
Produtividade ou Precarização: Será esse o Novo Contrato Social com IA?
Prezados amigos deste espaço, hoje o tema será bem provocativo e para muitas reflexões, seja quanto a gestores e lideranças empresariais, ou mesmo por aquelas pessoas que se interessam pela temática do trabalho. E, nesse sentido, vou me basear nas principais conclusões do Fórum de Davos 2026, alinhando o futuro do emprego e a presença da chamada Inteligência Artificial (IA) nas nossas vidas.
O Fórum de Davos consolidou um consenso pragmático: a inteligência artificial (IA) não é apenas uma tecnologia a ser adotada, é um fator estrutural que redesenha tarefas, modelos organizacionais e políticas públicas. Ao invés de um choque único e que elimina empregos em massa, os debates apontaram para uma transição complexa e desigual, em que ganhos de produtividade e novas funções coexistirão com deslocamentos setoriais e diferentes formas de pressão sobre as habilidades humanas.
Resumidamente, a IA e trabalho vão conviver, nos próximos anos, com o seguinte cenário:
- Redesenho do contexto: Empresas vencedoras serão as que redesenharem processos para sinergia humano-máquina, não apenas as que comprarem ferramentas de IA. Isso implica reconfigurar tarefas, criar papéis híbridos e investir em gestão da mudança;
- Aceleração da automação de tarefas repetitivas: Funções com alto conteúdo repetitivo e previsível serão automatizadas mais rapidamente. Ao mesmo tempo, haverá demanda por habilidades cognitivas superiores, criatividade, supervisão de sistemas e ética aplicada;
- Mudança nas competências: A ênfase desloca‑se de diplomas formais para capacidade de aprender continuamente. Nisso estão incluídos a alfabetização digital, o pensamento crítico e as habilidades sociais. Programas de requalificação e microgestão ganharão centralidade;
- Novos modelos de empregabilidade: Espera‑se maior diversidade das formas de trabalho, tais como o contratado por projeto, as plataformas digitais e os contratos flexíveis, exigindo assim redes de proteção social bem adaptadas.
Impactos da IA na América do Sul e Países em Desenvolvimento
Particularmente, há um olhar todo próprio e específico para o que se pode esperar com relação aos países do Terceiro Mundo, e especificamente na América do Sul. As conclusões apontam para quatro pilares fundamentais:
1. Mais de uma velocidade de transformação
Países com infraestrutura digital, capital humano e mercados integrados conseguirão capturar os benefícios da IA mais rapidamente. Na América do Sul, isso criará uma divergência interna, com centros urbanos e setores exportadores (fintech, agronegócio de alta tecnologia, serviços digitais) avançando, enquanto regiões rurais e economias informais enfrentarão maior estagnação.
2. Risco de precarização e informalidade persistente
Sem políticas ativas de requalificação e proteção social, a automação pode empurrar trabalhadores para formas mais precárias de renda. Será a expansão de um mercado de trabalho baseado em tarefas temporárias, projetos pontuais ou serviços sob demanda, em geral realizados por profissionais freelancers ou independentes, sem vínculo empregatício. Isso reduzirá a renda média e aumentará as desigualdades (que já são críticas). A experiência de países que já enfrentam altas taxas de informalidade torna esse risco particularmente relevante na América do Sul.
3. Janela de oportunidade para saltos de produtividade
A adoção estratégica de IA em setores-chave (agricultura de precisão, logística, saúde básica, educação a distância) pode gerar ganhos de produtividade significativos. Os projetos públicos‑privados e parcerias com plataformas globais podem acelerar esse processo, desde que acompanhados de políticas de inclusão digital. Vale lembrar que a agricultura de precisão já é uma realidade no Brasil, permitindo otimizar o uso de insumos, maximizar a produtividade e aumentar a sustentabilidade.
4. Necessidade de políticas públicas pragmáticas
O Fórum de Davos 2026 destacou que a resposta não será apenas técnica, mas política: regulação inteligente, incentivos à requalificação, redes de proteção social adaptadas e investimentos em conectividade são essenciais. Para países em desenvolvimento, priorizar infraestrutura digital e educação básica com foco em habilidades transferíveis é, de fato, mais urgente do que perseguir tecnologias de ponta.
Recomendações Estratégicas para Países em Desenvolvimento
Caminhando para o fim deste resumo sobre as principais conclusões do Fórum de Davos 2026, há recomendações adicionais que fazem muito sentido e dependerão, sem dúvida, de um arsenal consistente de políticas públicas para os países em desenvolvimento:
- Priorizar a conectividade e o amplo acesso, ampliando a banda larga e instalando dispositivos em escolas e centros comunitários para reduzir a lacuna digital;
- Escalar programas de requalificação, incentivando estágios em empresas de tecnologia e parcerias com plataformas para treinar as competências demandadas;
- Focar em setores de vantagem comparativa, tais como agronegócio, serviços de exportação digital, turismo inteligente e saúde remota;
- Modernizar a proteção social, adaptando as regras de seguro-desemprego, os subsídios temporários e os programas de transição para trabalhadores deslocados;
- Estimular ecossistemas locais de inovação, apoiando startups, hubs regionais e incubadoras que traduzam IA em soluções locais;
- Inibir o aumento da desigualdade social com formas de distribuição dos ganhos de produtividade gerados pelo novo ambiente;
- Cuidar para não haver dependência tecnológica externa em regiões onde é mais complexo desenvolver capacidades locais de adaptação e governança de IA;
- Ter plena atenção e formas de atendimento para com as populações vulneráveis (mulheres, jovens sem qualificação, trabalhadores informais), e;
- Governança e ética evitando o uso indevido de IA em vigilância e/ou na seleção de pessoas para funções profissionais. Ou haverá o risco de aprofundar exclusões.
Conclusão: O Impacto no Futuro do Trabalho com IA — Inclusão ou Exclusão?
O Fórum de Davos 2026 deixou claro que o futuro do trabalho em um mundo com IA será misto, e haverá, simultaneamente, a criação de valor para uns e os riscos de exclusão, para outros.
Na América do Sul e em países do Terceiro Mundo, o desafio é transformar a tecnologia em alavanca de inclusão, não em catalisadora de desigualdades. Isso exige escolhas políticas concretas, tais como investimento em conectividade, educação orientada para competências, proteção social adaptativa e excelência em parcerias público‑privadas.
Por fim, essa nova ordem global que se forma no planeta Terra irá cobrar, também, a visão estratégica que coloque a requalificação e a governança no centro da agenda. Sem essas medidas, os países em desenvolvimento correm o risco de ficarem presos na periferia de uma nova economia. Porém, com essas medidas, poderão aproveitar uma janela histórica para acelerarem o crescimento e a inclusão.
Eu sou Mario Divo e posso ser encontrado pelas mídias sociais ou pelo site www.mariodivo.com.br.
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Quer saber mais sobre o futuro do emprego e como transformar o impacto da IA no trabalho em ganhos reais de produtividade sem gerar precarização? Então entre em contato comigo. Terei o maior prazer em responder.
Até nossa próxima postagem!
Mario Divo
https://www.mariodivo.com.br
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