
A Fé que Permanece Quando Tudo Parece Vacilar
Querido leitor,
Há momentos na vida em que sentimos nossa fé diminuir.
Mas quem já se viu guiado pela fé em algum momento desafiador não deixa de acreditar; apenas se distrai diante do barulho da vida. As preocupações ocupam espaço, as perdas nos visitam, os planos mudam de direção e, então, começamos a imaginar que a fé também oscila na mesma intensidade dos acontecimentos.
Mas será que ela realmente oscila?
Essa pergunta me acompanha há algum tempo. Quanto mais estudo diferentes tradições filosóficas e espirituais, mais percebo algo em comum entre elas: existe, dentro de cada ser humano, um lugar que permanece inteiro. Um espaço que não envelhece, não se rompe e não depende das circunstâncias para existir.
É desse lugar que se experimenta a verdadeira fé.
Quando confundimos nossa essência com aquilo que sentimos no momento, acreditamos que somos nossas dúvidas, nossos medos e nossas inseguranças. Passamos a medir nossa vida espiritual pela intensidade das emoções.
Mas as emoções mudam, assim como os pensamentos e as circunstâncias.
Acontece que a essência sempre permanece.
Essa compreensão muda completamente a maneira como olhamos para nós mesmos diante das oscilações da vida.
Imagine um lago.
Quando venta, sua superfície se agita. As ondas surgem, a água parece perder a tranquilidade. No entanto, alguns metros abaixo, tudo continua silencioso. A profundidade do lago não participa da tempestade que acontece na superfície.
Nossa mente se parece muito com essa superfície.
Ela cria cenários, interpreta acontecimentos, produz medos, expectativas e preocupações. É natural que faça isso. O problema começa quando acreditamos que somos essas ondas.
Não somos.
Existe em nós um observador silencioso que permanece presente enquanto tudo acontece.
Acredito que a maturidade espiritual seja justamente aprender a reconhecer essa diferença.
Outro aspecto que merece nossa atenção é a facilidade com que nos deixamos seduzir pelas aparências.
Vivemos cercados por formas, títulos, rituais, regras e símbolos. Tudo isso pode ter seu valor, desde que não substitua a experiência interior.
É como olhar um espelho coberto por um véu. Durante algum tempo, podemos imaginar que o tecido seja a realidade. Mas o espelho continua inteiro atrás dele, mesmo que não o enxerguemos.
A espiritualidade também corre esse risco.
Às vezes, nos preocupamos tanto em ser espirituais que esquecemos que já somos. Esquecemos de viver com presença, gentileza e coerência.
A forma é importante, mas ela nunca é o destino.
Existe, ainda, um elemento quase esquecido na vida contemporânea: o silêncio.
Vivemos cercados por notificações, opiniões, conteúdos e estímulos. O excesso de informação nos fez acreditar que toda resposta precisa chegar por meio de mais conhecimento.
Nem sempre. Ou melhor, nem sempre de um tipo de conhecimento que aprendemos a buscar. O verdadeiro conhecimento não se aprende, se recorda. Mas, para recordá-lo, o silêncio, que revela a essência, o Eu Sou acima de qualquer coisa, precisa ganhar abrangência em nós.
Existem respostas que aparecem com naturalidade quando diminuímos o volume do mundo. Porque elas sempre estiveram ali; nós é que perdemos o jeito de interpretá-las.
Pense na casa depois de uma tempestade.
Quando o vento finalmente cessa, começamos a ouvir sons que antes estavam escondidos: o canto dos pássaros, o movimento das folhas, a própria respiração.
Com a vida interior acontece o mesmo. O silêncio não é vazio, mas um espaço onde voltamos a escutar aquilo que sempre esteve presente.
Também é curioso perceber como buscamos experiências extraordinárias para fortalecer a fé, quando, na verdade, ela costuma crescer por meio das pequenas escolhas repetidas todos os dias.
A água não esculpe uma rocha pela força de uma única gota.
Ela a transforma pela constância.
É a conversa sincera, a oração feita sem pressa, a respiração consciente, o gesto de gentileza, o perdão oferecido mais uma vez, a gratidão lembrada em um dia comum.
A espiritualidade ganha muito mais forma nos pequenos hábitos que escolhemos cultivar.
Outro aprendizado importante é desenvolver discernimento.
Nem tudo o que passa pela mente merece permanecer dentro dela.
Pensamentos aparecem o tempo todo, mas a maioria deles reflete medo, ansiedade ou antigas histórias que ainda carregamos.
Discernir é agir como um ourives diante de uma peneira.
A areia passa, mas o ouro permanece.
Existe uma sabedoria silenciosa que aprende, aos poucos, a reconhecer aquilo que nos aproxima da paz e aquilo que apenas alimenta a nossa inquietação.
E então chegamos à confiança.
Mas não a um tipo de confiança que depende de garantias. Refiro-me àquela confiança que continua caminhando mesmo quando ainda não consegue enxergar todo o percurso.
Uma semente enterrada na terra escura não vê o sol.
Ainda assim, cresce na direção dele.
Ela não possui provas, mas uma natureza que a impulsiona.
Acredito que essa seja a imagem mais bonita da fé.
Confiar não significa eliminar todas as dúvidas, mas não permitir que elas decidam o rumo da caminhada.
No fim, toda essa jornada desemboca em uma pergunta muito simples: Como essa espiritualidade aparece na forma como vivo?
Porque o verdadeiro propósito nunca é defender uma filosofia.
É encarná-la.
Nós encontramos nosso caminho quando existe coerência entre aquilo que acreditamos, aquilo que sentimos e aquilo que fazemos.
A fé não surge quando tudo está bem. Ela apenas se torna visível.
Porque, no fundo, sempre esteve ali. Silenciosa. Inteira. Esperando apenas que voltássemos para casa.
Inspirado em ensinamentos da tradição védica, especialmente nos conceitos de Atman, Maya, Mauna, Vrittis, Prana, Sadhana, Viveka, Shraddha e Dharma, reinterpretados à luz do desenvolvimento humano e da experiência cotidiana.
Se esta reflexão fez sentido para você, convido-o a continuar essa jornada comigo pelo Instagram: @shirleybrandaooficial.
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre como fortalecer a fé e permanecer sereno mesmo quando as circunstâncias da vida parecem abalar suas certezas? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Com carinho,
Shirley Brandão
Mentora em Desenvolvimento Humano há 37 anos · Terapeuta e Mentora do Método Louise Hay
https://shirleybrandao.com.br/
@shirleybrandaooficial
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