens, reuniões, alertas e demandas profissionais que fragmentam a atenção.
Assim, a sensação de estar sempre informado pode coexistir com uma compreensão cada vez mais superficial. Como observa Wolf (2018), o cérebro leitor se adapta aos hábitos que praticamos e, por essa razão, a exposição contínua a conteúdos breves e interrompidos pode reduzir nossa disposição para permanecer diante de textos complexos e ambíguos.
Essa dinâmica também pode aumentar a percepção de cansaço cognitivo. Não se deve afirmar que a leitura profunda, por si só, previne ou trata o burnout, mas é possível entendê-la como uma prática de autorregulação da atenção. Para Willingham (2017), compreender exige memória de trabalho, conhecimento prévio, vocabulário e concentração. Quando esses recursos são constantemente interrompidos, o esforço necessário para acompanhar uma ideia ou proposição tende a aumentar.
Reservar períodos protegidos para uma única tarefa — inclusive a leitura — pode ajudar a interromper temporariamente a lógica da urgência e substituir a reação contínua por uma atividade mental deliberada.
Nesse cenário, a leitura profunda não deve ser apresentada como mais uma exigência de produtividade, mas pode ser compreendida como uma escolha consciente sobre o modo de usar a atenção.
Ler mais páginas, mais rapidamente, não significa necessariamente ler melhor. Em alguns momentos, será adequado localizar uma informação na tela, enquanto em outros será necessário desligar estímulos, reduzir o ritmo, fazer anotações e aceitar que compreender exige tempo. O essencial é saber escolher quando acelerar, quando pausar e quando manter a concentração (WOLF, 2018; WILLINGHAM, 2017).
Ler uma notícia no celular, estudar em um tablet, consultar uma referência digital ou mergulhar em um romance impresso são experiências legítimas. O que faz diferença é saber quando estamos apenas apurando informação e quando precisamos compreender, avaliar e transformar aquilo que lemos.
Em um mundo acelerado, a leitura profunda é uma forma de presença. Ela nos ensina a permanecer diante da complexidade, tolerar a demora, reconhecer nuances e imaginar a perspectiva de outra pessoa. A pergunta essencial talvez não seja “papel ou tela?”, mas: que tipo de leitura esta situação exige e estou criando as condições para realizá-la?
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Mario Divo
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Referências SINGER TRAKHMAN, Lauren M.; ALEXANDER, Patricia A. Reading across mediums: effects of reading digital and print texts on comprehension and calibration. The Journal of Experimental Education, v. 85, n. 1, p. 155-172, 2017.. BARON, Naomi S. Words onscreen: the fate of reading in a digital world. New York: Oxford University Press, 2015. BBC NEWS BRASIL. O que é a leitura profunda e por que ela faz bem para o cérebro. BBC News Brasil, 1 nov. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-59121175. Acesso em: 19 ago. 2026. DEHAENE, Stanislas. Reading in the brain: the new science of how we read. New York: Viking, 2009. MANGEN, Anne. The evolution of reading in the age of digitisation: an integrative framework for reading research. June 2016Literacy 50(3):116-124 (DOI:10.1111/lit.12086) MANGEN, Anne; WALGEMO, Bente R.; BRØNNICK, Kolbjørn. Reading linear texts on paper versus computer screen: effects on reading comprehension. International Journal of Educational Research, 2013. WILLINGHAM, Daniel T. The reading mind: a cognitive approach to understanding how the mind reads. San Francisco: Jossey-Bass, 2017. WOLF, Maryanne. Proust and the squid: the story and science of the reading brain. New York: HarperCollins, 2008. WOLF, Maryanne. Reader, come home: the reading brain in a digital world. New York: HarperCollins, 2018.
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