
Desenrola Brasil 2.0: estamos tratando o efeito, enquanto a causa continua sendo ignorada
O Governo Federal lança mais uma fase do programa de renegociação de dívidas, o Desenrola Brasil 2.0. E eu começo esta reflexão de forma direta: seguimos tratando o efeito do problema, enquanto a causa continua sendo ignorada.
Não me surpreende que esse seja o caminho adotado. Hoje, temos mais de 100 milhões de brasileiros endividados, o que gera uma pressão social enorme por soluções rápidas. O Desenrola 2.0 surge, então, como uma resposta a essa demanda, ampliando seu alcance e atuando em diferentes frentes da economia.
O programa vai além das pessoas físicas e passa a incluir produtores rurais, estudantes com dívidas do FIES e micro e pequenas empresas. Tem objetivos claros: reduzir a inadimplência, facilitar o acesso ao crédito, estimular o consumo e reaquecer a economia. No papel, é uma iniciativa robusta. Na prática, exige cautela.
Quando analisamos o Desenrola Família, que é a base do programa, vemos condições que chamam atenção: juros limitados a cerca de 1,99% ao mês, descontos que podem chegar a 90% e a possibilidade de utilizar até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas.
À primeira vista, parece uma excelente oportunidade. Mas é justamente aqui que mora o risco.
Existe uma narrativa de que 1,99% ao mês é um juro baixo. Não é. No longo prazo, esse custo continua sendo elevado, principalmente para quem já está em situação de fragilidade financeira.
Outro ponto que me preocupa profundamente é o uso do FGTS. Estamos falando da principal — e muitas vezes única — reserva financeira do trabalhador brasileiro. Ao permitir que esse recurso seja utilizado para pagar dívidas, estamos trocando uma segurança futura por um alívio imediato.
E mais: existe um desalinhamento claro nessa decisão. O trabalhador utiliza um recurso que rende pouco para quitar uma dívida que, mesmo renegociada, ainda carrega juros relevantes. Isso não é uma escolha equilibrada quando não vem acompanhada de mudança de comportamento.
Mas o ponto central da minha análise é outro. A dívida não é o problema. A dívida é a consequência.
O verdadeiro problema está no comportamento financeiro. Está na falta de organização, na ausência de planejamento, na inexistência de uma educação do comportamento financeiro estruturada no país.
Hoje, muitas famílias utilizam o crédito como extensão da renda. Não porque querem, mas porque precisam. Vivemos uma realidade de perda do poder de compra, em que os reajustes salariais giram em torno de 5%, enquanto o custo de vida cresce próximo de 20%. Sem orientação, o crédito passa a ser a única alternativa — e também o maior risco.
O que o Desenrola 2.0 faz é reorganizar a dívida, mas não reorganizar a vida financeira. É como dar uma solução imediata para um problema que exige tratamento profundo. O sintoma pode até diminuir, mas a causa permanece.
Outro ponto que merece reflexão é a tentativa de incluir um componente comportamental no programa, como a restrição ao acesso a apostas. Isso é insuficiente. Se o próprio governo reconhece que o comportamento impacta o endividamento, por que não estruturar um programa nacional de educação financeira?
Sem esse pilar, o que tende a acontecer é algo que já vimos diversas vezes: a pessoa renegocia a dívida, limpa o nome, volta a ter acesso ao crédito e, em pouco tempo, retorna ao endividamento. Isso não é solução. É adiamento do problema.
Quero deixar claro que não sou contra programas como o Desenrola. Eles são importantes, sim. Podem representar uma oportunidade real de recomeço para quem está sufocado. Mas só fazem sentido quando acompanhados de mudança.
Antes de aderir, é fundamental que cada pessoa faça um diagnóstico financeiro:
- Quanto eu ganho?
- Quanto eu gasto?
- Para onde vai o meu dinheiro?
- Quais são minhas prioridades?
- Quais são meus objetivos?
Sem essa análise, qualquer decisão será tomada com base na urgência, e não na consciência. E isso é extremamente perigoso.
Se o trabalhador utilizar o FGTS sem mudar seu comportamento, pode até sair da dívida agora, mas ficará mais vulnerável no futuro. E o mais grave: poderá voltar ao endividamento sem a reserva que tinha antes.
Como profissional da Educação do Comportamento Financeiro, afirmo com convicção: a solução está na causa. Ela passa por método, organização, definição de objetivos e uma relação mais consciente com o dinheiro. Enquanto não tratarmos isso como prioridade no Brasil, continuaremos assistindo a programas que aliviam o presente, mas comprometem o futuro.
O Desenrola Brasil 2.0 pode, sim, ser uma oportunidade. Mas, sem mudança de comportamento, será apenas mais um capítulo de um ciclo que insiste em se repetir.
E esse é o verdadeiro problema que precisamos enfrentar.
Para quem deseja entender melhor o programa e, principalmente, como utilizá-lo de forma consciente, disponibilizei uma aula gratuita sobre o tema, abordando as mudanças, os riscos e a aplicação prática da Metodologia DSOP:
Gostou do artigo?
Quer saber mais sobre por que renegociar dívidas sem mudar o comportamento financeiro pode apenas adiar o problema? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em orientar você.
Um grande abraço,
Reinaldo Domingos
PhD em Educação Financeira, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (Abefin) e da DSOP Educação Financeira.
https://www.dsop.com.br
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