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É normal o retrocesso avançar? Quando conquistas deixam de ser permanentes

Descubra como o narcisismo na liderança afeta decisões, cultura organizacional e resultados, criando ambientes de medo, distorcendo a realidade e colocando em risco a reputação de empresas e líderes.

É normal o retrocesso avançar? Quando conquistas deixam de ser permanentes

Não sei se normal é bem a palavra, mas a História está cheia de exemplos, mostrando que tudo pode mudar, sempre.

Na escola, a gente estuda a história a partir de um olhar onde os “bárbaros” eram sempre os não-europeus, e países como França, Inglaterra e Alemanha aparecem como modelos de civilização. O problema é que essa é a versão dos vencedores, como sempre. Autores como David Graeber deixam claro que, por muito tempo, a Europa era vista pelo resto do mundo como uma região atrasada, com muita guerra e pouca higiene, um lugar onde a superstição matava muito, queimando muita gente na fogueira.

Ao mesmo tempo, o mundo árabe avançava em medicina, arquitetura e matemática; o Japão possuía cidades densas e organizadas; civilizações maias e incas desenvolveram engenharia urbana sofisticada; e grandes impérios africanos também possuíam redes comerciais e culturas complexas, frequentemente com forte valorização da higiene e da vida urbana.

O que a Europa desenvolveu de diferente foi a capacidade militar e naval que permitiu conquistar territórios, subjugar povos e depois recontar a história como se o domínio fosse prova de mérito cultural.

Só para ficar em um exemplo, no que hoje é a Andaluzia, na época Al-Andalus, especialmente entre os séculos VIII e XV, cidades como Córdoba, Sevilha e Granada eram as mais sofisticadas da Europa medieval, enquanto o mau cheiro de Londres se espalhava por quilômetros. O melhor exemplo eram os hammams, banhos públicos com salas frias, mornas e quentes, ligados à higiene, saúde e convivência social.

Depois da reconquista cristã, o atraso foi enorme, porque eram cidades que contavam com ruas organizadas, sistemas hidráulicos avançados e arquitetura adaptada ao clima. Os avanços também incluíram medicina, filosofia, agricultura e circulação de conhecimento.

Técnicas de irrigação ampliaram a produção agrícola, e bibliotecas e centros de tradução preservaram os clássicos gregos. Com o avanço da Reconquista e a imposição de uma só religião, esse ambiente foi desarticulado e alguns avanços só voltariam séculos depois.

E o que isso tem a ver com o nosso mundo de hoje, além do fato de que a nossa visão de mundo é sempre manipulada? É que durante muito tempo, a gente achou que os avanços sociais seriam irreversíveis, mas os que a História mostra é que progresso não é permanente. Sociedades podem avançar por séculos e regredir em poucos anos quando intolerância, autoritarismo ou fanatismo se aliam a quem tem o poder militar nas mãos.

Não só militar, claro. Para ir direto ao ponto, com o caso que melhor exemplifica esse retrocesso nos nossos dias, a revogação de Roe v. Wade mostra como direitos conquistados podem ser revertidos. Durante quase cinquenta anos, essa decisão garantia proteção constitucional ao direito ao aborto nos Estados Unidos. Em 2022, ela foi derrubada, devolvendo aos estados o poder de proibir ou restringir o procedimento. O que veio a partir daí foi o caos.

Milhões de mulheres perderam autonomia reprodutiva dependendo do estado onde vivem. Para quem achava que direitos estabelecidos estariam definitivamente protegidos, essa foi a prova de que não é bem assim.

Nas últimas duas décadas, empresas, universidades e governos adotaram políticas de diversidade, equidade e inclusão. Essas iniciativas buscavam corrigir desigualdades e ampliar oportunidades, mas a reação conservadora veio forte e organizada. E tem sido bem eficiente em alguns campos.

Nos Estados Unidos, a administração Trump 2 elegeu como alvo o combate às políticas de diversidade. Ordens executivas e ações administrativas passaram a restringir esses programas em contratos federais, obrigando empresas privadas a reverem suas práticas.

Grandes corporações começaram a reduzir metas públicas de diversidade ou a esvaziar departamentos dedicados ao tema. Segundo a Reuters, um levantamento mostrou que só 53% de quase 3 mil empresas globais ainda mantêm metas públicas de diversidade. E esse número está caindo, o que mostra que o mercado se adapta muito rápido às inclinações do dono do poder.

Mas ainda tem mais: tem aumentado muito o crescimento entre jovens, de adesão ao catolicismo, com um viés conservador. Claro que a religiosidade em si não é ameaça para direitos. Quer dizer… Bom, o problema surge quando ela se associa a projetos políticos regressivos, como a defesa explícita do patriarcado e da submissão das mulheres, um caminho que muitos grupos estão tomando, falando até de fim do voto feminino.

Esse direito, nos Estados Unidos, é coisa de pouco mais de cem anos.  Dizer que o país é o grande modelo de democracia é mais mito que realidade, porque no seu início, só homens brancos, proprietários de terras, podiam votar. Precisou uma 19ª emenda à Constituição para garantir esse direito às mulheres, em 1920, pouco mais de 100 anos atrás. No Brasil, foi só na Constituição de 1934.

Ou seja, um direito recente, colocado em xeque, por grupos que defendem “um voto por família”, exercido pelo homem considerado chefe do lar. É o patriarcado bíblico, onde o homem decide tudo, ideia que a gente encontra também aqui no Brasil, em algumas igrejas neopentecostais.

E ainda tem a indústria da “masculinidade restauradora”, que só cresce: cursos, coaches, influenciadores e celebridades, como Juliano Cazarré, que prometem devolver ao homem um espaço supostamente perdido para mulheres, movimentos LGBTQIA+ e transformações sociais. O documentário Dentro da Machosfera, de Louis Theroux, disponível na Netflix, é um filme de terror nesse sentido, mostrando como esse discurso mobiliza jovens em diversos países, muitas vezes já desvinculado da religião.

Claro que todo mundo tem direito à opinião, mas nenhuma conquista é para sempre. Direitos das mulheres, combate ao racismo, proteção a minorias e igualdade de oportunidades podem perder espaço a qualquer momento, por isso, dependem de defesa constante. O que pode parecer só um comentário em um programa de televisão, onde se diz que uma mulher trans não é uma mulher, no país onde a transfobia mais mata em todo o mundo, é um incentivo para a violência.

Dizer que homens estão perdendo espaço, em um país onde o feminicídio mata 4 mulheres por dia, também. A pergunta não é se o retrocesso é possível, mas se a reação da sociedade vai ter força para impedir esse avanço.

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Quer saber mais sobre como conquistas sociais e direitos considerados permanentes podem ser fragilizados quando a sociedade deixa de defendê-los ativamente? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em conversar a respeito.

Marco Ornellas
https://www.ornellas.com.br/

Marco Ornellas é Psicólogo, Master of Science in Behavior pela California American University e Mestre em Biologia-Cultural pela Universidad Mayor do Chile e Escuela Matrizstica. Pós em Neurociência e o Futuro Sustentado de Pessoas e Organizações.Consultor, Coach, Designer Organizacional, Palestrante e Facilitador de Grupos e Workshops em temas como Liderança, Complexidade, Gestão, Desenvolvimento de Equipes, Inovação e Consultor em Design da Cultura Organizacional.Autor dos Livros: DesigneRHs para um Novo Mundo, Uma nova (des)ordem organizacional e Ensaios por uma Organização Consciente.CEO da Ornellas Consulting e Ornellas Academy.
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