Além das Flores e Bombons: Onde a Empatia e a Estrutura Se Encontram para a Real Equidade
Neste 8 de março de 2026, Dia Internacional da Mulher, convido você a silenciar por um instante o ruído das celebrações corporativas para escutar o que os dados e as necessidades não atendidas das mulheres nos dizem. Se as flores simbolizam o afeto, que a nossa estrutura organizacional simbolize o respeito real. Este artigo é um chamado para transformarmos rituais de um dia em compromissos sistêmicos de uma vida inteira, endereçando as sombras da violência e as barreiras invisíveis que ainda impedem a plena expressão do potencial feminino nas grandes corporações.
Março de 2026. Entro no elevador de uma grande corporação e o cenário se repete: o balcão da recepção está decorado com tons de rosa, cestas de bombons finos e cartões que exaltam a “força e a delicadeza” da mulher. Enquanto observo essa cena, sinto um aperto no peito que a Comunicação Não-Violenta (CNV) me ensinou a identificar rapidamente. Não é ingratidão pelo gesto, mas uma tristeza profunda pela desconexão.
Quando olhamos para as necessidades por trás desses mimos, o que encontramos? As organizações tentam atender à necessidade de celebração e reconhecimento. Mas, para as mulheres que compõem a força de trabalho hoje, as necessidades que gritam — e que muitas vezes permanecem mudas nos corredores — são outras: segurança, equidade, justiça e integridade.
Flores morrem em uma semana. Bombons adoçam o paladar por minutos. Mas a cultura de dominação que mantém mulheres sub-representadas e vulneráveis é um sistema persistente que exige mais do que um orçamento de endomarketing.
O Espelho da Realidade: Números que Não Podemos Ignorar
Não podemos falar de liderança feminina em 2026 sem encarar as sombras que nos cercam. Os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que, apesar dos avanços tecnológicos e da dita “modernidade”, a violência contra a mulher atingiu patamares alarmantes no último ano. O feminicídio e a violência doméstica não são problemas “lá de fora”; eles entram na empresa toda manhã, escondidos sob a maquiagem, no silêncio de uma colaboradora que não consegue se concentrar ou na ausência frequente de uma liderança que está tentando sobreviver.
No mercado de trabalho, o cenário ainda é de uma caminhada em subida com ventos contrários. O Global Gender Gap Report 2025 mostrou que, no ritmo atual, a paridade salarial plena ainda está a décadas de distância. Nas grandes empresas brasileiras, embora tenhamos mais mulheres na base, o fenômeno do “degrau quebrado” persiste: o salto da gestão média para a alta liderança continua sendo o ponto onde mais talentos femininos se perdem, muitas vezes pela falta de redes de apoio estruturais e pela persistente penalidade da maternidade.
A Crise dos Sistemas de Dominação
Para entendermos por que a transformação é tão lenta, precisamos usar uma lente sistêmica. Vivemos, historicamente, sob sistemas de dominação — modelos sociais baseados na hierarquia de valor, onde um grupo precisa estar “acima” de outro para se sentir seguro ou poderoso.
Nas organizações, esse sistema se manifesta no comando e controle, na valorização da disponibilidade integral (que ignora a economia do cuidado) e na ideia de que a vulnerabilidade é uma fraqueza. O que estamos vendo em 2026 é o esgotamento desse modelo. A crise de saúde mental, o burnout galopante e a dificuldade de retenção de talentos são sintomas de que os sistemas de dominação não servem mais à vida.
A responsabilidade das organizações não é apenas “ajudar as mulheres”, mas sim liderar uma transição cultural para sistemas de parceria. Quando uma empresa decide investir seriamente em equidade, ela está, na verdade, escolhendo interromper um ciclo de violência simbólica e estrutural que sustenta a desigualdade.
O Investimento em Mulheres como Motor de Vida (e de Negócios)
Frequentemente, sou questionada por RHs e CEOs sobre o “ROI da diversidade”. Embora os dados de Harvard, McKinsey, FGV, USP etc (estudos que acompanho há anos) comprovem que lideranças femininas aumentam a lucratividade em até 15% e melhoram o clima organizacional em 25%, eu convido vocês a olharem além do lucro.
Investir em mulheres na liderança é um investimento na saúde da sociedade. Mulheres líderes tendem a priorizar a segurança psicológica e a colaboração — pilares da CNV. Quando uma mulher ocupa um espaço de decisão com autonomia e apoio, então ela tende a abrir portas para outras. Dessa forma, cria um efeito cascata que humaniza o ambiente para todos, inclusive para os homens, que também são prisioneiros das expectativas rígidas do patriarcado.
Uma organização que tem mulheres em cargos de poder, com salários iguais e políticas de apoio à parentalidade, é uma organização que emite um sinal claro para a sociedade: “Aqui, a vida vale mais que a manutenção do poder à qualquer custo”.
Um Chamado à Ação para o RH: Da Cosmética à Estrutura
Se você trabalha em RH ou lidera uma grande empresa, então meu convite para este 8 de março é que façamos um exercício de escuta profunda. Em vez de perguntar “que brinde vamos dar?”, pergunte:
- Quantas mulheres em nossa empresa sofreram interrupções de fala em reuniões hoje?
- Qual é o plano de carreira real para nossas colaboradoras que retornam da licença-maternidade?
- Nossa liderança está capacitada para identificar sinais de violência doméstica e oferecer suporte emocional e jurídico?
- Estamos dispostos a rever nossos critérios de promoção para eliminar vieses inconscientes que privilegiam o modelo masculino de “sucesso”?
A transformação cultural que buscamos exige coragem para abandonar o conforto do superficial. Exige o luto por privilégios antigos para que possamos celebrar a alegria de uma sociedade com mais equidade e justiça.
Neste Dia Internacional da Mulher, que as flores sejam apenas um complemento a compromissos públicos de mudança estrutural. Que os bombons sejam o toque de doçura em uma jornada de trabalho que respeite o tempo, a carga mental e a dignidade humana.
Estamos aqui para caminhar com vocês nessa jornada. Porque a equidade não é um destino, é uma prática diária de conexão, empatia e coragem.
Vamos além das flores? Sejamos a mudança!
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Quer saber como promover equidade real na sua organização e ir muito além das homenagens simbólicas no Dia Internacional da Mulher — transformando-as em compromissos estruturais permanentes? Então, entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Kaká Mandakinï
Especialista em CNV, Diversidade. Equidade e Inclusão, e acredita que a comunicação autêntica é a chave para transformar organizações em ecossistemas de vida.
https://www.diversidadeagora.com.br
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