O Caminho de Todos Nós e Seus Descaminhos
Como Sair do Modo Automático e Recuperar o Propósito em Meio à Cultura da Urgência
Me veio à memória, um fato cotidiano que me fez refletir sobre urgência e uma aparente ambiguidade. Num determinado dia, estava caminhando por uma rua que tem um fluxo intenso de carros indo e vindo fazendo esse trajeto com aceleração além da conta, sirenes de ambulâncias, polícias e bombeiros aos montes, gritos de motoristas reclamando de manobras bruscas de outros condutores, muita fumaça, ar carregado, etc. Cenas comuns de uma metrópole com as quais nos acostumamos e convivemos a muito tempo.
Mas num determinado dia e num determinado momento desse mesmo dia, dentro de um horário mais para madrugada que para manhã, me deparei com uma situação um tanto diferente. Era um dia de feriado local, e eu estava indo para o meu trabalho noutra localidade cujo expediente seria normal.
De imediato, percebi um silêncio atípico, uma quietude que chegava até a causar estranheza, dada a normalidade com que diuturnamente era assenhorado todas as manhãs. E o que mais me chamou à atenção, foi o fato de que se tratava da mesma rua de todo o dia. O locus era exatamente o mesmo, sem qualquer distinção recebendo o sol, a chuva e os ventos, da mesma maneira. Toda via, o silêncio imperava, diante da ausência de carros e transeuntes naquele horário.
Não havia gritos, sirenes, palavras de baixo calão sendo disparadas… O silêncio era praticamente absoluto. Ouvia-se, agora, outros sons quase imperceptíveis, como o canto de pássaros, o vento passando entre as folhagens das árvores que ladeavam as marginais, o barulho de águas de rios próximos, tudo isto emoldurando o raiar de um novo dia que ia sendo construído instante após instante.
O fluxo de um trânsito caótico se ausentou, dando lugar à vida e a um colorido escondido entre fumaças e cenas de tráfego tresloucado.
Mas veja! Na mesma rua, se fez presente a dicotomia entre um caos e um Éden. Nada nesse novo cenário, seria capaz de invocar o cotidiano passado de alguém que não o conhecesse. Inevitável a pergunta. Por que deixamos esse paraíso ser oculto de nossos olhos e outras sensações? A mesma coisa aconteceu durante a pandemia da Covid. O mundo progressista industrial parou por cerca de dois meses e a natureza respondeu com mais vida. Populações de peixes, aves, mamíferos e toda uma fauna e flora irrompeu. Seres silvestres a muito afastados dos grandes centros, começaram a circular pelas ruas sem qualquer incômodo. A vida pediu passagem e simplesmente aconteceu. Como chegamos a isso?
Tempos atrás, alguém montou um acróstico em inglês denominando-o como V.U.C.A., tentando explicar esse momento atual da sociedade. A letra “v”, identifica a “volatilidade” (velocidade da mudança), o “u”, define a incerteza do momento (falta de clareza sobre o tempo presente), o “c”, aponta para a complexidade de hoje (muitas variáveis de decisão) e a letra “a”, a “ambiguidade” dos nossos dias (falta de clareza sobre o significado dos eventos). Em outras palavras, o mundo inteiro se perdeu, as referências foram extintas e cada um criou o seu próprio caminho ou foi se auto extinguindo dentro dessa desorientação.
Esta seria a razão de vivermos no atual contexto dentro do “modo automático” e sem qualquer significação ou propósito de vida.
Por isso, faz-se necessário um “feriado” atemporal em nossa rotina, a fim de que retomemos as rédeas da vida, recobrando o nosso valor individual e todo potencial de mudanças inatas dentro de cada um de nós a fim de buscarmos melhores condições de viver e pararmos de “sobreviver”.
O V.U.C.A. dentro das empresas
Se no plano urbano o caos se impõe pela pressa, nas empresas ele costuma aparecer sob outras formas: metas agressivas, excesso de reuniões, comunicação truncada, bem como o medo de errar e uma cultura de urgência permanente. Nesse cenário, muitos profissionais passam a operar no “modo automático”, entregando assim tarefas sem tempo para refletir, criar, cooperar ou sequer perceber o sentido do que fazem.
É aqui que a lógica do V.U.C.A. deixa de ser apenas uma leitura do mundo externo e passa a ser também um diagnóstico organizacional. Empresas voláteis, incertas, complexas e ambíguas não podem ser administradas apenas com controle rígido; precisam de liderança capaz de dar direção, escuta e principalmente clareza.
O que as empresas podem fazer
Na prática, a primeira mudança é reconhecer que produtividade não se resume a velocidade. Organizações saudáveis criam espaços de pausa estratégica, revisão de processos e alinhamento de prioridades, porque sabem que funcionários exaustos pensam pior, erram mais e se conectam menos com os objetivos institucionais.
Algumas medidas concretas incluem:
- Revisar a cultura da urgência, distinguindo o que é realmente prioritário do que é apenas barulho operacional;
- Reduzir ruídos de comunicação, com mensagens objetivas, metas claras e papéis bem definidos;
- Incentivar momentos de reflexão coletiva, como reuniões de retrospectiva, escuta ativa e avaliação de resultados;
- Valorizar o bem-estar como ativo de gestão, e não como benefício acessório;
- Promover lideranças que orientem com propósito, em vez de apenas cobrar desempenho.
O papel dos funcionários
Para os funcionários, essa reflexão também é valiosa. Em ambientes de alta pressão, o profissional precisa aprender a reconhecer os sinais de desgaste, estabelecer limites e buscar uma relação mais consciente com o trabalho. Isso não significa reduzir compromisso, mas evitar que a rotina engula a autonomia, a saúde mental e a capacidade de decisão.
Na prática, isso pode significar organizar melhor o tempo, recusar a lógica da disponibilidade ininterrupta, registrar prioridades com mais clareza e pedir alinhamento sempre que houver ambiguidade. Funcionários que conseguem sair do automatismo tendem a produzir com mais qualidade, mais criatividade e maior senso de pertencimento.
Um “feriado” interno
A imagem do “feriado atemporal” é especialmente significativa para o mundo corporativo. Ela não sugere inércia, mas um intervalo simbólico para que pessoas e empresas reaprendam a olhar, ouvir e escolher com mais consciência. Em termos organizacionais, esse feriado interno pode ser traduzido como pausa para reavaliar rotas, desapegar de práticas obsoletas e, além disso, recuperar o sentido do trabalho.
Talvez a maior lição seja esta: uma empresa não se sustenta apenas por processos, indicadores e metas, mas pela capacidade de manter viva a humanidade de quem a compõe. Quando isso se perde, o caos deixa de ser exceção e passa a ser método, e nessa condição, a natureza humana juntamente com a vida sobre a terra, sucumbi sob os sons incessantes e gravosos das ruas de nossas vidas.
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Quer saber mais sobre como sair do modo automático, recuperar o propósito e transformar a cultura da urgência em escolhas mais conscientes? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Acácio Lima dos Santos
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